sábado, 23 de março de 2013

Do Poquêr ao Buraco

"Eu queria tanto encontrar

Uma pessoa como eu

A quem eu possa confessar

Alguma coisa sobre mim"

(Pato FU - Eu)
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Meu atual namorado, embora profundamente ateu (é o que ele diz), gosta de astrologia e tem como guru certo "figurão" italiano chamado Paulo Fox. Desde o fim do ano passado, Paulo Fox avisou-nos em recente obra que 2013 seria o ano do Escorpião (a saber, meu signo - com ascendente em Áries). Portanto, as portas do universo se abrirão para mim, iniciando um período fértil de boa fortuna a que durará  cinco anos.
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Também uma vidente russa que conheci em Buenos Aires - viagem na que fui só,  mas voltei junto a mil ideias - disse-me quase o mesmo. Anunciou-me 2013 como o ano da Vitória, entre outras coisas.....
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Daqui a cinco, terei trinta e dois anos. Quando criança, achava que aos vinte e cinco já seria mulher, com trabalho, marido, casa para cuidar. Então veio a revolução feminista e desconstruiu parte do sonho; daí veio o que sou e desconstruiu o que havia restado.
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Aos treze, fui a um vidente: "Você se formará em uma coisa, mas acabará trabalhando em outra muito diferente. Ah! Você se casará com alguém bem mais velho que você". Sempre gostei de vaticínios e até por isso jogo tarot para os amigos. Ultimamente tenho acertado muito; ultimamente, isto é, há dois meses.....depois que vaticinei que meu namorado passaria num concurso público, embora com muitos "contras" e que meu pai seguiria enfermo por bom tempo, decidi parar de jogar.
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Toda essa introdução deu-se para o abrir espaço. Queria jogar uma bomba em meu local de trabalho. Não tendo meios e coragem, escrevo (certamente nenhum colega de trabalho ou "superior" passa por aqui).
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O ano de 2013 começou pessimamente. Minha única alegria é a de saber que meu pai está vivo...Todo o restante, eu disse TODO o restante, poderia ser jogado em buraco profundo, sem quinhão de luz.
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Hoje descobri, por ejemplo, uma "omissão" de certa pessoa amada....ele sabe...não o perdoarei. A fim de não perder o amor, se ainda valer a pena, hei de contornar, mas esta, esta não perdoarei, nunca. Porém, isto é apenas sopro; a chama já estava ardendo há semanas, o que já é outro assunto.
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"Era uma vez O LOUCO

O Louco procurava um trabalho....queria ser......vejamos......queria plantar batatas, mas precisava de alguém para ajudá-lo. Tinha certo dom para o plantio de qualquer coisa (desde que houvesse interesse), mas nunca plantou batatas; logo, procurou um especialista: O Rei de Copas.  Tendo um plano B, o Louco possuía em mente pedir ajuda ao Rei de Paus, caso Copas não se interessasse mais por batatas. 
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O Rei de Copas negou-se, em primeiro momento, a ajudar o Louco, comunicando à Dama de Ouro que o fizesse. Esta dama - a de ouro - possui coração grande, gracioso, compatível com o naipe que a representa. Mas nunca plantou batata. Plantou cerejas, poderia ajudá-lo na arte do plantio, porém....e as dúvidas sobre o manuseio das batatas?
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Então, semanas depois, o Rei de Paus decide , em conferência, dizer que ajudaria o Louco, se este quisesse. Ele queria, mas para fazê-lo abdicaria de uma série de coisas, assumiria uma série de problemas nos quais não quis se envolver, pois o rótulo da loucura já lhe havia sido dado.
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Pois bem. Tentou negociar com a Dama de Ouro, que se negou a aliar-se a Paus no plantio das batatas. Isto porque, em sigilo, Copas já a havia dito que ajudaria Dama e Louco, porém como segundo encarregado (sabe-se lá por quê).
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Louco de raiva, O Louco deixou esta conversa pra lá, porque há coisas além de batatas a serem plantadas no terreno da vida.
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Mas um ano se passou. Chegou o momento da plantação e a Dama - a de coração grande - disse-lhe que não sabe plantar batatas, e propõe que plantassem inhames. O Louco se recusa. Dama fica insatisfeita, porque tampouco gostaria da ajuda de Copas, Paus ou Espadas, caso houvesse um. O Louco, pobre, escuta tudo em silêncio e se dá conta de que terá muitos problemas vindouros. Ou ele entra neste jogo de Pôquer ou vai acabar no Buraco.
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O Louco não está para Buraco, tampouco Pôquer. Vai se ferrar porque é Louco e não tem paciência para naipes superiores; nunca pretendeu ser um. Gosta apenas de plantar batatas, sua única vontade pontual (não chega a ser sonho).
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Então, simultaneamente, O Louco teve uma discussão inesperada com a Dama de Espada, a que do nada surgiu em sua vida. Esbravejando, disse ao Louco que este não tinha interesse por plantação de morangos: chega sempre atrasado em suas aulas, não entrega trabalhos, não demonstra interesse. O Louco, contudo, argumentou mostrando o contrário: gosta de morangos e os plantaria se já não estivesse louco por batatas. No fim das contas, ambos perceberam que o problema era pessoal. A Dama de Espada fez má ideia do Louco, apenas porque ele disse algo que não disse. A discussão repercutiu no ordenado do Louco, que foi cortado pela Dama de Espada. (É que o louco tem uma série de patrões: todas as demais cartas, praticamente, influenciam em seu ordenado, já pequeníssimo).
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Não obstante, surgiu a Dama de Copas que também cortou parte do seu ordenado, por alguma razão misteriosa. Possivelmente, porque O Louco, depois de longo caminhar, descobriu que não quer ensinar Literatura em escolas; ele só quer  plantar batatas.
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Então, na semana seguinte, em conversa com a Dama de Ouro - a superior mor- esta disse que o Louco devia ter cuidado com o jogo da vida e desconstruir o rótulo que lhe foi dado pelas demais cartas.
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Só para complicar, havia também certo Valete. Embora respeitasse às damas, gostava das aulas do Valente de Espadas em especial. Não sabe bem por quê. Valete de Espadas ensinava como plantar Abiu. O Louco nunca viu um Abiu, que é uma planta de região longínqua  ( O Louco sempre viveu no sudeste); mas, gostava tanto das aulas do Valete que esforçou-se ao máximo para que, ao menos, compreendesse a gênese do plantio de Abiu, realizando assim um medíocre ou bom trabalho final.
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Esforçar-se ao máximo para O Louco é um esforço particular. O Louco gosta de estudar e escrever; contudo, por desorganização vital e patológica perde prazos e não se encaixa nos padrões da "Academia do baralho". Não é como as demais cartas "brancas", tão queridas, mas que são o que são, como ele é o que somos. Brancas ou não, todos são bons no que tem de melhor. Comparar um 2 de Espada com um Louco é justo para certas coisas, mais injusto para outras.
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Voltando, embora quisesse plantar batatas, estudou o plantio de Abiu. Obviamente que o fez de última hora, com o equilíbrio desequilibrado de sempre (Ora, quem suportaria um reino com tantos Reis, Damas, Valetes? Alguns que não se bicam, outros que o fingem; alguns alheios a tudo e a todos....). Pois bem! Plantou o melhor Abiu de toda sua vida e, realizou-se. Dias depois, soube que - assim como Dama de Espada e Copas - o Valete, seu preferido, também cortou o tal ordenado. Louco  enviou um ofício (intermediado por pomba) ao Valete que, possivelmente, lhe dará uma resposta obvia, arrasando-o.
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Louco só deseja uma vida tranquila, plantando batatas. Por temperamento ou azar, perde-se em meio aos grandes naipes, que por grandeza, desconhecem as leis idiossincráticas. O Louco também é muito bonito e charmoso, o que faz com que as atenções da Academia se voltem para ele (....dizem).
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Mas nem tudo é desconcerto. Há por exemplo Az de Copas, favorita do Louco, cuja alma, generosidade e intelecto são demasiados grandes para serem compreendidos naquele lugar. Há os que, apesar dos pesares (pois são cartas tão humanas), admitem suas limitações e se humanizam. Por outro lado, há o ego, a vaidade, o rancor, a politicagem e a falta de vontade do Louco em ter uma promoção de naipe.
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De qualquer forma, com seu atual-medíocre-ordenado, dificilmente chegará a qualquer lugar da Academia.

FIM" 
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Finalizo dizendo que sinto profunda inveja daqueles que sabem o para que vem e  estão. Daqueles que se deslumbram com o que produzem (ou compram); daqueles  que sonham, ardem. Que têm a sorte de terem consigo lugar,hora, pessoa certa; Que trazem nas veias esforço ou dom ou malandragem ou puxa saquismo ou brilhantismo ou tudo ao mesmo tempo.
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Mas, confesso: Gosto do Louco, ele sim me representa e um brinde aos rótulos!

terça-feira, 19 de março de 2013

ABECEDÁRIO DA XUXA II

* René Magritte.

A de Amor
B de Brilhante
C de Capes.

E de Estou cansada.
F de F*** estou.
G de Gostaria de dormir.

H de Honorário
I de Ixi....
J de Jacaré sem lágrima.

[...]
X o que que é?

- É Z de zica...
 * o  D  foi suprimido por  educação.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Abecedário da Xuxa

* Domínio Público.
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A de Amor, 

B de Boi-

C de -cote.

[...]

G de Gente,

H de Humano,

I de Igualdade.

[...]

X o que que é? 

sábado, 16 de março de 2013

Memória de Infância

 
Há poucos minutos, li uma notícia no site do Yahoo (ok, confesso: gosto de uma fofoca, não como gênero discursivo, porém como texto que me incita à leitura posterior, desconstruindo minha estagnação mental e preparando-me para o culto e superior...Cadê meu Hegel? Ah está aqui....em minha cabeceira!) de que Gretcheen, musa dos setenta/oitenta, quer, de todas as formas cabíveis e incabíveis, esquecer os trezentos e cinquenta pornôs feitos durante a vida. Não li o restante da notícia, mas pensei "Pois é, Dona Mnemosine*: todo mundo tem algo pra esquecer nessa vida". 
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A memória existe e a felicidade não: "Há males que vem por vileza e ponto" - disse um transeunte.
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Já  fui rosa que perfumava a casa. Isso  há muito tempo, pois filha única que sou - era a alegria dos pais, os olhos do papai e o coração de mamãe. Então cresci e os problemas chegaram (mas ainda assim, divirto-os no tédio da terceira idade que lhes vêm, sendo esta a função da qual ainda me orgulho: o parvo desempregado da corte).
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Pois bem. Dizem as boas línguas que ainda tenho voz e afinação. Mas quando criança, meu talento musical impressionava. Sabia de cor aquela música imprescindível do repertório brasileiro-brega "O amor e o poder", da Rosana. Possivelmente, na falta do que fazer mediante a visitas indesejadas, meus pais me pediam para cantá-la a quem-quer-que-fosse, exibindo-me como fino (ou talvez brega) rouxinol familiar: eu tinha três anos e cantava. Depois veio  o Ballet e me tornei insuportável. Se tivesse dinheiro, naquela época, não teria hoje esse Blog, pois todos pensavam - inclusive eu - que "aparecer" era o meu fatídico destino.
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"Mas tudo cai por terra" - disse outro passante.
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Sou paulistana e filha de mineiros. Morávamos em São Paulo, mas de quando em quando mamãe trazia-me para à terra das montanhas (lembro-me de que as montanhas de Minas, na minha imaginação, pareciam homens e mulheres nus fazendo sexo, isso aos oito....) a fim de visitarmos avó, tios e primos-irmãos. Numa dessas viagens, conheci o rito católico da "coroação à Virgem Maria" que acontecia em maio. Meninas se vestiam de anjo e dividiam-se em coro e protagonista (aquela responsável por cantar três músicas seguidas, oferecendo "à santa" pluma, rosa e coroa nesta ordem). Por diversão, fetiche ou sadismo, Dona Francisca infiltrou-me no meio daquelas meninas, eu vestida de rosa, como parte do coro. Após a cerimônia, também haviam doces, o que me "cayó fatal". Disse: "Mãe, não quero mais ser essa massa invisível e trivial, me coloca pra cantar porque  nasci e vinguei". 
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Desde então, ao longo de muitos maios, vínhamos a Minas Gerais para que eu fosse a estrela. E como gostava daquilo! Conhecia todas as canções, de "mãezinha do céu"   a "Céu de mãezinha". Vestiam-me com adereços brancos, arranjavam-me o cabelo, eu era o centro do mundo e brilhava "que menininha linda a sua, Maria!".  Subia ao altar como noiva de Deus e soltava o "berrão" tal qual fino (ou brega) rouxinol familiar...
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..até os sete, quando o trauma aconteceu. Trauma: apenas hoje, vinte ou vinte e um anos depois, encontrei a foto acima e senti medo. Contei o "causo" a meu psicanalista/psiquiatra/e amigo (sim, há uma transferência aí, mas ele não sabe) nesta semana, sentindo-me pronta para a escritura.
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Maio de 92, Ervália, Minas Gerais. Eu e minha indumentária: vestido branco, asa branca (dada por um tio), luvas brancas, meia-calça branca, sapatos brancos (os mesmos de sempre, porém lindos) e uma coroa que tocava o céu. Após as aulas de canto, sabia todas as músicas de cor. Não era a primeira vez, portanto, sabia o que fazer.
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Levaria comigo duas rosas vermelhas. A pluma e a coroa me seriam entregues pelo Padre - o mesmo que me batizou - e  só não realizou o meu casamento, porque nunca me casarei e o padre, pobre, já morreu.
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Mamãe, avó e tia preparavam os doces. Eu era toda medo. Um medo profundo. Talvez seja essa a minha primeira lembrança do medo. Não, a segunda, já me veio outra agora (...de quando entramos em um ônibus certa vez pra Minas, mãe e eu.  Meu pai, que trabalhava, não iria conosco, mas fez que sim, para que eu não chorasse. Ficou minutos no ônibus ao nosso lado, como se seguisse viagem porém, com o ligar de motor , desceu acenando-me. Eu chorei tanto, porque pensei que nunca mais o veria, eu não entendia a diferença de viagens e viagens, já naquela época, acho que hoje também não compreendo bem).
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Voltando.
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Naquele maio, não queria coroar. Porque sentia um medo absurdo. Já na casa de minha tia, em Ervália, dei-me conta de que havia esquecido todas as músicas: o branco da memória era reflexo da indumentária, branco profundo. Sei lá por que, não disse nada. Continuei a ser preparada para o evento como boi-a-matadouro. Intimamente, não queria estar ali, algo estranho aconteceu:
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eu-não-era-mais-eu, 
eu- queria-mas-não-quero-mais.
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Chegamos. Vinte e cinco meninas, igualmente lindas, formavam um cortejo atrás de mim. Eu, primeira, com as rosas murchas na mão. Foi quando a coragem me veio e disse: Mãe, não quero coroar, eu esqueci tudo. Minha mãe não ouviu.
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Hoje sinto inveja das crianças que choram e esperneiam, quando sentem vontade: em festinhas de escolas, espetáculos de Ballet, coisas do tipo. Já muito responsável naquela época (porque sou responsável para certas coisas....) não consegui gritar, chorar, desistir. Eu não queria estar lá; o branco tomou conta das minhas expressões faciais; o desespero me tomou quando vi aquele padre tão alto e tão branco, branquíssimo, do tamanho de uma tábua branca. Vamos?
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Apaguei da memória o trajeto. De repente, já estava no altar montado, acima da santa e com anjos a minha direita e esquerda. Lembro-me vagamente de que comecei a cantar. A verdade é que inventei as músicas, literalmente. Recordo-me bem da anjinha ao lado, minha ajudante: esta olhou-me com cara de quem nada entendia. Continuei. Misturei todas as músicas do mundo, criando novas três canções religiosas, uma delas, talvez "A Santa e o Poder", de Madre Rosana. Cantei baixinho as minhas composições, até o fim.
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Desci as escadinhas, segurando choro (mas fiz xixi na roupa). Em casa, chorei o dia inteirinho. Ninguém percebeu? A rotina na casa da tia se deu normalmente. Uma voz desconhecida me disse "Por que chora, Amanda? Você cantou muito bem!". O fato é que ninguém percebeu, ouviu ou compreendeu; ninguém se deu conta de que morria ali uma cantora, nascendo, por falta de escolha, uma compositora em potencial.  
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Sinto-me frustrada.
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Nunca mais coroei. Acho que uma vez mais, porém pedi a minha mãe que voltasse para o coro. Comi os doces, brinquei com as crianças e aquilo me foi suficiente.
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Sinto medo por tudo o que é extremamente branco. Se por um lado isso me tornou uma pessoa insegura, por outro (talvez) tenha sido determinante para a minha formação como sujeito: após tal incidente, escrevi uma redação na escola ( a que foi censurada, um dia conto) sobre "meu amiguinho capeta"; li todo o apocalipse, aos nove; fiz minha monografia de conclusão do curso de Letras  sobre a representação do Mal. Possivelmente, na ausência de imprevistos, escreverei minha  dissertação de mestrado sobre as moralidades de Gil Vicente, tendo como corpus o Auto da Glória e o Auto da Alma.
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Tornei-me uma pessoa tímida. De certo não pareço, faço traquinagens para disfarçar, ainda tenho postura e cara de quem dançou a vida inteira, mas trago comigo um mundo interior muito complexo.
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Em maio de 92, decidi nunca mais subir a um altar; finjo, contudo, se acaso vier a necessidade. Mas com a "tranquilidade" das mentirinhas infantis.
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 Fiat voluntas Dei

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***Mnemosine ou Mnemósine (em grego Mνημοσύνη, pronounciado /mnɛːmosýːnɛː/) era uma das Titânides, filha de Urano e Gaia e a deusa que personificava a Memória. As Nove Musas são filhas de Mnemósine com Zeus.

sábado, 2 de março de 2013

A MENOR MESTRANDA DO MUNDO (biografia)


"Quem sabe a que escuridão do amor pode chegar o carinho"
(Clarice Lispector - A menor mulher do mundo)
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À irmã Kamila Gabriela Jacob
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Nas profundezas do Bairro Vale do Sol, Amanda - ainda muito jovem e recém chegada às terras viçosenses, que de viçosas nada tinham (até aquele momento) - topou com uma tribo familiar de uma amorosidade surpreendente, os Jacob's. Mais surpresa, pois, ficou ao ser informada de que naquela família existia uma então pré adolescente chamada Kamila Gabriela. Nossa história começa aqui, no ano de 2005, talvez em março, talvez em abril.
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Havia sido convidada para uma reunião da Pastoral da Juventude. Imaginava, comigo mesma, uma série de jovens vestidos em cores clássicas ou coloridíssimas, além de um menino com violão e grande crucifixo no pescoço...(é que sempre há um nesse tipo de evento). Desconstruí todo meu imaginário acerca daqueles "pjoteiros" (que durante anos me foram como família), quando me deparei com ela....Kamila Gabriela.
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Toda trabalhada num pretinho nada básico, com botas e boina igualmente negras, além de um adereço de caveira, pensei: "É....a juventude católica mudou muito dos oitenta pra cá". Foi assim que a conheci. Não trocamos uma palavra naquele dia, apenas telefones e emails, pois , a partir de então, trabalharíamos juntas naquele grupo juvenil cuja causa nos era comum: a juventude, a justiça, a alegria da vida.
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Finalizo essa introdução, fazendo minhas algumas palavras de Clarice - a Lispector, para finalmente dar início a tal biografia mais que encomendada (porque já ia dormir quando ela, Kamila Gabriela Jacob, intimou-me à escrita...)
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Poderia começar dizendo o quanto já rimos e choramos juntas; o quanto já bebemos juntas - cerveja, vodka, cachaça. Outra alternativa seria iniciar falando de nossos melhores amigos em comum, Mara Jacob e Roni Lima; também podería dizer que levamos "pés na bunda" praticamente juntas - ela em janeiro, eu em março - mas pensei ...."isso não cairia muito bem nesse texto que será lido por seu atual namorado, Fádeo, uma das melhores pessoas que já conheci". Poderia, ainda, relatar quantas e quantas vezes nos encontramos em várias cidades de Minas ou em sua linda casa, cuja família (um pai, uma mãe e duas irmãs extremamente fofas) me acolheram com todo amor só possuído pela tribo dos Jacob´s. Poderia lembrar, ainda, que quando  enferma, enquanto muitos pensaram que eu nunca mais retornaria à sanidade, Kamila Gabriela Jacob me visitava diariamente no hospital e me dava comida em aviãozinho, contando-me histórias de ninar... (mas como estava doente, essa parte foi apenas o que me contaram, a memória apagou). Por fim, poderia iniciar dizendo o quão importante é esta garota para mim, o quanto a amo, mas sei que em textos como esse, deixa-se as melosidades para o final e assim o farei. Logo, começo por descrevê-la e recordar uma ou duas histórias divertidas.
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Kamila sempre foi linda. Baixinha como uma florzinha rosa, dessas que se encontram em jardins de avós, mas extremamente forte, como uma mulher de dois mil anos. Cinco aniversários mais jovem do que eu, invejava a inteligência e perspicácia daquela menina que, desde os quinze, já sabia o que queria da vida: o que era mesmo? Pois bem, pulemos essa parte.
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Kamila sempre foi extremamente charmosa, sexy e sedutora, não havendo homem que por ela não se apaixonasse. Um dia, surpreendi-me quando meu pai disse "A sua amiga Kamila é a única que me cumprimenta na rua". Não levei aquilo em consideração. N'outro dia, havia uma mensagem no facebook de meu pai (sim...ele tem um facebook, assim como minha mãe e meu cachorro, e nos comunicamos melhor assim): "Oi tio!" - nada enciumada, achei graça, apenas. Porém, certa vez, notei que meu pai "curtia" todas as fotos postadas por Kamila Gabriela. TODAS. Naquele momento, dei-me conta... "Caralho, até  meu rabugento pai ela conquistou, cuma??"



Meu pai é o maior admirador sexagenário de Kamila Gabriela e não se fala mais nisso. Mas também? Como não se apaixonar por aquela menina: linda, inteligente, divertida, com um senso de humor capaz de dialogar com um recém nascido, um japonês nativo ou um velhinho caduco vendedor de pão com salame. Os cachorros amam Kamila Gabriela, os hipsters amam Kamila Gabriela: os góticos, os bicho-grilos, os playboys, os agroboys, os nerds, os emos, os católicos, os protestantes, os ateus, os judeus, as paty's, as puxa-saco...Todos! O movimento feminista, o movimento contra a homofobia, o movimento negro, o movimento daqueles que não se movimentam: O mundo ama Kamila Gabriela. Até um desenho animado a amaria, caso tivesse vida. Por quê? 
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Porque Kamila Gabriela, embora baixinha como flor rosa de quintal de vó, é grande de alma. Tem uma alma que acolhe a qualquer ser humano e não humano. E não só: Kamila Gabriela é original. Não se importa com o que pensam dela, se a acham louca, se a acham besta, se a acham brega. Kamila Gabriela poderia, se fosse mais alta, ser a presidente do país, porque - sendo a menor mestranda do mundo em Economia pela Universidade Federal de Viçosa - pouco falta para que ela alcance o céu. Quero ser ela quando crescer...
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Além disso, Kamila Gabriela sabe dança de rua e luta judô, embora seu quarto seja cor-de-rosa e cheio de bonequinhas de porcelana. Paradoxo? Não! É que Kamila Gabriela gosta de confundir, de modo que ninguém a conhece de verdade, apenas seu pai, sua mãe, suas irmãs, e seu namorado Fádeo.
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Certa vez, saímos juntas pelas ruas de sei lá onde vestidas de bailarina. A única bailarina era eu, mas que importava a Kamila? Ela também é atriz e jogadora de truco nas horas vagas. Nunca jogamos truco; porém jogávamos Mal-Mal (ou Mau-Mau) e ela sempre perdia. Mas sendo tão perfeita, creio que perdia propositalmente, a fim de que não nos sentíssemos muito humilhados.
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Kamila também estuda retórica nas horas vagas. Como amiga conselheira, deu-me diversas broncas e conselhos, impedindo-me muitas vezes (ou não) de que cometesse grandes burradas:
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- Eu vou lá, na casa dele, e dizer tudo o que penso.....
- Amanda, ele não te ama mais. Aceita isso.

(dois anos depois)

- Eu vou lá, pegar o celular, ligar pra ele e dizer tudo o que penso.....
-  Amanda, faça isso mesmo, porque ele foi um filho da puta.

(um ano depois)

- Compro a passagem hoje e vou lá, na casa dele, dizer tudo o que penso....
- Amanda, se ele estivesse interessado em você, ele não teria dito "não vem, na minha casa, dizer tudo o que pensa sobre mim".

(Domingo passado)

- Ah eu não vou lá não....tô com medo.
- Amanda, você vai. Ele tá certo, você não.
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Além do curso técnico em oratória/retórica que ela fez (à distância), possivelmente leu o Best Seller "Como manipular amigas usando palavras chave" - porque sim! Ela acertou em tudo. Sempre.
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Já brigamos vez ou outra, mas nossas brigas eram de riso. Temos uma amizade atípica: embora não nos vejamos com frequencia, quando nos encontramos a sensação mútua é a de que sempre estivemos lá. Por isso a chamo de AMIGA, em letras garrafais.
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Quando soube de que havia passado no Mestrado em Economia da UFV, senti um orgulho tão grande como sentiria por uma irmã ou filha. Orgulho que não senti quando eu própria passei. Embora seja, Kamila Gabriela Jacob, a menor mestranda do mundo, a competência dessa mulher nunca será medida por sua altura física; quiçá por seu coração: grande como globo terrestre em 3D.
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Kamila: Eu te amo. E tudo o que posso desejar a você nessa etapa (que não é nova, porque há tempos acompanho seu esforço e o orgulho que seus pais têm de ti) é que sejas feliz. Se algum dia, você perceber que a felicidade acabou-se, que o amor acabou-se, que o mundo acabou-se, recomece. Não tenha medo do que será dito ou des-dito; recomece. Vista seu negro casual, coloque suas botinas antigas, sua boina e adereço de caveira e siga adiante. Porque somos muito jovens e, no fim das contas, só a felicidade realmente importa, mais do que qualquer titulação ou salário milionário de economista. (Bom......se for um salário muito alto....pense sete vezes).
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Um beijo da amiga Amanda
( e do meu pai, da minha mãe, e do Snoppy).

"- Pois olhe - declarou e derrepente uma velha fechando o jornal com decisão - pois olhe, eu só lhe digo uma coisa: Deus sabe o que faz."
(Clarice Lispector - A menor mulher do mundo).