
*Lagartixa Acrobata. Foto de André Gonçalves
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Há alguns dias, notei a presença de um novo companheiro (ou companheira) que rodeia minha janela, do lado de lá, posto que esta permanece ainda fechada por tão pouco. Trata-se de uma lagartixa. Uma das minhas ex´s sogras temia severamente a existência do pobre réptil; porém, decidi deixá-la viver e se divertir às custas da minha pretensa ignorância. Também nunca me afeiçoei o bastante ao pobre animal, es decir: tanto como a ex sogra, detesto tal exemplar doméstico enraizado em todos os cantos do meu país e paredes. Ainda assim, observo-a diariamente, antes de deitar-me. Como se a invejasse ou admirasse (não há paradoxo aqui), devido a sua paciência em todos os dias insitentemente visitar-me, sinal da mais pura amizade.
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É tão paciente, tão conformado - o animalzinho - causando-me pena nos primeiros dias e, diferente do que faria anos antes, concedi-lhe, como Deusa, o dom da vida. Por fim, diariamente tenho recebido em troca uma espécie de consolo ou grande presente: minha observância curiosa, a que também sucede ao pueril réptil - futuro imenso lagarto - encantou-me quase como um novo amante. Diariamente, após alimentar-se de seus insetos, sem os quais não sobreviveria, minha nova amiga (ou amigo) passa minutos a me observar, indagando-se a respeito de minhas angustias razas; inconformada, talvez, pelos medos e ansiedades alimentados, sem os quais também não sobreviveria. Entretanto, seja lá por qual razão, continua - a lagartixa - a observar-me, fiel cão. E por empatia, sinto que me compreende; e , mais do que um presente gratuito (porque a janela nunca será aberta a esta hora, tenho pavor), é como se quisesse beijar-me e dizer amigavelmente que a vida é mais simples do que pensamos; é preciso paciência, preciso - às vezes - teimar em retroceder para que, com impulso mais corajoso (provocado por passos às vezes enganosos, os quais, ambiguamente, fazem-nos retroceder por demais: perdermo-nos ou confundimo-nos) o salto a prazo indefinido, conquistado pelo impulso da distância medida, tornar-se-á austero, dignificante; vivo.
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Quando voltar, se é que voltaremos, já estará morta minha pequena nova amiga; porém, dias desses, hei de abrir a janela, ainda fechada, para dar-lhe seu merecido olhar, concreto de reciprocidade.
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Não reclama desse calor excessivo, tampouco do frio e da chuva (para mim, calor infernal). Prostada a minha espera todas as noites, tornamo-nos cúmplices, compatilhando sensações, medos que vão além de mim e destas palavras sem brio. Mas, quando a observo, sinto paz. Como se houvesse alguém a quem pudesse confiar, verdadeiramente.
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O mesmo sucedeu com uma borboleta-bruxa, a que pousou sorrateiramente do lado de fora da minha janela. Esta, no entanto, causou-me horror. Expulsei-a, mesmo plena de uma estranha e icogniscível doçura - a da bruxa. Após o veredicto... Pena: Não a assassinei, como teria feito anos antes, mas dispensei sua amizade, deixando-a livre.
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Ficou, então, mimada e só, minha lagartixa apaixonada (embora a janela esteja fechada neste momento).
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Não sofre de ansiedade, não reclama do calor destas bandas (o qual aumenta com este tempo chuvoso, pelo menos pra mim...Odeio calor excessivo). Apenas, limitando-se ao que está fora de mim, tenta adivinhar quem sou.
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Há tempos não encontro ninguém que me tente adivinhar; todos me julgam previsível: ou demais passional ou demais conformista, conformada, perdida.
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Meu novo amigo, ou amiga, a quem amo - porque o deixo viver, embora a longo prazo há de se tranfigurar em um lagarto asqueroso - não me julga: só adivinha. Ele, ou ela, observar-me atentamente todas as noites como quem diz:
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"Somos da mema estirpe, mulher: sobrevimemos às duras rupturas, como o fazem com minha calda; mas, depois do suportar da dor, regeneramo-nos, sempre. Ainda que eu nunca mais te veja - porque a minha vida é curta, a tua é longa, presumo, espero, lembre-te: Falta-te a paciência necessária para se dar conta de que tua capacidade de regeneração é infinita. Também como a de amar e a de construir coragem. Um passo atrás e o impulso para um bom salto será maior. Sabes disso; dançou durante quatoreze anos, não? Cada um nasce para aquilo que o é. Hoje, só quero uma noite calma e feliz: e com muitos insetos!
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- Humana, o que você quer hoje, da vida, como se fosse tão simples e tão único?"
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- Quero adivinar, sozinha, O nome da(quela) Rosa, por quem me apaixonei.
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