sábado, 29 de dezembro de 2012

BALDERRAMA -- MERCEDES SOSA --- HGPD

Me pongo a cantar....

""Si uno se pone a cantar
Un cochero lo acompaña
Y en cada vaso de vino
Tiembla el lucero del alba

Zamba del amanecer
Arrullo de balderrama
Canta por la medianoche
Llora por la madrugada"

(Balderrama - Mercedez Sosa)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Debussy: Suite bergamasque - 3. Clair de lune (1890-1905)

Os bons morrem jovens...

"Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade.
E o que sinto não sei dizer...."
(Tio Dário - 1955 - 2012)

R.E.M. - Everybody Hurts (Video)

Sobre o que restou

Estrelas. Foto de Natalyê
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Uma laparotomia. Iniciou-se [assim] um dos períodos mais críticos da minha vida (familiar) e hoje, dois meses depois, é impossível não avaliá-lo com outros olhos, olhos de indignação e pena. Pena pelos passantes que somos, seres à mercê desse grande caos universal que é a vida: nascemos, reproduzimo-nos e morremos.
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Entre coisa e outra, a arte está para nos fazer mais dóceis mediante as mazelas atemporais. Todos os dias, enquanto meu pai se recuperava da primeira cirurgia (a que deu-se para a retirada de um tumor benigno), em seu  MPqualquercoisa, meu velho escutava as canções do REI ou suas aulinhas de inglês (porque língua também é arte, em todos os sentidos, conotativos ou não). Já na UTI, devido à ruptura da anastomose, eu e multidões cantávamos as canções do Carlos, isto é, do Roberto, a fim de capturar com multidões de retinas qualquer sinal de vida não imediata. 
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Funcionou.
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Hoje, em casa, aderido a uma bolsa de colostomia e a uma hérnia incisional, ele lê. Senta na "poltrona do papai", assiste à novela das nove (porque sim: as atrizes são gostosas e o desejo persiste) e depois, finalmente, lê. Assiste a filmes de arte, filmes de massa, filmes sem graça e rega as plantas do quintal. Convenceu a nosso cão de que ainda é o mesmo homem, apenas mais vivo. Há uma terceira cirurgia a ser feita, aquela que reconstituirá o canal intestinal, livrando-nos de todo o mal. Amém.
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Há uma semana, o aneurisma. Um irmão que o visitara no hospital chocou-se com o próprio destino em forma de aneurisma e se encontra em coma. "Não posso vê-lo", foi a única coisa dita em meio a tantas outras que não saíram por falta de jeito. "Prefiro morrer a vê-lo morto, sou mais velho" - isso saiu ontem, da língua e do coração. "Mas ele já tem netos, você não" - isso saiu de mim, não como profecia, mas por vontade de ser mãe. Tenho pensado em filhos ultimamente e enquanto não os tenho, presto-me a paparicar os alheios e acho que amadureço assim. 
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Continuamos tão passantes quanto antes, na incertidumbre.
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Ganhei livros, ganhei flores, ganhei um amigo (...meu cão que, antes cachorro, converteu-se em ouvidos e olhos nos dias em que estive sozinha neste mausoléu chamado casa). Ganhei rivais, ganhei peso nos olhos, no peito e na pele. Ganhei um mundo novo que já estava aí, mas não podia ser tocado. Hoje de manhã, ganhei a tranquilidade de adivinhar que tudo é transitório, da laparotomia ao destino dos homens, que é o mesmo para todos.
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Tenho dúvidas quanto à morte; é provável que ela não passe de imaginação. Uma soma daquilo que nos restou, carne e humanidade. 
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Conheci uma mulher quem perdeu todos os filhos; também um homem que, para mantê-los consigo, perde-se todos os dias no labirinto da ganância e da infelicidade. Ambos estão mortos, mas respiram, caminham, fazem coisas triviais como escovar os dentes e evacuar. Mal sabem que - pobres passantes que são - estar metade vivo é o mesmo que estar morto.
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Portanto, a morte é a consequência do grande desafio, o da felicidade plena. 
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Ninguém é feliz plenamente, a menos que viva numa montanha, longe das estrelas de carne e osso que são os humanos e os pecados humanos. Conheci uma menina que guardou consigo algumas notas de real (sem permissão) e para que não mais o fizesse, em toda sua vida, fui obrigada a ser dura, seca e mãe. Morri também naquele instante junto dela e de sua vergonha. Nunca esqueceremos tal episódio. 
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Meu pai estuda matemática para não atrofiar o cérebro. Admira-me pessoas que recomeçam do "não caos" até o "caos". Ainda ontem, perguntaram-me o que "você quer ser quando crescer?" - e foi a melhor sensação que tive nos últimos meses, a de saber que ainda posso recomeçar, aprender-esquecer-aprender-esquecer. "Eu queria ser você".
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Conversei com um amigo missionário em Maputo. Invejei tamanha sorte. Queria a vida dele também; tenho um namorado que conhece todas as letras do mundo - da literatura ao cinema. Sei que poderia, com afinco, tornar-me parte assim, mas desconfio de que minha capacidade para o esforço está um pouco gasta. Há tempos não sinto prazer em leituras; desisti de dançar e após a perda do meu último computador tampouco música há nesta casa. Passo os dias refletindo e observando uma mancha escura que há em todas as paredes da minha casa, quase não saio, quase não canto (...porque também gosto de cantar).
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Queria a vida dele também.
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Minha vida está entre parênteses; do início ao fim coisa alguma há, só palavras des-ditas e coisas feitas pela metade. Minha última crise de riso aconteceu ontem, quando ao sair com alguns amigos intuí que havia vestido uma peça de roupa ao contrário. Mas ninguém percebeu.
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O riso é proeminentemente humano, mas tenho a certeza de que meu cão ri às vezes, quando nos vê com roupas de festa (tão ridículas). Conheço uma mulher que só veste roupa de festa, ainda não descobri por que, se está viva ou metade morta. Acordar duas horas antes de trabalhar para "montar-se" é sinal de quê?
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A vida dela não quero.
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Queria ser médica, de verdade. Ás vezes penso nisso depois do mestrado; ás vezes penso no doutorado, ás vezes penso quão infeliz serei caso não decida a tempo aquilo que moverá meus dias deste instante até o fim. 
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Nunca mais quero trabalhar com ensino fundamental. N-U-N-C-A!
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Também gosto de observar as manchas brancas da minha pele, resultantes de luz solar e estresse fundamental. Nunca mais quero sentir tanta raiva como a que senti nestes dias, embora eu saiba que nasci para a cólera e melancolia. 
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Tenho esquecido nomes de coisas e pessoas. Ás vezes, esqueço que sou humana porque me falta o riso. Conheço uma mulher que abandonou a filha após vinte e cinco anos em uma cidade do interior. Minha vontade é a de conhecê-la pessoalmente (a mãe) a fim de medir o tamanho de sua mediocridade.
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No próximo ano, quero me matricular em uma auto escola; retomar minha pesquisa de mestrado e comprar uma bota de cano alto.
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Sobre o que restou, aprender-esquecer-aprender e esquecer.