quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Tentativa de microconto III





INCEPTION


Era domingo de manhã e estava entediado.
Quando, de repente, teve uma ideia original. 
Pensou em voz alta: 
- Faça-se a luz! - e a luz foi feita.
4,54 bilhões de anos depois, viu a merda que havia feito....
Nunca mais pensou em voz alta.
Nunca.




LEI DO ETERNO RETORNO


....
GOL DA ALEMANHA!
GOL DA ALEMANHA!
GOL DA ALEMANHA?
GOL DA ALEMA...
GOL DA....
GOL...
G...

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tentativa de microconto II




RECOMEÇO


Perdera a mãe recentemente. Semanas depois, sentado na varanda da casa onde vivia ha´anos, notou a presença de uma borboleta azul, raríssima, dessas comumente encontradas na Europa e na Ásia setentrional. Não obstante, hora e meia depois, eis que surge a mesma borboleta na suíte do casal, voando sob os cômodos de toda a pequena casa, até posar silenciosamente no ombro daquele homem, ainda desolado. Com a mesma delicadeza, desapareceu a borboleta, deixando apenas o alento para uma alma infeliz. No dia seguinte, decidiu que apostar no jogo do bicho seria boa opção: acertou na borboleta, o homem! Ganhou trinta mil reais; passou em uma igreja, rezou pela alma da mãe e , depois,  tomou uma cachaça no bar da esquina.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

REPROVAÇÃO






REPROVAÇÃO

De onde vem o desejo de
dentro ou fora?
desejo o fora, fácil, factual,
mas martela na memória,
inconsciente, o
desejo de dentro, além, 
aquém das possibilidades.
De onde vem o desejo, dos
livros lidos na infância?
das brincadeiras infantis,
da vontade de mudar o
mundo e suas voltas.
De onde vem, senão de
quem somos,
de quem fomos
do que deformamos
no labirinto do tempo.
De onde vem o desejo de
fora ou dentro?
pouco sabemos sobre nós
mesmos,
só os desejos nos conhecem,
mas quantos deles 
nos convencem?

......
Mudando de pato pra ganso,
a vontade maior
é de acender um cigarro
desses de micro incêndio,
e não ir trabalhar
sob atestado de tristeza.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Tentativa de microconto - PARTE I




DIVERGÊNCIAS MUSICAIS


Ester, professora de inglês, casada há dezessete anos com Jair, locutor de rádio. Em homenagem ao 18° aniversário de casamento, Ester ligou para a rádio onde Jair apresentava um programa matinal, pedindo a canção "Endless Love" - música que marcara os primeiros anos de relação do casal, do namoro no portão até os amassos no fusca  do pai de Ester.... (um fuscão preto 85, de motor 1500). Jair, no entanto, escolhera outra canção para o aniversário de casamento: Despedida, de Roberto Carlos. Meses depois, divorciavam-se no litigioso, ao som de Zezé de Camargo e Luciano.


ESCOLA DE NATAÇÃO JOHNNY MAGALHÃES 

Queria aprender a nadar, mas tinha medo de água. Depois de muitas aulas, aprendeu coisa e outra, sem grande valor. Certa vez, na piscina do clube, arriscou um mergulho simples, recém-aprendido nas aulas de natação, para impressionar a namorada. Bateu com a cabeça no fundo da piscina e nunca mais voltou. Nove meses depois, a namorada dava a luz ao primeiro filho: Johnny Magalhães Júnior. 


NEM TUDO O QUE RELUZ É OURO

Sentiu um calor no meio da noite, um roçar em seu corpo febril, antes ardente e desejoso de carinho. Seria um sonho? Não, um besouro rinoceronte.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A princesa e o castelo


*tela de  Judith Lauand

O Sofia de Buteco (assim mesmo, com u) nasceu em função de uma desilusão amorosa no ano de 2009. Aos poucos, depois do "drama queen" sem o qual não haveria alavancado este blog (porque no fundo no fundo todo mundo gosta de uma boa desgraça, ou, reconhece-se na desgraça do outro...), passei a abordar outros assuntos, criando uma espécie de diário ficcional. 

No decorrer desse processo fortuito, acrescentei uma generosa colherada de resenhas  de discos, filmes, livros, além de criar pequenas colunas que buscavam interagir com meu público virtual. Sim,querido leitor: houve um tempo em que havia por aqui certo público, curiosos em busca de curiosidades.

Com passar do tempo, o ingresso na vida adulta, as obrigações, as desilusões ...(muito além das de ordem "afetiva") bem! perdeu-se um pouco do tempero. Passei a escrever cada vez menos, ora por preguiça, ora por procrastinação, ora por ter outras coisas que fazer. Mas a falta está aberta em algum lugar do "eu", a vontade de escrever que se confunde e se entrelaça com a falta de pingos nos i´s, falta do que dizer, falta do que sentir, e até mesmo falta do que reclamar.

Existe, dentro da dor que é sentida, um pequeno grau de "dor" benéfico que nos move a sublimá-la em forma de arte. Para alguém como eu, que não é artista, um blog foi ao longo de muitos anos o suficiente para tal efeito.Por fim, a ausência de ideias e de palavras. O confronto solitário com a vida real, com a vida adulta: terminei a faculdade, terminei o mestrado, terminei algumas fases, terminei - e com muito pesar- algumas amizades. Comecei um relacionamento seríssimo, continuei fisicamente na mesma cidade, mas com a cabeça e o olhar em tantos outros lugares, a vontade ainda não realizada de ir-me embora daqui, cada vez mais desenhada, delineada, almejada. 

Cheguei a conclusão de que estou, neste momento, como estava há exatos dez anos, só que ao avesso.

Há exatos dez anos eu chegava nesta cidade sem amigo algum. Havia perdido, no ano anterior, uma paixão platônica que movera algumas montanhas e maomés. Terminei o colegial e comecei um namoro com um dos meus melhores amigos, enquanto cultivava ainda uma série de amigos eternos, desses que nos desdobramos para manter, ainda que por meio da escrita (na época, cartas; hoje, facebook e whatsapp). Tinha comigo a dança e uma vocação religiosa discreta, dessas que a qualquer momento poderia me levar a um mosteiro de clausura.

Pelo menos disso me safei, amém.

Tinha muita esperança e vitalidade, porque encontrava na minha dor um pequeno pedaço de. que me impulsionava a qualquer coisa e lugar.

Chegando aqui perdi um irmão, de morte-morrida também. Foi quando então o meu mundo caiu por alguns meses, sem chances de reanimo por respiração boca-boca ou choque via desfibrilador. Foi do caralho.

No meu aniversário de dezenove anos, assisti às aulas do cursinho pagado por meus pais. Desde aquela época queria nada da vida, o cursinho era uma forma lícita de me manter com os olhos bem abertos. Caminhei, após a aula, até uma igreja onde conheci um padre muito jovem e reencontrei uma prima de minha mãe. O padre, tempos depois, apresentaria-me um mundo novo de aventuras; a prima da minha mãe, um melhor amigo. Foi o dia das descobertas, embora eu, imersa numa grande tristeza e falta de sorte, além da saudade da minha terra e dos meus, não pude me dar conta. Mas sim, a vida mudara ali, naquele 10 de novembro de 2004.

Os anos seguintes foram intensos e felizes.

Amizades, amores, descobertas. O curso de Letras, nunca antes sonhado, tornou-se um presente que me acompanharia até os dias atuais. Muitas viagens pelo interior de minas e pelo interior de mim; dois namorados, muitos ficantes, um ficante-namorado-namorido-marido-namorido. Muitos sonhos coletivos, poucos individuais: queria ainda salvar o mundo, rebelando-me em idade tardia, já na casa dos vinte....(porque aos 15 só me interessava o Hanson, a dança, e os amigos de sempre).

Esta felicidade (sim, felicidade) acompanhou-me por muito tempo, deveras. Oito anos, possivelmente. 

Hoje, às vésperas de outro aniversário, vejo-me novamente só em uma cidade desconhecida, cercada por estranhos e sem muitas expectativas. A felicidade romanesca tornou-se felicidade em microcontos. Gênero em ascensão, aliás, mas que exige do seu feitor inteligência e habilidade que não possuo. Pequenos momentos de riso diário; uma festa a cada 30 dias, um barzinho a cada 15; vez ou outra uma entrevista de trabalho frustrada ou a tentativa do doutorado. 

Atualmente trabalho em uma escola do estado. O que antes era um pesadelo ainda está longe de ser sonho, mas o intermédio não deixa a desejar. Não sou apaixonada pelo que faço, mas sim pelos meus alunos....uma paixão ora correspondida, ora não, como toda boa paixão deve ser. Meus alunos são muito inteligentes e vivos; graças a Deus conseguem driblar com facilidade as amarras do sistema educacional falido do qual fazemos parte. Tenho plena convicção de que das minhas três turmas sairão, antes de mais nada, gente de bem; depois, com um pouco de esforço, professores, bailarinos, ginecologistas, designers de moda, economistas, pais de família, eletricistas, desenhistas, escritores, advogados, etc etc. Dentro da dor que é gritar cinco horas e vinte minutos por dia, existe para além disso um riso entre os dentes, desses que saem como anedotas. Enfim, não é mais o fim do mundo.

Em outras palavras, gosto muito do que faço hoje; mas quero fazer outra coisa pelos próximos dez anos. Da vida que tenho hoje eu só manteria, na vida posterior, a família, o companheiro, o cão e a vontade de escrever. Os amigos de "sempre" e aqueles que ainda ficaram por aqui.....embora de forma muito indireta....talvez cinco ou seis pessoas. O mundo de aventuras que me foi apresentado naquele novembro hoje não mais existe; nem em espaço, narrativa ou personagens. Todos se foram. O último se foi há alguns meses, causando-me imenso desconforto. 

Pior do que terminar um namoro é terminar uma amizade verdadeira.

Apesar disso, criamos sem querer mecanismos de resistência que nos fazem sobreviver. 

Sobreviver.

Gosto de chegar à casa dos meus pais e participar das discussões familiares. Gosto dos meus pais....gosto de viajar com eles, da companhia que eles me proporcionam. Gosto das aulas de natação, ainda que saiba que nunca aprenderei a nadar. Não só pelos corpos atléticos dos instrutores (todos lindíssimos, com todo respeito às namoradas, esposas, ou namorados e esposos, também ao meu esposo-namorado), mas pela ideia que faço do dia em que der a primeira braçada (ou seria pernada?). Gosto de filmes, meu universo paralelo. Amo meu  namorado e gosto da história surrealista que construímos juntos; do flerte ao descasamento. Gosto quando estamos juntos, abraçados e rindo de qualquer coisa estúpida. Gosto do seu beijo, e das saladas e massas que faz com maestria. Odeio as nossas brigas, odeio sua veia jugular interna e seu acesso de raiva bipolar. Mas gosto também da paródia que se torna tudo isso ao fazermos as pazes. Alegra-me sair com duas ou três amigas; uma porque me diverte, outra porque a divirto; a terceira....bem, a verdade é que não sei porque gosto da terceira. Também é bom sair de vez em quando com um grupo de amigos, para conhecer um pouco mais o outro lado do atlântico. Fui à São Paulo três vezes este ano, sendo que em uma dessas viagens visitei quase todos os meus amigos de infância e adolescência. Acho que foi a última vez em que me diverti sóbria. Depois daquela viagem, também fui ao Rio de Janeiro e saí alguma vezes por aqui, mas a sobriedade nos passou longe, acenando-nos com óculos escuros. "É preciso embriagar-se". 

Adoro suco del Valle. Melhor que isso, apenas cachaça sem limão.
E gosto muito de barulho de ventania.

No mais, a vida anda bem tediosa. Estamos às vésperas das eleições presidenciais e de um colapso ambiental: não  há água e nem cura para o Ébola. Em tom de protesto, chego em minha nova casa, deito no sofá e durmo. Já de madrugada, acordo para novamente dormir. Quando tenho sorte, sonho - caso não esteja calor, pois quando está, prefiro continuar no sofá à espera de quem me busque com um guindaste.

Apesar do medo de água, descobri que não tenho medo de dirigir. Gosto da velocidade e da ideia de conduzir, afinal eu...non ducor duco (minha próxima tatoo, provavelmente no pé, em homenagem à cidade de São Paulo, a que será feita em São Paulo, aos 30, quando estiver me mudando para a cidade onde viverei pelos próximos dez anos, possivelmente no nordeste). 

Entre coisa e outra, o plano é encerrar o ano aqui mesmo. Depois, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Timor Leste. Doutorado ou aulas em colégios particulares, institutos, ou editoras (revisão, redação, tradução, essas coisas que não exigem grito). Uma viagem em casal, tipo lua-de-cheetos para a Europa; um intercâmbio, daqui a dois anos, para a Irlanda (três ou seis meses). Daqui a cinco anos, um livro; daqui a sete, um filho. Daqui a dezessete, dezessete anos, o tão sonhado diploma em medicina, como a menina da reportagem lida ontem, no momento de insônia. Tudo bem se for uma vida curta e de poucos amigos...mas espero, ao menos, poder voltar a dançar algum dia (incrível como sempre sonho com isso).

Ah! também gosto de comer arroz com grão-de-bico.

Uma parte das pessoa do mundo têm vidas medíocres e frustradas;
Outra, posta fotos no facebook e no instagram das viagens com a turma da empresa e dos bons restaurantes onde estiveram, demonstrando pretensa felicidade da qual duvido. 

Conheço poucas pessoas felizes de verdade. 

Conheci um rapaz bastante feliz, mas ele faleceu há três semanas em um acidente automobilístico. Foi meu amigo. Há outra também, uma menina, mas ela tem seis anos e acabou de ganhar outra irmãzinha. É minha prima.Vestiu-se de princesa no aniversário de cinco anos, com toda a decoração elaborada pela mãe. 

Maior felicidade que isso? 
Só aprender a nadar 
ou reatar uma amizade desfeita.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Todos os dias.
Dias e dias.
Todas as noites.
Luas e Luas.
Aqui ou lá
Juntos.

sábado, 21 de junho de 2014

AGRIDOCE

Foto de Frederico Baptista.
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E quando acordo cedo
De uma noite sem sal

Sinto o gosto azedo

De uma vida doce

E amarga no final
(Agridoce- Pato Fu)



Entrei na página do yahoo agora há pouco a fim de ver a lista dos profissionais mais depressivos do mercado de trabalho, quando sou surpreendida por não constar, na tal lista, a carreira de professor - como em tantas outras listas já criadas. A verdade é que tenho prazer em ler categorizações de qualquer   espécie porque gosto de me auto-classificar em algum grupo, ter um  sentimento de pertença em relação ao mundo: sou professora.
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Mais um post pessimista? Espero que não. Há meses não escrevo no Sofia e por isso, gostaria de falar das minhas viagens futuras, minhas novas perspectivas profissionais, o andamento da minha vida amorosa....meus planos de casamento na Igreja. Mas como todas essas coisas só acontecem n'uma dimensão virtual - a da minha imaginação - só me resta escrever sobre a realidade, a minha - ao menos.
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Trabalhar em uma Escola do Estado, sendo essa a melhor escola da região, veio-me como um presente; os dois problemas são: a região é a da zona da Mata Mineira e o presente é de feitio grego. Gosto muito dos meus alunos. A maioria deles é muito inteligente, muito curiosa, muito emocional, alguns, inclusive, são brilhantes...O problema todo está na superlotação das salas-de-aula e a minha teoria sobre instinto rebanho. Posso dizer que devido a minha curiosidade humana, isto é, o meu prazer em conhecer gente, já conversei com quase todos individualmente e não há como não se apaixonar por cada um. O desafio é quando se unem, quarenta alunos, gritando, jogando giz, desrespeitando o professor - no caso eu, entre outras coisas.
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As pessoas da coordenação são muito gentis, principalmente os colegas professores que, à mercê do mesmo naufrágio , o da educação, ajudam uns aos outros. Ainda assim é difícil: provocar a simpatia alheia, eu que sou chata e tímida por natureza, principalmente das senhorinhas e mocinhas amargas que trabalham ali e que sentem prazer em omitir informações importantes (exceto uma jovem em especial, a quem muito admiro). A minha grande decepção chegou a cavalo no dia em que, ao propor um seminário para as minhas turmas, descobri um jovem que não sabe ler. Um jovem em idade e "turma" avançada. 
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Não só isso, enquanto o garoto esforçava-se para balbuciar timidamente as primeiras silabas, os colegas - do próprio grupo e do restante da sala de aula - riam do sujeito. Não entendendo o que acontecia, parei a aula. "Ele não sabe ler professora". Há 1 mês e meio trabalhando naquela escola, não havia me dado conta de que o jovem não sabe ler (na verdade sabe...). Senti-me um lixo; um zero à esquerda da humanidade, uma infeliz. Se não fosse o medo de altura e água, vontade não faltou em me jogar da primeira ponte mais próxima, morrendo como mártir da educação.
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Estava prestes a chorar quando um dos colegas dele, após o meu esbravejamento (diário....), disse-me em bom tom: "Ele não sabe ler porque você não cumpriu a sua obrigação". 
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STOP
O MUNDO PAROU.
OU FOI O MEU CORAÇÃO?
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Fiz um pequeno escândalo e comecei a chorar. Quase ninguém compreendeu o choro, por demais conotativo que foi: não chorava por haver sido desrespeitada, mas pela pena que senti daqueles 37 indivíduos. Cancelei a aula e conversei com o garoto em particular que, de tão generoso, convenceu-me a dar uma chance aos colegas da "pá virada". Gentileza ainda me emociona. No fim das contas, quase todos passaram "de bimestre" - e com notas boas - porque o importante ali não é o saber, e sim o fazer.
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A segunda decepção veio a galope. Criei um sistema avaliativo no qual a distribuição de pontos consistia, além das avaliações previstas e das atividades curriculares, em dois pontos de conceito: um pelas atividades feitas no caderno e outro por comportamento. Além do seminário que descrevi acima, cuja qualidade não levei em conta; quem o fizesse conseguiria oito pontos de vinte e cinco. Pois, acreditem, leitores....alguns dos meninos se recusaram a realizar as atividades porque sabiam que teriam direito, ao findar do bimestre, a uma recuperação de vinte e cinco pontos. Em outras palavras: não importa se o menino ou menina esforçou-se ao longo de dois meses, obteve média nas avaliações, absorveu o "conteúdo", desenvolveu as capacidades esperadas. Aquele que não o fez, receberia os mesmos vinte e cinco pontos com uma prova tosca, um teste de recuperação. 
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Chamaram-me, a coordenação, para conversar. Explicaram-me que não tinha a "liberdade" de distribuir 1 ponto em 2 porque, sendo abaixo de 60%, o jovem ou a jovem teria direito a também uma recuperação para esses dois pontos. Entregaram-me um nariz de palhaço, restado das festas de carnaval anteriores, e me pediram para que desse outra recuperação. E assim, com esse sistema, lá se vão outros meninos e meninas para o nono ano, sem saber ler, sem saber apresentar um seminário, sem saber o que é respeito ao próximo, sem saber o que é a vida. Afinal, escola não é para a vida, e sim para os dados estatísticos das avaliações governamentais.
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Essas decepções causaram-me um grave problema no estômago. Problema imaginário, como tudo o que me compete, vivo uma vida imaginária. Nunca pensei que aos 28 anos estaria vivendo essas situações. Tudo o que queria, com meu curso de Letras, era aprender a escrever bem e conhecer a literatura mundial; nunca me imaginei numa sala de aula, ouvindo um jovem de 15 anos gritando comigo " Ele não sabe ler porque você falhou".
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A minha vontade era a de jogar tudo para o alto e viajar para a Europa nessas férias. Mas não posso. Por quê? Porque não tenho, ainda, outra formação. Desisti do leitorado em Timor Leste, por motivo de "força maior"; não passei nos dois concursos seguintes que prestei; há meses não estudo línguas, o que somado a dois curtos intercâmbios dariam-me a possibilidade de trabalhar como professora nesses cursinhos de bairro ou quem sabe como secretária (não desmereço essa profissão).
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Decidi continuar (antes que leiam  esse texto e me demitam por justa causa).
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A parte doce, no entanto, é ver como é legal aqueles que se esforçam gratuitamente. Tenho uma aluna (tenho muitos outros, mas uso essa como exemplo), que após ler o Sofia (contra a minha vontade), criou um Blog onde posta crônicas de Rubem Braga, cronista que eu a apresentei através da dinâmica dos seminários. Também me sinto feliz quando algum deles me conta sobre seus "complexos problemas amorosos", confiam em mim, ou mesmo juram de pés juntos que não colaram na prova de português. Um deles, um garoto, sempre me dá um beijo e um abraço na minha chegada e despedida.....e quando faltei, nas últimas semanas, para o concurso que prestei em Belo Horizonte, escreveu-me preocupado, perguntando se havia deixado a escola (o concurso se deu dois dias após a tragédia do seminário descrito acima).
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Agridoce.
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É impossível não se emocionar. Embora eles mal me percebam, reconheço-me em cada um deles, inclusive nos mais rebeldes, deles noto a criatividade necessária para bons escritores e leitores. O que falta então? Confiança! Uma escola cheia de grades, em que os alunos mal podem usar a biblioteca sozinhos, em que há dez recuperações para dez recuperações, para dez recuperações - não me parece um lugar muito atrativo para se estar.
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Gostaria de partilhar com eles coisas da vida, textos da vida, imagens da vida, além do livro didático que - na preguiça de trazê-los - fingem que o cachorro comeu ou esqueceram na casa da namorada (muitos têm namorado e namorada).
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Para variar, o problema está em mim. Não nasci para ser professora, e quando me lembro da minha experiência de Mestrado, dos últimos dois anos, sinto vontade de me jogar (mais uma vez) da ponte mais próxima, não o fazendo pelo medo de altura e água. É certo que entrei nas aulas de natação do meu bairro, e estou, há um ano, tentando tirar carteira.......mas nada disso é desafiador o suficiente. Sobre a experiência de Mestrado, merecerá uma postagem à parte.
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Aquelas crianças, assim como eu, necessitam desafios.
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Recentemente, meu companheiro e eu entramos em uma disputa dramática sobre ciúmes versus individualidade. Enquanto não me decidia se ia ou não a Timor, ele comprou um ingresso para a COPA, acompanhado de um amigo. Ora, gosto muito desse amigo em questão, o problema todo está em que antes de que houvesse COPA, eu pedi a ele que nos comprasse ingressos, porque gosto de futebol e nunca fui a um estádio. Um dia, em que tivemos uma briguinha, ele comprou o tal ingresso. E foi. Estou tentando perdoá-lo, mas esses dias tive outras novidades: a de que pretende visitar uma amiga (sem mim)....e a de que viajará sozinho durante um mês para o seu país natal. Decidi não acompanhá-lo, para não deixar o meu trabalho. Afinal, é a única coisa que tenho (ou tinha) em mãos. Disse-me, no entanto, que seria uma viagem chata, haja vista que todos os seus amigos estariam viajando para outros lugares. Há poucos dias, porém, comentou que devido a minha ausência  os amigos transatlânticos dele estão pensando em organizar uma viagem só de rapazes, sem as esposas. Meu companheiro, muito independente, muito leal às amizades, não entendeu o meu desconforto e esbravejou como se eu estivesse totalmente errada por me sentir...excluída. Senti-me como uma aluna do oitavo ano que, não sabendo das recuperações paralelas, entrega todos os trabalhos em dia para conseguir 25 pontos, mas é surpreendida ao descobrir que haverá outras 25 recuperações e que seu esforço foi em vão...
....
Agridoce.
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Para mim felicidade é a conjugação de seis coisas: poder escrever (um livro, uma coluna de jornal, um texto que jamais será lido, uma crônica), trabalhar em hospitais ou com pessoas à beira da morte; dançar, construir uma família (marido, filhos, cachorro), mudar-me da cidade onde vivo hoje e viajar pelo mundo. Há vinte e oito anos tenho recalcado e deslocado essas coisas em outras: Formei-me e Letras e terminei um Mestrado, mas só tenho um Blog; Não trabalhei em hospitais, mas escrevi uma dissertação de mestrado sobre a Morte, além de haver trabalhado como voluntária em três instituições (que me permitiam, ora ou outra, passar noites em hospitais); Fiz Ballet clássico até os 18 anos e hoje só me restou os forrós familiares ou no único bar da cidade; Casei-me por circunstância, mas não constituí família ( e não me considero casada literalmente); vivo há quase dez anos na mesma cidade que detesto; viajei à Argentina em 2012 e foi muito legal.
........
Preciso fazer um mapa de sala, 
(ou de vida?).
....
Agridoce.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Ode ao Amor



Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate
(Carlos Drummond de Andrade - Não se mate)

domingo, 11 de maio de 2014

dezesseis- desejos - para - doismilequatorze

*Os Gêmeos.
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1) Voltar para São Paulo.

2) Conseguir um trabalho fora de sala de aula (fundamental/médio/cursinho/....), opções:

i) Português para estrangeiros;
ii) Literatura comparada - Professora Universitária;
iii) Revisora de Texto/ Tradutora (Inglês/Espanhol);
iv) Médica;
v) Enfermeira;
vi) Dona de Cerimonial de festas de aniversário.

3) Aprender a nadar;

4) Aprender a dirigir;

5) Passar no próximo edital para formação de professores na terra em formato-jacaré.... (uma segunda chance).

6) Ou Argentina (como leitora de português);

7) Desaparecer no próximo junho, após o dia 11. (Como? Assaltar a um banco e fugir do país).

8) ou voltar para São Paulo;

9) Voltar a dançar;

10) Começar a escrever um livro;

11)  Atar de-vez ou des-atar eternamente;

12) Escrever em letras garrafais FODA-SE, a pelo menos três pessoas;

13) Conhecer um pedaço da Europa em dezembro ou quado me der na telha;

14) Não surtar;

15) Criar vergonha na cara;

16) Voltar para São Paulo.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Pré-texto

*As cores do tempo. Ayla.
....
Estes dias, participando de um  evento acadêmico, conheci alguns escritores e editores bastante interessantes. Alguns deles, inclusive, bem jovens, levando em conta a produção literária já tida em mãos, o sopro de vida, alcance de alma e todas essas coisas.  Um em especial, cujo nome não lembro, talvez para efeito retórico ou verdade-certeza, disse à plateia que o escritor é aquele cuja alma o incita a escrever, não como finalidade em si, mas necessidade pura. Não quem tenha o que dizer somente, mas sim os que necessitam dizer - sim, esses tornar-se-ão escritores, caso a disciplina lhes seja regular, o sentar ante o horizonte e as mãos no teclado ou na máquina de escrever (para os mais sofisticados) não chegar a peso, mas exercício contínuo.
.....
Pois bem. Sinto a mesma necessidade, mas existe a falta de disciplina ou até perseverança. A mesma que me impede de ser médica, mesmo sabendo que tenho para tal estômago e alma. Não sei  burilar palavras, opto quase-sempre pelo recurso "fluxo de consciência", efeito literário dos escritores que mais respirei ao longo da vida, os de cabeceira. Mas o que dizer...está, atrás da facilidade que é, no meu caso, postergação.
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Sempre quis publicar um livro de crônicas ou até escrever para um jornal, regularmente. Mas não sei já por onde começar, haja vista que todos os estudantes de letras têm as mesmas habilidades que as minhas, não sou original, não sou povo, sou cigarra-não-formiga (por preguiça, não talento).
.....
Uma das novidades da vida, agradável ou quase-nada, é o meu novo trabalho. Possivelmente daqui a um mês, relendo este pré-texto, meu trabalho seja a única coisa que me mova. Pode-se perder tudo na vida, mas é preciso trabalhar....sustentar-se, produzir e consumir. Vive-se sem amor, afeto ou família, mas mediante a necessidade da vida, é preciso trabalhar, com ou sem vida, paradoxalmente.
.....
Das coisas mágicas do meu trabalho só posso falar de um cão que encontro todos os dias no intervalo de aulas, quando me dirijo ao fumódromo dos professores. Claro, há a instituição, a hierarquia, os alunos e professores tão curiosos, mas no andar da carruagem em que me encontro não posso, nunca-jamais, correr o risco de um processo. Falar dessas pessoas é sem dizer usar nomes e não metáforas, fazer-se de espelho. Quando iniciei este Blog, ante o término de um relacionamento, quase fui processada certa vez e tudo era apenas metáfora imagina então se fossem as letras pedra ou pó ou realidade. Restou-me o cão.
....
Apago o quadro. Pego o apagador. Assopro o giz. Coloco-o sobre o estojo. Assopro o giz. Ponho-o dentro da bolsa. Assopro o giz. Caminho enquanto assopro o giz das mãos e do corpo e da gargante já rota. Chego à sala de professores. Como bolacha. Tomo café. Assopro o giz. Pego a bolsa. Abro a bolsa. Retiro o maço. Pego um cigarro. Fecho a bolsa. Esqueço o esqueiro. Abro a bolsa. Pego o esqueiro. Assopro o giz. Arrependo-me. Caminho. Arrependo-me. Sorrio. Assopro o giz. Dobro à esquerda. Assopro o giz. Caminho. Acendo o cigarro. Três passos: o cão.
.....
Um desgraçado animal. Feio, medonho, abandonado. E triste. É o que me pareceu nas primeiras semanas. Ao bater do "sinal" (ou sirene, o que há nos colégios e escolas para marcar o trocar de aulas e passagem do tempo) aproxima-se o cão do portão central à espera. Contudo, foi engraçado notar que apesar do esforço, medroso é o cão, ressentido de contato humano, fugindo sempre dos professores que se dirigem ao fumódromo, evitando o toque, contato físico, não ouvindo o estalar de-dedos-de um ou outro alguém que por obrigação o cumprimenta (semelhante ao que fazemos com alguns parentes, vizinhos ou pessoas de quem des-gostamos mas somos obrigados a conviver).
....
Um ou outro alguém. Geralmente ninguém. A mulher alta de cabelos longos-negros grita: "sai daqui cão fedorento"....e lá se vai, cão-medonho, carniça viva, buscar a própria solidão.
....
Certa vez fui surpreendida ao notar que uma colega professora doava ao cão restos de comida. Sempre que essa mulher, loira-loira, dá o ar da graça e das asas no pátio-fumódromo, o cão surge dentre o mato malacabado que cerca o espaço todo, com um pouco de coragem. Porque também os cães vivem sem amor, afeto ou família, mas mediante às necessidades caninas, é preciso comer, com ou sem apetite, paradoxalmente. Bem, em se tratando de um cão, o apetite quase nunca será impedimento.
....
Hoje estive no fumódromo.
....
Depois de... apagar o quadro. Pegar o apagador. Assoprar o giz. Colocá-lo sobre o estojo. Assoprar o giz. Pô-lo dentro da bolsa. Assoprar o giz. Caminhar enquanto assoprava o giz das mãos e do corpo e da gargante já rota. Chegar à sala de professores. Tomar meio café. Assoprar o giz. Pegar a bolsa. Abrir a bolsa. Procurar o maço. Notar o esquecimento. Do maço. Do esqueiro. Da vida. Da Bolsa... e arrepender-me. Puxar papo com o professor azul. Implorar um cigarro. Recebê-lo, sem riso.  Caminhar. Arrepender-me. Sorrir. Assoprar o giz. Dobrar à esquerda. Assoprar o giz. Caminhar. Ver o professor azul. Pedir esqueiro. Recebê-lo. Ver o professor riso e a loira-loira que se aproximava, sempre viva.  Tês piscadelas: o cão.
....
Sentou-se no meio do semi-círculo formado pelo professor azul, o riso, a loira-loira e eu. Nem tão perto nem tão longe de sua única amiga, sentou-se, fez-se  até agradável e, pela primeira vez desde que atravessei os portões e matosmalacabados daquele colégio, fixou o olhar em mim. E
...
Eu nele
....
Eu nele
....
Eu nele
...
Eu nele.
....
Foi quando o cigarro findou, o sinal bateu e fui obrigada a levantar-me de onde estava para sujar-me mais duas vezes de giz branco pela metade. 
.....
Depois de...levantar-me de onde estava....Três suspiros: o vão da sala ainda vazia.
....
Mas 
Eu [ainda]  nele
....
Eu nele
...
Eu nele
...
Eu nele
.
Pretexto para voar.


quarta-feira, 30 de abril de 2014

DO OUTRO LADO DA FAMA

Cegonha em contra cruz. Foto de Jcb.Pardal

Há uma série de textos sobre os quais pretendo escrever em breve; crônicas, digamos. O triste fim de Cláudia Silva Ferreira, "arrastada" por uma viatura da polícia militar no Rio de Janeiro; a desventura do dançarino e de sua mãe - Douglas Rafael da Silva Pereira e Dona Maria de Fátima, a mãe que poderia ser a minha ou a sua. Também sobre o midiático "protesto das bananas", em ocasião da "pacoba" jogada em direção ao lateral Daniel Alves do Barcelona; e, por fim, o misterioso caso das quatro jovens assassinadas em Goiânia, no morro do Mendanha, no dia "Internacional da Mulher": Mylleide Morgana, Sinara Monteiro, Rayane Kellry (sobre a última não há dados concretos) - todas entre 14 e 16 anos de idade. Outra história que me interessa muito é a do assassinato do funkeiro MC DALESTE - "casualmente" esquecido pela mídia.... Outros Amarildos e Amarildas.

Escreverei sobre todas essas questões, a seu tempo, modo, pessoa e voz. Por hora e cansaço, escreverei sobre minhas atuais (des)escolhas, lembrando que, de qualquer modo, trata-se de um diário ficcional tudo o que for aqui escrito. Sem nomes  ou referências do mundo cotidiano. Ao leitor interessado cabe imaginar o que é real ou fantástico; o que é monótono ou excessivo; o maravilhoso ou o sádico. A palavra e o silêncio que  acompanha as entrelinhas. Sobre os nomes citados, destacarei aqueles que me interessarem - pois cada nome é um destino, uma certidão de vida sobre a terra, o que não é pouco, pois somos todos gentes. Aqui ou do outro lado da fama.

Perdi a oportunidade de trabalho comentada no último post pseudo-fictício. Escrevi à agência de fomento, mas já haviam contactado uma suplente. Chorei compulsivamente por duas semanas, até que as lágrimas secaram, insistindo cair vez ou outra, quando encontro com desavisados ou interessados de plantão ao me perguntarem sobre... (as pessoas não têm culpa da curiosidade-natural. A vida moderna está tão exposta às redes sociais que se criam laços invisíveis e inóspitos, ainda mais para os que trabalham com Blog´s). Resolvi tirar férias de mim mesma, buscando o único lugar dessa cidade em que me sinto confortável para ser quem sou - melancólica, colérica, e - por que não? - corajosa. O não também é um ato de coragem.

Arrependi-me amargamente e pretendo tentar o próximo edital. Para não sofrer de loucura ou tristeza excessiva, iniciei alguns projetos: consegui um trabalho em um colégio público-estadual da região; "engatei"- com marcha cinco - a tardia volta às aulas de direção e resolvi aprender a nadar. Esse último item, aprender a nadar, é a minha retaliação, ou castigo, por haver desistido da minha viagem à terra dos jacarés. Aos interessados, a dica está dada: meu destino ligou-se por alguns meses à terra nova-formato-de jacaré. Pois bem. Para meu auto-flagelo, acordo duas vezes por semana para ir às aulas de natação. Vou aprender, ainda que custe, ainda que com medo d'água, ainda que com o frio absurdo do maio que se apresenta, a nadar. Hoje foi minha primeira aula e consegui - finalmente - prender a respiração por longos segundos e tocar os pés com as mãos, concomitantemente, dentro da piscina. Apenas isso, leitor! Mas o necessário para que uma profunda alegria me viesse, dessas de criança com seu ovo de Páscoa.

Distribuí ovos de Páscoa aos meus pais, companheiro e a alguns amigos. Aqueles que cruzaram o meu caminho no ano passado presencialmente. Estava muito carente de amigos e acredito no poder do chocolate (principalmente o do branco, meu preferido): o de adocicar as almas e as dores.

Sobre o colégio novo, uma graça: o anterior também o era, mas agora...sinto-me mais preparada e, de alguma forma, amada. Gostei muito da estrutura da escola e de todos os alunos, sem exceções. Enquanto sujeitos em formação são dóceis, amáveis, leais. Enquanto grupo, "algazarrantes": mal consigo controlar a sala de aula mas, cá entre nós, não creio que seja essa a minha principal função. Aliás, não passa de um teste: desconfio de que não tenha vocação para professora, se isso significar expulsões da sala de aula, ocorrências e xingamentos explícitos. Quero lecionar para quem tenha a vontade e a liberdade de aprender.  Com relação ao salário, não consideraram meu título de mestre, o que me deixou bastante apreensiva e frustrada. Dois anos turbulentos que, até então, não me valeram de nada. Por essa razão, continuo enviando currículos para alguns lugares, buscando informações sobre leitorados, sobre a verdade ou semi-verdade referente às punições daqueles que desistiram da viagem em quase última hora. 

Eu não: calculei tudo em dias para não prejudicar o meu ou minha suplente (cujo nome prefiro não saber, embora desconfie). Isso porque quero tentar de novo. Portanto, dentre as atividades comentadas acima, dedico-me também ao estudo de línguas, por conta própria, e também o da Teoria Literária. Quero melhorar o currículo para um novo leitorado, uma nova chance (porque os seres humanos podem e devem se arrepender de suas más ou boas escolhas, ou a vida não seria vivida). Ao mesmo tempo, esse esforço contribui para um currículo melhor e assim, talvez, um possível doutorado para 2015. Já escolhi a instituição, mas o nome - esse não nos interessa. O que nos vale, neste momento, é que estamos em 2014, portanto: aulas de natação, direção, espanhol, inglês, teoria literária, muito trabalho...e um pouco de doçura nas horas vagas. Certo rapaz disse-me hoje que meu excesso de doçura repentina pode ser uma espécie de compensação patológica. Vejamos o que tal significa:

"Mecanismo de contra-investimento e de harmonização psicológica frente às deficiências reais ou imaginárias, ou seja: de bloqueio do retorno das insatisfações, de sentimentos de inferioridade, de menos valia recalcados no pré-consciente ou no inconsciente  produzindo ações persistentes de contra-investimento para vencer aquilo que afeta de alguma maneira o indivíduo." *


Ok! Compensação ou não, importante é que fiz cinco crianças felizes, cinco adultos acarinhados, três amigas mais gordas (falta uma...a que me deu um bolo nesta semana, mas já a perdoei), um namorado contente, uma senhora-fantástica mais acolhida em minha vida - e um cão mais feliz. Compensação ou não, senti-me compensada foi pelos ovos de chocolate que também ganhei, além de um lindo coelhinho azul, presente de uma amiga e cujo nome, dado por mim, é Bento. Sendo a vida tão amarga, normalmente, penso que um pedaço de chocolate se não preenche o estômago, preenche um pedaço de alma. Nada melhor do que ser lembrado em "tempos de cólera". A psicanálise desconsidera um elemento metafísico superior à ciência: a vontade consciente. Eu, que tenho idade mental infantil, prezo festas de aniversários, ovos de Páscoa e sempre enxerguei uma jiboia ingerindo um elefante em Exupéry (Embora seja apaixonada por Voo Noturno, 1931). Um dia, reescrevo o porquê.

Assim, do outro lado da fama, escassas são as casas muito engraçadas, das que não têm teto ou nada e ninguém podia fazer pipi; tampouco as rosas preferidas pelos beija-flores são assim "esculturais", formadas em tela deslumbrante e bela. Do outro lado da fama, resta-nos apenas  uma boa média que não seja requentada e um cigarro vagabundo para espantar os mosquitos. 

Não foi desta vez, mas tudo bem. Ganhei um globo terrestre do meu pai, a fim de lembrar que o mundo ainda é grande e de que há países cujo nome nem sei.

Amanhã, um almoço na casa dos "amigos casais"; sexta, aniversário de casamento dos meus pais; sábado, corte de cabelo com a mulher que poderia haver sido - mas não foi - minha cunhada. Entre coisa e outra, corrigir a dissertação de mestrado e continuar... para qualquer canto. 

O que reclamo a Deus, diariamente, não é que o príncipe se tornou um chato - que vive dando no meu saco. Eu peço à vida a não mediocridade, a não amargura, o não conformismo. De tantos colegas com quem "cruzei" nestes dias, alguns defendiam veementemente a atuação da polícia militar carioca - no caso do jovem dançarino e em outros citados anteriormente. Ouvir isso de um formador de opiniões é o mesmo que estar de mãos atadas diante do apedrejamento de um inocente...

Não: eu não nasci para isso.

O que peço a Deus, pelo menos até o mês de agosto/setembro - saindo do altruísmo e chegando ao egoísmo - é um pouco de malandragem. Uma segunda chance e um trabalho que valorize a gastrite nervosa desenvolvida nos últimos dois anos de mestrado. 

No mais: Qual foi o resultado do futebol....?
- Viva o Atlético de Madrid e um beijo na testa do Arda Turan, meu preferido!

....
fonte:http://pt.shvoong.com/social-sciences/psychology/2208404-defesa-ps%C3%ADquica-compensa%C3%A7%C3%A3o/


terça-feira, 29 de abril de 2014

Precisa-se

Besame mucho - foto de Vanessa Trancoso




O  amor  precisa de um amorado.

sábado, 19 de abril de 2014

Tempo de despertar...

20-abril-...


"A morte já não mata. Não mata mais a morte. 
No chão banhado em sangue. A flor brota mais forte."
(Ofício Divino da Juventude)


Independente de:
Religiões ou religiosidades,
Excesso ou falta,
Sincretismo ou Ateísmo,
Círculo ou Quadrado,
Coelho ou Galinha,
Morte ou Vida,
O importante é:
Renascer....

Feliz Páscoa!


quinta-feira, 17 de abril de 2014

TRIBUTO A GABRIEL GARCÍA MARQUEZ


Me alugo para sonhar


Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.

Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.

Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente. Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.

Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:

— Eu me alugo para sonhar.

Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.

— O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.

A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.

Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: "Sonho". Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia. Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara9 e duas crianças de onze e nove anos. Todos eram religiosos, e portanto propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.

Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem. Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos.

Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias. Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.

— Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.

Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.

Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa. Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.

Não conheci ninguém mais parecido à idéia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar. Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração. De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:

— Tem alguém atrás de mim que não pára de me olhar.

Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.

Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.

— Só a poesia é clarividente — disse.

Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas. Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela.

Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. "Você continua o atrevido de sempre", disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.

— Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.

Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.

— Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.

Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.

— Sonhei com essa mulher que sonha — disse.

Matilde quis que ele contasse o sonho.

— Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.

— Isso é coisa de Borges — comentei.

Ele me olhou desencantado.

— Está escrito?

— Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.

Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.

— Sonhei com o poeta — nos disse.

Assombrado, pedi que me contasse o sonho.

— Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.

— O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.

Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. "O senhor não imagina como ela era extraordinária", me disse. "O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela". E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.

— Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?

— Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava.

Gabriel García Marquez. Março de 1980

......
Que a Literatura, materialização do sonho, seja o antídoto para a  imortalidade de García Marquez; homem que, de linha em linha, alugou-se para que pudéssemos sonhar, acordados e de pés no chão.
(Colômbia, 1928- Cidade de México, 2014).






1. Entrevista a Gabriel García Marquez (1982)   

2. Trilha sonora do Filme Love in te Time of Cholera, dirigido por Mike Newell, 2007, baseado na obra de García Marquez, El Amor en los tiempos del cólera(1985).