sábado, 29 de dezembro de 2012

BALDERRAMA -- MERCEDES SOSA --- HGPD

Me pongo a cantar....

""Si uno se pone a cantar
Un cochero lo acompaña
Y en cada vaso de vino
Tiembla el lucero del alba

Zamba del amanecer
Arrullo de balderrama
Canta por la medianoche
Llora por la madrugada"

(Balderrama - Mercedez Sosa)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Debussy: Suite bergamasque - 3. Clair de lune (1890-1905)

Os bons morrem jovens...

"Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade.
E o que sinto não sei dizer...."
(Tio Dário - 1955 - 2012)

R.E.M. - Everybody Hurts (Video)

Sobre o que restou

Estrelas. Foto de Natalyê
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Uma laparotomia. Iniciou-se [assim] um dos períodos mais críticos da minha vida (familiar) e hoje, dois meses depois, é impossível não avaliá-lo com outros olhos, olhos de indignação e pena. Pena pelos passantes que somos, seres à mercê desse grande caos universal que é a vida: nascemos, reproduzimo-nos e morremos.
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Entre coisa e outra, a arte está para nos fazer mais dóceis mediante as mazelas atemporais. Todos os dias, enquanto meu pai se recuperava da primeira cirurgia (a que deu-se para a retirada de um tumor benigno), em seu  MPqualquercoisa, meu velho escutava as canções do REI ou suas aulinhas de inglês (porque língua também é arte, em todos os sentidos, conotativos ou não). Já na UTI, devido à ruptura da anastomose, eu e multidões cantávamos as canções do Carlos, isto é, do Roberto, a fim de capturar com multidões de retinas qualquer sinal de vida não imediata. 
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Funcionou.
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Hoje, em casa, aderido a uma bolsa de colostomia e a uma hérnia incisional, ele lê. Senta na "poltrona do papai", assiste à novela das nove (porque sim: as atrizes são gostosas e o desejo persiste) e depois, finalmente, lê. Assiste a filmes de arte, filmes de massa, filmes sem graça e rega as plantas do quintal. Convenceu a nosso cão de que ainda é o mesmo homem, apenas mais vivo. Há uma terceira cirurgia a ser feita, aquela que reconstituirá o canal intestinal, livrando-nos de todo o mal. Amém.
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Há uma semana, o aneurisma. Um irmão que o visitara no hospital chocou-se com o próprio destino em forma de aneurisma e se encontra em coma. "Não posso vê-lo", foi a única coisa dita em meio a tantas outras que não saíram por falta de jeito. "Prefiro morrer a vê-lo morto, sou mais velho" - isso saiu ontem, da língua e do coração. "Mas ele já tem netos, você não" - isso saiu de mim, não como profecia, mas por vontade de ser mãe. Tenho pensado em filhos ultimamente e enquanto não os tenho, presto-me a paparicar os alheios e acho que amadureço assim. 
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Continuamos tão passantes quanto antes, na incertidumbre.
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Ganhei livros, ganhei flores, ganhei um amigo (...meu cão que, antes cachorro, converteu-se em ouvidos e olhos nos dias em que estive sozinha neste mausoléu chamado casa). Ganhei rivais, ganhei peso nos olhos, no peito e na pele. Ganhei um mundo novo que já estava aí, mas não podia ser tocado. Hoje de manhã, ganhei a tranquilidade de adivinhar que tudo é transitório, da laparotomia ao destino dos homens, que é o mesmo para todos.
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Tenho dúvidas quanto à morte; é provável que ela não passe de imaginação. Uma soma daquilo que nos restou, carne e humanidade. 
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Conheci uma mulher quem perdeu todos os filhos; também um homem que, para mantê-los consigo, perde-se todos os dias no labirinto da ganância e da infelicidade. Ambos estão mortos, mas respiram, caminham, fazem coisas triviais como escovar os dentes e evacuar. Mal sabem que - pobres passantes que são - estar metade vivo é o mesmo que estar morto.
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Portanto, a morte é a consequência do grande desafio, o da felicidade plena. 
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Ninguém é feliz plenamente, a menos que viva numa montanha, longe das estrelas de carne e osso que são os humanos e os pecados humanos. Conheci uma menina que guardou consigo algumas notas de real (sem permissão) e para que não mais o fizesse, em toda sua vida, fui obrigada a ser dura, seca e mãe. Morri também naquele instante junto dela e de sua vergonha. Nunca esqueceremos tal episódio. 
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Meu pai estuda matemática para não atrofiar o cérebro. Admira-me pessoas que recomeçam do "não caos" até o "caos". Ainda ontem, perguntaram-me o que "você quer ser quando crescer?" - e foi a melhor sensação que tive nos últimos meses, a de saber que ainda posso recomeçar, aprender-esquecer-aprender-esquecer. "Eu queria ser você".
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Conversei com um amigo missionário em Maputo. Invejei tamanha sorte. Queria a vida dele também; tenho um namorado que conhece todas as letras do mundo - da literatura ao cinema. Sei que poderia, com afinco, tornar-me parte assim, mas desconfio de que minha capacidade para o esforço está um pouco gasta. Há tempos não sinto prazer em leituras; desisti de dançar e após a perda do meu último computador tampouco música há nesta casa. Passo os dias refletindo e observando uma mancha escura que há em todas as paredes da minha casa, quase não saio, quase não canto (...porque também gosto de cantar).
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Queria a vida dele também.
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Minha vida está entre parênteses; do início ao fim coisa alguma há, só palavras des-ditas e coisas feitas pela metade. Minha última crise de riso aconteceu ontem, quando ao sair com alguns amigos intuí que havia vestido uma peça de roupa ao contrário. Mas ninguém percebeu.
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O riso é proeminentemente humano, mas tenho a certeza de que meu cão ri às vezes, quando nos vê com roupas de festa (tão ridículas). Conheço uma mulher que só veste roupa de festa, ainda não descobri por que, se está viva ou metade morta. Acordar duas horas antes de trabalhar para "montar-se" é sinal de quê?
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A vida dela não quero.
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Queria ser médica, de verdade. Ás vezes penso nisso depois do mestrado; ás vezes penso no doutorado, ás vezes penso quão infeliz serei caso não decida a tempo aquilo que moverá meus dias deste instante até o fim. 
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Nunca mais quero trabalhar com ensino fundamental. N-U-N-C-A!
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Também gosto de observar as manchas brancas da minha pele, resultantes de luz solar e estresse fundamental. Nunca mais quero sentir tanta raiva como a que senti nestes dias, embora eu saiba que nasci para a cólera e melancolia. 
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Tenho esquecido nomes de coisas e pessoas. Ás vezes, esqueço que sou humana porque me falta o riso. Conheço uma mulher que abandonou a filha após vinte e cinco anos em uma cidade do interior. Minha vontade é a de conhecê-la pessoalmente (a mãe) a fim de medir o tamanho de sua mediocridade.
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No próximo ano, quero me matricular em uma auto escola; retomar minha pesquisa de mestrado e comprar uma bota de cano alto.
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Sobre o que restou, aprender-esquecer-aprender e esquecer.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A formiga deslumbrante


Senti-me como cigarra em terra de formigas.
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Há poucos dias, aquela mulher maravilhosa, toda trabalhada em absoluto verde (o que não me deu esperança alguma na ocasião), chamou-me em sua sala. Eu, pobre cigarra que pensava ter - até então - talento para cantorias, ledo engano: só caraminholas trago comigo!
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Perguntou-me o que havia feito até então, dei meu  sorriso amarelo:
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- É preciso recomeçar sempre, já nos disse Drummond ou algum internauta cujo codinome é Carlos D. Andrade - respondi na ponta da língua, à espera de cem anos de perdão.
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Ganhei um sorriso e duas anedotas, igualmente verdes.
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Para  atenuar, contei-lhe sobre minha última experiência como educadora. Contei-lhe da dificuldade imensa, abismal, que é o lecionar.
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- Pois bem, dona cigarra! Você será o meu material de estudos! É preciso saber com urgência, ou não, se esta é a sua praia, ou formigueiro. Você gosta de dar aula? Olha, eu até poderia desistir....Há tantos anos nesse formigueiro, mas você - cigarrita - é charmosa, é bonita, é inteligente, só não joga limpo (nem sujo), tá amarrando, é? Escondendo o leite?
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Fiquei azul.
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- Veja bem, dona cigarra, o que você quer da vida? O que te dá "tesão"? Não culpe a terceiros pela SUA falta de compromisso. Você quer trabalhar na universidade?
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(Acho que sim....)
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- Você....quer? olha, pra trabalhar na universidade é preciso estudar muito, e vejo que você não gosta de estudar, de pesquisar? Gosta? Você gosta é de cantar, já conhecemos seu longo repertório......Pense!
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(Já conhecem, é...)
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- Você precisa decidir entre ser educadora ou abrir uma loja de calcinhas.....(o que seria super legal).
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Naquele instante, fui conduzida a um lugar sombrio que esteve diante dos meus olhos, mas que por razões óbvias eu sempre ignorei. Volví ao ano de 1999, quando um charmoso vidente de uma loja de artigos medievos (o que nada tem a ver com a calcinha que vestís, leitoras....), disse-me:
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- Você se casará com um homem bem mais velho que você. Vai se formar em uma coisa e trabalhará em outra.
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Pouco antes de me formar, isto é, no exato dia da cerimônia, minha mãe - achando servir de estímulo - disse-me "Agora de fome, pelo menos, você não morre." Sei que naquele momento, recordei-me do adivinho no shopping paulistano, gelando por dentro e por fora: ainda há longo caminho até " a derradeira". Isso me dá preguiça descomunal; daí, pus-me a cantar ao longo de tantos anos, mas pelo visto continuamos amarrados - destino  e eu.
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Invejo a todas as formigas do mundo. Todos os meus amigos são formiguinhas-trabalhadeiras; meu namorado, metade formiga-metade cigarra. Eu nascí em terra de formiga, em berço de formiga, mas pus-me a cantar desde pronto.
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Como é difícil saber. Observo meu cão, dono de olhos tão profundos, pergunto-me o que é viver em paz, na paz de um cão, eu que sou tão desmiolada.
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- Você vai se acertar. Mas não se acerte demais, você não nasceu pra isso.... - disse a formiga, elegante formiga.
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Peguei meu violãozinho e saí a cantar, pensando nos prós e contras da loja de calcinhas....
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Hoje de manhã, minha vizinha desmaiou subtamente, o que nos gerou um susto enorme. Quando adolescente, invejava também aqueles que desmaiavam vez ou outra, gerando charme e comoção. Gosto de comoção, da palavra. Gosto da palavra palavra.
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Eu desmaiei uma vez, há seis anos, mas todos perceberam que era fingimento. Foi a única vez em que menti tão dissimuladamente, e ainda assim pegaram-me no pulo (porque eram bons, os amigos).
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Sinto-me um pouco só, sem amigos. Meu namorado mora em outra galáxia.
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Além desses sinais de cansaço, temo pelos filhos que espero ter, já que há meses meus hormônios saíram de férias e não me convidaram: passo mal de quando em quando, e não sei o porquê. Nosso patriarca, retirou-se da cidade a fim de dar cabo a uns tumores que desenhou em seu intestino, ainda antes de seu nascimento, na barriga de sua mãe. Os tumores cresceram e se solidificaram, tornando-se coisa rara no universo médico-humano-animal. Também descobri que meu namorado gosta de diminutivos, o que me impacienta: pior que "amandinha" é ouvir um "letíciazinha, pamelazinha, gabrielazinha" por aí, "prasAMIGAS", coisa de gente doce, que só a convivência revela. Para terminar, dei-me conta de que não tenho sequer meia doçura nas veias, gosto é de desmaios. O artigo quase pronto se perdeu com a pane do computador; tenho pouco tempo, pouco dinheiro, duas viagens, um artigo a ser feito, avaliações bimestrais, 20 alunos que me odeiam, um cachorro carente, uma mãe ausente, uma vizinha com desmaios.
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(A família vai bem, obrigada....)
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Só penso em meu violão.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O (não) pulo do gato

*Gato Maltez. Foto de Pedro Conceição
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 Inveja tenho eu dessas pessoas que, assim como a fábula do gato e da onça, guardam consigo uma carta na manga. Vejam só o caso do gato que, a pedido da onça, concordou em ensiná-la a pular. Após uma série de aulas, preparada para o bote, a onça salta a fim de abocanhar o felino; este que se salva com um salto triplo para trás:
- É gatinho, esse salto não me ensinaste - disse a onça...
- Este é o verdadeiro pulo do gato  - replicou o gatinho, são e salvo.
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Não faço ideia se é daí que surgiu a expressão. Mas gosto de pensar no "pulo do gato" como carta na manga que todos nós temos: cafajestes que mudam suas vidas pelo amor de uma mulher; mães que após a perda dos filhos, criam instituições direcionadas ao combate do determinado "mal"; ex apresentadoras de programa infantil que encontram Jesus....Toda estirpe de desgraçados, que num belo dia... lança mão do dito pulo...
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Onde está o meu?
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Fico imaginando como a "coisa" acontece: à mercê desse mar violento que é a vida, epifânicamente a mudança vem, como em livro de Clarice Lispector ou Guimarães Rosa. O sujeito muda, para melhor, direcionando sua existência para a luz ou para as conquistas que almeja. Há os que dizem inclusive ter ouvido a voz do criador de todas as coisas, ou um conselho mágico de um duende que lhes muda a vida para todo o sempre, TCHIBUM: Deu-se o pulo!
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Existo há vinte e seis anos e ainda não dei o meu pulo. Sinto-o em algum lugar de mim, como espécie de hadouken a ser dado; para tal, é preciso que o meu outro eu conheça as teclas certas do jogo, a chave que liberará o meu poder especial. Quase ninguém conhece o próprio poder, a não ser quando, para a sorte do sujeito, um elfo ou ser imaginário-real, acometido por piedade humana, suspira "Open your eyes".
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 Nunca me aconteceu. 
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Apesar dos pesares, ter uma vida frustrada tem lá as suas vantagens. Ultimamente, agarrei-me à lenda do "pulo do gato" de modo que passo horas a imaginar como será o meu pulo, o dia em que nascerei pela segunda vez. No caso, quero um pulo que me garanta satisfação plena na vida profissional. Não me importo em ganhar pouco para o resto da vida, desde que eu possa - com esse pouco - minimamente viajar de vez em quando e, sobretudo, fazer o que gosto. Quero dias iluminados e cheios de vontade: acordar cedo para trabalhar sabendo que esta é a profissão que escolhi para o resto dos meus dias. 
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Enquanto dava uma aula de sintaxe hoje, dois de meus alunos comparavam entre eles a quantidade de pelos que havia em suas respectivas axilas (juro por Deus!). Seja como for, tal epidódio me foi caro. Caro porque é a partir disso, e outros tanto "disso", que meu pulo do gato há de nos vir e nos salvar (a mim e a meus futuros filhos) de uma vida infeliz. Em que momento do meu curso de Letras eu desejei, do fundo da minha alma, passar por uma experiência dessas? Em que momento eu sonhei esses dias?
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Se eu pudesse recomeçar do zero, seria médica. Sei que tenho vocação suficiente para isso: em se tratando de energia vital, o hospital é o lugar em que me sinto plena. Talvez porque goste tanto da vida quanto da morte, e veja milagre em tudo, também na cor do sangue. Então...? Falta-me vontade, disciplina, física-química-matemática-biologia. Sou uma negação para todos esses itens! Queria eu um pulo do gato em forma de chip que, inserido no cérebro, te ensina mais cálculo que metafísica.......
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Tenho vocação para médica e minha paixão é a escrita: eu passaria o resto da minha vida escrevendo e cuidando de gente por aí (faria isso até de graça...).
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- Conhece-te a ti mesmo, Sofia! - diz o leitor com inclinações filosóficas....
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Um dia, o pulo livrará o gato-preguiça da onça-medo e todos seremos felizes.
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 - Ojalá...

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...Mi corazón desde entonces
La llora diario
No portão
Por ella
No supe que hacer
Y se me fue
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue
(Ilusión - Marisa Monte e Julieta Venegas)

sábado, 1 de setembro de 2012

ZAZ - "Dans ma rue" acoustique (Edith Piaf cover)

Ninhada

*Pintinhos. Foto de Rafael Simões.
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Era um menino de cabelo em "cuia" quando salvou a primeira vida de todas: um passarinho. Ainda na época do cabelo "cuia", salvava árvores e as enfeitava para o Natal, com material artesanal que ele mesmo elaborava, delicadamente.
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Nunca conheci pessoa tão harmoniosa. Conseguiu realizar o primeiro e único "amigo secreto" de Natal em nossa família. Um feito! Nunca senti tanta inveja de alguém: manipulava o mundo pelo coração.
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Olha, me irritava muito o menino, é preciso dizer! Tinha um jeito meio mole, falava mole; já na moralidade, no caráter, era duro como rocha. Jogava os cigarros das pessoas no chão, brigava com elas, intimidava-as com discurso de gente grande. Estando aqui hoje, condenaria-me à fogueira! (Uma vez me chamou de órfã, chorei horrores até que me pedisse perdão). Muito religioso na infância; já na adolescência, dava-nos lampejos de um ateísmo precoce, infelizmente não desenvolvido....Nerd e inteligente; uma das pessoas mais irritantes do mundo, senão fosse pelo tamanho da alma, tão grande, e de um senso de humor pleno aos dezesseis. Transitava com facilidade entre  adultos e crianças, entre  plantas e  animais (dominava todos os reinos). Um dia, disse-me "eu te amo" e levou um tapa na cara (tínhamos 10 e 13). Amanheceu um homem e não parou mais.
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Nasceu em setembro, mês das pessoas plenas.
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Usava o adjetivo "magnífico" para coisas triviais; ensinou-me que não existe bem ou mal, já que o ser humano carrega em si tal dualidade desde que nasce, como afronta. Era sarcástico como as pessoas que de tão massacradas pelo azar decidem fazer as pazes com a vida (por falta de opção). Confiava cegamente nos tolos; compreendia os "marginais" como se fosse um deles, ninguém entendia.
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Não sei como gostaria, o menino, de ser lembrado, na verdade nunca o perguntei. Seus feitos foram discretos, quase imperceptíveis (ainda tenho raiva do amigo secreto, como ousou o menino desafiar a hierarquia familiar?). Tinha uma mochila de jeans velho, uma bicicleta velha e um caderno quadriculado tão feio que sempre quis iguais. Porque todos os seus bens eram graciosos, como se fosse o menino dotado de um poder secreto, que realçava a beleza das coisas que suas mãos tocavam.
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No entanto, tinha péssimos hábitos alimentares: era dessas pessoas chatas que não comem cebola e separam as verduras no canto do prato. Só comia omelete e arroz com banana.
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Era branco como leite. Nunca vi pessoa tão branca nesse país. Nos dentes, manchinhas de nuvens que até lhe caíam bem; no nariz e em toda cara, sardas igualmente brancas (ou rosas, em dias de muito sol). Meu sonho era ter sardas idênticas (daí meu fascínio por gente ruiva, homem ou mulher).
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Na infância, gostava de reproduzir tudo o que eu fazia.
Eu fingia comer terra; o menino a comia de verdade;
Eu fingia comer flores; o menino as comia de verdade;
Eu fingia me jogar no rio; o menino se jogava;
Eu fingia trazer comigo um mosquito invisível; o menino acreditava que estava ali, o mosquito;
Eu fingia subir no pé de manga; o menino subia, caía, e levava "chinelada" da mãe.
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Passávamos horas rindo de nada, para o nada, sem intenção alguma. E desses momentos brotavam os assuntos mais improváveis, vindos de parte nenhuma. Éramos como ninhada de pintinhos, um-extensão-do-outro. Chorava o menino, quando eu voltava para a cidade grande: chorava de dar dó.
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Cortou o cabelo de "cuia" e beijou uma Juliana (...mas havia uma Suelen também....).
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Passou por aqui rapidamente, deu-me um abraço e atravessou a ponte.
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- Até amanhã!
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Cleiton Lelis Lopes Milagres
1/9/1988
18/10/2004

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O sopro

*Alma do sopro. Foto de Neblina.
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Todas as pessoas são extraordinárias. Um amigo sempre dizia, a cada namorada, a seguinte frase: "Mulher extraordinária como você, nunca mais encontrarei". Certamente que não; a graça talvez resida aí, ou o sentido da vida: felicidade nem sempre consiste no "extra". Sempre gostei de coisas ordinárias, como beber água, por exemplo. Bebo pouca água, mas ao fazê-lo em momento de extrema sede, sinto-me em comunhão com Deus em sua face "ordinária", corriqueira - e nem por isso menos bela. Então nos vem essa segunda-feira comum, cheia de luz e calor, céu azul e poucas nuvens. Um dia ordinário para um céu de Minas, e nem por isso menos especial.
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No meio da aula, um aluno e um bilhete. O aluno, vermelho; o bilhete, de amor. O sofrimento do amor não correspondido, ou feito pela metade. Daí a metáfora do copo - cheio ou vazio - e então as pessoas se distinguem a partir disso, da maneira como enxergam o copo. Como o enxergo? Cheio a ponto de transbordar e inundar o mundo, pois vivo - à despeito da lógica - o "extra" em quase tudo que vejo, mesmo tendendo ao vazio.
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Das coisas que me irritam: saudade, sono, fome, segunda-feira, aluno debochado. O ordinário que se faz "extra", quando em combinação. Salvo-me da mediocridade quando insisto. Insisto sempre, com ou sem sopro.
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Amanhã recomeçamos, com ou sem sopro.
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Um dia desisto.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

DEUS-árvore

FONTE: http://www.boston.com/bigpicture/2012/08/winners_national_geographic_tr.html.

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Será Deus um Baobá?
Vontade de ver um de perto....
Amazing.

Don McLean - American Pie better quality

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

*Janela encantada. Caetana Paula
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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - disse nosso patrício Camões, para jamais ser esquecido. Ainda no campo da Litertatura, é das mãos do habilidoso Saramago que nasce Blimunda, mulher que reconhece as vontade das pessoas. Saca-lhes a vontade para que sirvam de combustível de uma passarola voadora. Penso que vontade é instrumento que nos leva ao voo: o que nos mantem os pés no chão é a vontade de voo, vontade de sonho. Só assim.
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Sou um pouco Blimunda também, percebo as vontades do outro. Já a minha vontade é névoa difícil de se enxergar, nasci em dia chuvoso, na cidade das nuvens. Hoje pensei nas minhas vontades e elas se multiplicaram, encheram a casa da alma de filhotinhos.
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Já houve o tempo em que vontade era sinônimo de cachoeira; o dia era longo e tão colorido a ponto de nos cegar a vista, passávamo-lo brincando, dia que não tinha fim. Minha vontade era a de vivier naquela casa, estar eternamente alí, eternamente condenada a uma tarde infinita de sol com meus primos e amigos. Um pouco mais velha, a vontade de shopping e cinema falou mais alto: optei, durante longo período, por dias mais curtos e cinzas, para logo em seguida - aos dezesseis - mudar outra vez de ideia. Queria ter estado aqui, se soubesse que duraria tão pouco - dos estrellas en el cielo. Hoje, opto por cinema, shopping e Lojas Americanas. Ninguém vive só de saudade.
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Já tive vontade de ser padre, missionária, beata; viver em alguma favela de São Paulo prestando serviço comunitário, ou em Moçambique, ao lado de amigos que lá estão. Vontade grande foi a de ser médica, ou psicologa hospitalar, somente para cruzar os corredores brancos (porque odeio psicólogos; gosto mesmo é de psiquiatra). Ainda tenho vontade de África, vontade de medicina, vontade de passar a vida em uma favela prestando serviço comunitário; há o que fica, em todo o caso, ainda que mude o formato.
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Jogadora de basquete, jornalista, bailarina, isto é, tudo me passou pela cabeça; durante cinco anos a certeza do jornalismo, para jogá-la por terra na primeira reprovação do vestibular. Passou. A vontade de dança sempre está: voltei a dançar essas semanas, matriculei-me nas aulas de Ballet. Acho que o fiz só para ter o prazer de faltá-las todas, visto que ao cair das 17:00 do dia, a única vontade que vem é a de dormir até as 21:15, Oi oi oi....
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Já pensei em casar na igreja - véu, grinalda e buquê - como manda o decoro. Houve o tempo em que deixaria "tudo" (embora nada tivesse...rs) por amor; em que estar ao lado da pessoa amada era metonimicamente o sentido da vida. Já desci aos infernos por amor, tantas e tantas vezes. Hoje, quero mesmo é ter um filho; nasci pra ser mãe, entre outras coisas. Adotar uma criança, ganhar meus R$7.000 por mês, como professora de Literatura de Língua Portuguesa em alguma univerisade do mundo (ou Português para estrangeiro) viver num lugar legal e fazer trabalho voluntário com meninos que caíram no crime. Adotar uma dessas crianças e ensiná-la a escrever e ler (sem dúvida as melhores coisas que minha mãe me ensinou). Ninguém vive só de flores-bombom-poema-chifre-DR-ex-distância-o c*r*lho.
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Vontade mesmo é essa que vem, arrebatadora, sem quando nem onde. Ontem senti vontade de aprender Francês; melhorar o Inglês e o Espanhol, conseguir proficiência nessas línguas, projeto para os próximos três anos.
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Antes dos 30, quero vontades novas. Outras bolhas de sabão.
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Vontade de que meus pais sejam felizes, dentro do que ainda lhes cabe, do que a vida não sugou. Vontade de que minha tia tenha a estabilidade que merece, estabilidade pela qual minha mãe luta sozinha. Vontade de que certas pessoas da minha família se f*.Vontade de que os caçulas sejam livres, que contem comigo pra tudo, que eu tenha, futuramente, grana e estabilidade pra que contem comigo pra tudo. Vontade de estar viva muito tempo para dizer a eles ...  "Olha, a mãe de vocês era maluquinha, mas a pessoa mais legal do mundo, juro por Deus". Vontade de milagre, às vezes ainda tenho.
....
Sei que perde o tom, de quando em quando, mas o texto é confessional.
....
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
...
Vontade de nada também dá, vontade de ficar quietinha, sem excessos. Mas a vida insiste em convocar, seja por meio do olhar ou da impaciência. Eu vivo de olhar e impaciência, não tem jeito.
...
Por fim, vontade de chegar até o fim, só por curiosidade.
......
[...]
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
....
Queria aprender a nadar, mas o medo comeu a vontade.
Medo é cachorro grande que come a vontade, passarinho pequeno de canto-chatinho.
Bau-bau.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

ANAGNORISIS

(ou "Você tem sede de quê?)




I

- Vamos brincar de escola? Você é a professora e daí me ensina!
- Mas eu não quero ensinar, hoje não...
- Mas você não gosta de dar aula?
- É chato, às vezes...
- Então por que não vira médica ou cientista?
-...

...


II

- Faz uma pergunta, fessora!
- [...]
- [CORO] Claro que não!!!!!!!!!!! A gente pode perguntar? Você já.....?
- speechless
- [ RISOS]
- Aposto que não perguntam essas coisas pro professor de Religião....
- Claro! só você conversa essas coisas com a gente - disse a menina do olho azul.

.....

III

- Libera meia hora antes, pra gente fazer a tarefa de Biologia... - disse bico-chororô.
-[ COLERA]


IV

- Professor de Português é o mais desrespeitado de todos, Deus me livre......


V

- Pensei: ou sou professor universitário ou faço outra coisa, não tenho paciência....
- Eu também não tenho paciência.....
- Os alunos são divertidos....
- Os alunos são divertidos....
- Mas eu não tenho paciência....
- Eu também não.


VI

PROFESSORES DA REDE MUNICIPAL INICIAM GREVE EM BH



VII

- Você vai  escrever um livro, cinco minutos, sobre um hospício em Barbacena  (disse a saudade).


VIII

- Estes são meus filhos: ela faz cinema em São Paulo e ele mora em Ouro Preto.


IX

- Olha o que eu achei, fessora, sobre o Sandro do ônibus 174;
- Ele não devia ter morrido, ele era bom
- Tinha que matar tudo mesmo, pá-pá-pá
- Ele não teve culpa.


 X

- A culpa é sua, você escolheu.


XI

- Você teria sido melhor médica que eu, mas você nunca tentou - disse a rainha.


XII

- Menina, você tem talento - disse gabriela.


XIII

- Tia, eu quero ser escritora e cienstista e casar com japonês - disse o ano de 1990


V

- Mas é o máximo! Eu e meus temas fora de moda, quer que te mande ? Bom, no século XV havia os cadáveres em decomposição, substituídos por esqueletos posteriormente, daí....
- Ah, os esqueletos de mãozinha dadas?
- Sim, não é fantástico? Acho lindas aquelas iconografias de esqueletos...
- Com aqueles artefatos? 
- Por que não estuda isso? ("Queria estudar isso algum dia....")
- Eu e meus temas originais.

....

I
- ...Não sei.

sábado, 18 de agosto de 2012

Crônica de um ciumento

*até das meias tenho ciúmes. Foto de António Rodrigues.
....
Eu devia escrever sobre algo mais útil, greve dos professores federais, cotas para escola pública, mensalão. Antes disso, porém, eu devia escrever, então decidi partir do princípio: algo Nível I, apenas para o bem das articulações há muito enferrujadas. Para quem acompanha esse Blog desde 2009, sabe que divido minha vida em fases. Pois bem, essa nomeio a fase da "pregucite crônica mor", ou desânimo profundo do existir. 
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Nem depressão nem mania, apenas um momento ruim e demasiado brando, a certeza de que minha vida caminha para um rumo o qual não escolhi conscientemente, e que perdi o controle de tantas coisas. Nem feliz nem triste, apenas respirar-acordar-trabalhar e continuar....á espera do fim dessa greve, à espera da defesa da minha dissertação imaginária, meu prazo real. Oca até a medula, consumindo novela das oito como se fosse água (bem, cabe o parentese aqui: a trama é boa sim....), cá estamos, vento e ventania.
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Amo, todavia, o que é sinal de vida. Nem por isso há de ser fácil o amor; hoje vejo o amor, pleno, como realização dos espíritos elevados, viscerais, ou qualquer outro adjetivo que expresse a minha admiração - eu amo mal. Não darei exemplos pessoais, mas falo do geral e específico, o ciúme. Sou muito ciumenta e às vezes estou; quando sou e estou, monto-me um "terminator", último apelido carinhoso que recebi.
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Sou um bom material para estudos. Do que tenho ciúme? Por partes:
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A velha frase "o que os olhos não veem, o coração não sente" é uma falácia em se tratando de ciumentos. O que os olhos não veem, a mente imagina cinco vezes pior. E eu imagino, porque - modestia à parte - a preguiça crônica desses dias mornos é incapaz de anular a minha imaginação. Vejo gigantes onde só restam moinhos. Tenho horror a qualquer tipo de mentirazinha, dessas bobas, e utilizo-as como mote para o fiar do ciúme diário, esse pequenino gérmen que enfim se transforma em monstro após muitas e muitas peripécias. Tenho dificuldade em perdoar; perdôo, mas não esqueço - o que dá no mesmo. Acredito que o amor, ainda que sublime, não é suficiente para acalentar uma alma curiosa. O que você faria se, estando o amor da sua vida há milhas daqui, recebesse um telefonema do Johnny Deep? Bom, eu não faria nada, porque apesar do meu excesso de curiosidade para as coisas proibidas, tenho uma preguiça de mentira que me mantem sempre os pés no chão. Antes me permitisse o devaneio infantil das noites de sexta e sábado, talvez mudasse o meu senso de justiça. "Ok: a carne é fraca e até Cristo se fez carne...".
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Tenho medo de perder. Já perdi 567 vezes e não aprendi que nada se perde: não somos donos de nada. Não só tenho medo de perder, mas sobretudo medo de perder aos poucos e não realizar. Daí os subitens, após essa explicação plausível: ciúme de ex namorada, ciúme de ex ficante, ciúme de saber que meu parceiro convive - fisicamente ou na memória - com um laço invisível (de alguma forma invisível: ou porque há distância física, ou porque não é da minha conta). Não tenho cíúmes, por exemplo, do que posso enxergar sozinha, com os olhos que Deus me deu: não sinto ciúmes de cantadas recebidas ou olhares indiscretos, desde que eu esteja lá. Nesse caso, é só falta do que fazer.
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Então, o que fazer? 
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Ao analisar a alma do ciumento, as relações tornar-se-iam mais fáceis se os parceiros dos mesmos soubessem algumas artimanhas. O que nos ocorre é que geralmente, embora não em todos os casos, os parceiros dos ciumentos são pessoas igualmente independentes (o ciumento é, na verdade, um independente: ele só confia em si mesmo e no seu amor próprio. Nem acho que seja o velho clichê "...ame a si primeiro e depois...., ; o ciumento é apaixonado por si) que tampouco entendem as razões alheias. O ciumento tampouco entende as necessidades alheias. É como dar terra a quem precisa de fogo, há uma incompatilidade aí que só o sentimento cristão do celibato seria capaz de acalentar.
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Nada.
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Ou mudamos a toada, ou perdemos a dignidade. O ciumento é capaz de diversas agressões no calor de uma dicussão...hipocrisia seria a defesa aqui do sujeito que teima, que arde, que provoca  guerra. O que acontece é que o ciumento tem uma capacidade de guerra muito ampla, de modo que consegue ser imensamente amoroso após o tempo de batalha, quando a maioria das pessoas já está "desgastada". O ciumento sempre se renova, porque a guerra é um sinal de luta. Mais importante que amar, é a luta que esse amor propõe. Quando não há luta, dá-se o desencanto.
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Só a monotonia é capaz de vencer o ciumento. Isto é: somos sempre o lado perdedor. Se não perdemos o "amor do outro", perdemos a nós mesmos e a nossa capacidade de civilidade, de ser grupo, isolando-nos na montanha das alucinações. Ser ciumento é estar sempre só. É uma defesa.
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Nunca conheci alguém que tenha se regenerado desse mal. Conheço pessoas que, com idade e perda, aprenderam a se controlar mediante a confiança que o outro oferece. Aprenderam a se calar e deixar o fluir da vida ditar as regras. Aos poucos, o ciumento canaliza sua "energia de guerra" em coisas realmente úteis. Em minhas análises, dei-me conta de que as grandes transformações da humanidade foram conduzidas por mentes ciumentas, ou seja, há a parte boa em todo caso, desde que bem dirigida.
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Conheci uma menina tão igualmente ciumenta, que hoje leva seus dias falando de Deus e das dádivas que o senhor a proporciona no facebook. Leio tudo o que escreve, porque gostaria de fazer o mesmo: "Senhor, obrigada pelo dia de hoje, em que tive a oportunidade de ir à padaria e comer uma "carolina" (doce paulistano cujo nome em "mineires" ainda desconheço); Senhor; obrigada pelo dia de hoje em que tive a sorte de encontrar aquele filme que há meses procurava...(e por aí vai).
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Ciumentos deviam ser proibidos de utilizar redes sociais. A mudança do status de "solteiro" para "namorando" é sempre motivo de choque, ainda mais quando o parceiro se recusa a fazê-lo por preservação de privacidade ou capricho. Paciência.
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Ciumento não tem paciência; tem resignação. É tudo sempre profundo para o ciumento, geralmente taurinos ou escorpianos. O lado bom é que a maioria dos psicopatas e esquartejadores passionais derivam de outros signos: o ciumento é incapaz de matar o outro, ele mata a si mesmo, como o suicida escorpião. Ele age por impulso, não premedita nada; não come quieto, como o mineiro: está mais para o baiano com espírito de micareta....(viva salvador..).
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Ciumentos que namoram ciumentos são menos infelizes. 
Ciumentos que namoram pessoas extremamente chamativas são mártires em vida.
Ciumentos cuja operadora é TIM ...estão a um passo do abismo.
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De qualquer forma, a mudança pode ocorrer com um pouco de "pó-de-força-de-vontade".
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Caso contrário, é hora de fechar o "facebook" e seguir a vida.....
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- Direita ou esquerda? (isto é, qual a minha esquerda? - ciumentos perdem, às vezes, o senso de direção).
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Bom dia!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A VAIDADE DO REI

*O dia em que a princesa virou o espelho do avesso. Foto de seilacomch.
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A VAIDADE DO REI

Não confie na vaidade, enganando-se a si mesmo; pois a vaidade será a sua recompensa.
Jó 15:31
(...da série "Sete pecados capitais").
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O rei nu desfilava pela cidade encimesmado quando descoberto pela criança. Não falo aqui do tolo Rei de Hans Christian Andersen, senão daquele que habita algumas de nossas janelas, sem exceções. Neste caso, tratava-se de uma mulher-rei, cuja vaidade levava-a a loucura de quando em quando.
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Sua vaidade devia-se ao dom que recebera pelos deuses quando ainda muito nova; o de interpretar o ser humano através da escrita. Linhas escritas por um estranho eram capazes de desvendar-lhes a alma ao serem lidos pela mulher que, não se dando conta de tal dom, usava-o sem muitas pretensões, apenas por casualidade ou vontade de conhecer o outro. Comparar-se com outras pessoas; ao saber o que a memória do outro resguardava, era como se ampliasse para si um pouco de sua história, vivendo também aquilo que não era seu, aquilo que sua fortuna a impedia de viver.
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Então a mulher, sempre que podia, roubava pedaços de linha a fim de decifrar a memória e o presente daqueles que escolhia: homens, mulheres, crianças, gestantes. Decifrava a todo pedaço de registro, toda significação textual, e às vezes verbal; de um bilhete de boas vindas a um coração desenhado, de forma mal feita, sobre o segredo de um ex casal.
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Foi quando então deparou-se com algo inusitado.
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Havia uma caixinha de coro que era de sua avó, a que falecera há dois anos. Ficara com a caixinha porque nela estavam guardadas as  infâncias da avó, mãe e neta. Sempre que chegava à antiga de casa de campo, revolvia a caixinha em busca de novidades, uma foto ou uma conta ainda não paga; um cartão enviado para o dia das mães, uma carta não colocada no correio, uma vela de batismo ou cordão umbilical por ser enterrado.
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Ao roubar a caixinha pra si, após a morte da avó, deu-se conta de que estava vazia. Uma pessoa da família já havia possuído todas as lembranças, restando apenas a caixa vazia, que ainda assim muito lhe valia. A caixa foi um presente dado a sua mãe; esta que, ao romper com tal galanteador, entregou-a aos cuidados da avó que a fez sua. A vaidade roubou a caixa vazia.
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Certa vez, encontrou uma inscrição feita no fundo da caixa. Mal podia ser lida: aparentemente, o ano de 1948. Por mais que se esforçasse, por mais que destinasse aquele símbolo toda a sua energia de percepção, não conseguia desvendar a significação registrada, porque não havia ali mais viventes daquela história secreta: a mãe, que nascera no ano de 1953, primeira filha dentre oito irmãos, era o único registro vivo da avó. Mas nascida cinco anos depois da data monumentalizada na pele de couro, tornava-se tão inútil quanto a verdade encoberta.
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Qual a verdade encoberta? O que acontecera de tão importante na vida da avó, para que fosse registrado num pedaço de pele? Estaria esse fato interligado a tantas outras vidas, seria a força motriz da cadeia de nascimentos e mortes daquela família?
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Nunca saberia. A sensação do silêncio mortificava-lhe a alma. A certeza de que tamanho dom, por vezes mal aproveitado, não serviria de nada. Nunca mais. A certeza do nunca a aterrorizava por meio de sonhos grotescos e a chegada da solidão: estava só.
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Vencida, recolheu a todas as lembranças que antes a caixa cercava. Visitou a todos os tios, primos, afilhados e aparentados, roubando-lhes a memória de cada registro, foto, linha escrita em papel de pão; aprisionou-as naquele invólucro, colocando fim na única memória que não poderia lhe pertencer ou controlar.
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- É grande assim a tua vaidade? - perguntou-nos a criança.
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Durante dois anos, estórias foram aprisionadas na caixa de couro, junto de fotos, versos, simpatias, modinhas, orações, relicários, velas, contas, listas, cordões umbilicais, remédios, convites de casamento, convites de batismo, convites de aniversário, "santinhos" de óbito, aliança de casamento, foto de um homem cujos olhos muito claros não o faziam da família. Tudo foi jogado fora, em água corrente, próximo à casa de campo hoje registrada em meu nome.
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Ainda sonho com o ano de 1948.
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domingo, 5 de agosto de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

sábado, 30 de junho de 2012

Meilleur des mondes

*Outros mundos. Foto de Roberto Quintela.
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Aqui só pode ser o melhor dos mundos possíveis. Caminhava ontem pelo calçadão quando me deparei com dois famosos, simultaneamente: ambos ligados ao universo sertanejo. O mais jovem, com a namorada; o mais velho, com esposa e  filho. Em que outro lugar do mundo isso aconteceria, que não aqui? Em  seguida, comprei um pastel-esfiha. Ao sair da lanchonete, a senhora chinesa alegou que não a havia pagado, sendo que fora a primeira coisa que fiz, após escolher o pastel-esfiha e vice versa. Conferiu as notas no caixa e pediu-me desculpas. Em que outro lugar do mundo isso aconteceria, que não aqui? Mais tarde, uma cervejinha com alguns amigos, até o badalar das onze e meia da noite. Isso porque o último ônibus com destino ao bairro em que moro é as 23:30; não tenho carro, não tinha carona e, em função da greve de professores federais, uma corrente do mal se apossou de todos os assalariados dessa cidade, cujos salários lhes pagam de metade em metade. Em suma: Sou assalariada e taxi está caro. Em que outro lugar do mundo isso aconteceria, que não aqui? O ônibus especial que nos leva para casa está repleto de mocinhas de 13 a 20 anos, todas exatamente iguais, com a mesma saia "lápis", mesmo modelo de sapato, mesmo modelo de bolsa e, inconfundivelmente, mesmo modelo de cabelo, cabelo liso e longo. Todas clonadas de algum manual de beleza. Em que outro lugar do mundo isso aconteceria, que não aqui?
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Um pequeno gambá cruza o meu caminho pouco antes d'eu chegar em casa.
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Em que outro lugar do mundo isso aconteceria, que não aqui?
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Sei que sentirei saudades.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

sábado, 23 de junho de 2012

El Libro de Arena (Jorge Luis Borges)


... thy rope of sands...
George Herbert (1593-1623)

La línea consta de un número infinito de puntos; el plano, de un número infinito de líneas; el volumen, de un número infinito de planos; el hipervolumen, de un número infinito de volúmenes... No, decididamente no es éste, more geometrico, el mejor modo de iniciar mi relato. Afirmar que es verídico es ahora una convención de todo relato fantástico; el mío, sin embargo, es verídico.

Yo vivo solo, en un cuarto piso de la calle Belgrano. Hará unos meses, al atardecer, oí un golpe en la puerta. Abrí y entró un desconocido. Era un hombre alto, de rasgos desdibujados. Acaso mi miopía los vio así. Todo su aspecto era de pobreza decente. Estaba de gris y traía una valija gris en la mano. En seguida sentí que era extranjero. Al principio lo creí viejo; luego advertí que me había engañado su escaso pelo rubio, casi
blanco, a la manera escandinava. En el curso de nuestra conversación, que no duraría
una hora, supe que procedía de las Orcadas.

Le señalé una silla. El hombre tardó un rato en hablar. Exhalaba melancolía, como yo
ahora.
—Vendo biblias —me dijo.
No sin pedantería le contesté:
—En esta casa hay algunas biblias inglesas, incluso la primera, la de John Wiclif. Tengo asimismo la de Cipriano de Valera, la de Lutero, que literariamente es la peor, y un ejemplar latino de la Vulgata. Como usted ve, no son precisamente biblias lo que me falta.
Al cabo de un silencio me contestó.
—No sólo vendo biblias. Puedo mostrarle un libro sagrado que tal vez le interese. Lo
adquirí en los confines de Bikanir.

Abrió la valija y lo dejó sobre la mesa. Era un volumen en octavo, encuadernado en tela. Sin duda había pasado por muchas manos. Lo examiné; su inusitado peso me sorprendió. En el lomo decía Holy Writ y abajo Bombay.
—Será del siglo diecinueve —observé.
—No sé. No lo he sabido nunca —fue la respuesta.

Lo abrí al azar. Los caracteres me eran extraños. Las páginas, que me parecieron gastadas y de pobre tipografia, estaban impresas a dos columnas a la manera de una biblia. El texto era apretado y estaba ordenado en versículos. En el ángulo superior de las páginas había cifras arábigas. Me llamó la atención que la página par llevara el número (digamos) 40.514 y la impar, la siguiente, 999. La volví; el dorso estaba numerado con ocho cifras. Llevaba una pequeña ilustración, como es de uso en los diccionarios: un ancla dibujada a la pluma, como por la torpe mano de un niño.

Fue entonces que el desconocido me dijo:
—Mírela bien. Ya no la verá nunca más.
Había una amenaza en la afirmación, pero no en la voz.
Me fijé en el lugar y cerré el volumen. Inmediatamente lo abrí. En vano busqué la figura
del ancla, hoja tras hoja. Para ocultar mi desconcierto, le dije:
—Se trata de una versión de la Escritura en alguna lengua indostánica, ¿no es verdad?
—No —me replicó.
Luego bajó la voz como para confiarme un secreto:
—Lo adquirí en un pueblo de la llanura, a cambio de unas rupias y de la Biblia. Su poseedor no sabía leer. Sospecho que en el Libro de los Libros vio un amuleto. Era de la casta más baja; la gente no podía pisar su sombra, sin contaminación. Me dijo que su libro se llamaba el Libro de Arena, porque ni el libro ni la arena tienen ni principio ni fin.
Me pidió que buscara la primera hoja.
Apoyé la mano izquierda sobre la portada y abrí con el dedo pulgar casi pegado al índice. Todo fue inútil: siempre se interponían varias hojas entre la portada y la mano. Era como si brotaran del libro.
—Ahora busque el final.
También fracasé; apenas logré balbucear con una voz que no era la mía:
—Esto no puede ser.
Siempre en voz baja el vendedor de biblias me dijo:
—No puede ser, pero es. El número de páginas de este libro es exactamente infinito.
Ninguna es la primera; ninguna, la última. No sé por qué están numeradas de ese modo
arbitrario. Acaso para dar a entender que los términos de una serie infinita admiten
cualquier número.
Después, como si pensara en voz alta:
—Si el espacio es infinito estamos en cualquier punto del espacio. Si el tiempo es infinito estamos en cualquier punto del tiempo.
Sus consideraciones me irritaron. Le pregunté:
—¿Usted es religioso, sin duda?
—Sí, soy presbiteriano. Mi conciencia está clara. Estoy seguro de no haber estafado al nativo cuando le di la Palabra del Señor a trueque de su libro diabólico. Le aseguré que nada tenía que reprocharse, y le pregunté si estaba de paso por estas tierras. Me respondió que dentro de unos días pensaba regresar a su patria. Fue entonces cuando supe que era escocés, de las islas Orcadas. Le dije que a Escocia yo la quería
personalmente por el amor de Stevenson y de Hume.
—Y de Robbie Burns —corrigió.
Mientras hablábamos yo seguía explorando el libro infinito. Con falsa indiferencia le
pregunté:
—¿Usted se propone ofrecer este curioso espécimen al Museo Británico?
—No. Se lo ofrezco a usted —me replicó, y fijó una suma elevada.
Le respondí, con toda verdad, que esa suma era inaccesible para mí y me quedépensando. Al cabo de unos pocos minutos había urdido mi plan. —Le propongo un canje —le dije—. Usted obtuvo este volumen por unas rupias y por la Escritura Sagrada; yo le ofrezco el monto de mi jubilación, que acabo de cobrar, y la
Biblia de Wiclif en letra gótica. La heredé de mis padres.
—A black letter Wiclif! —murmuró.
Fui a mi dormitorio y le traje el dinero y el libro. Volvió las hojas y estudió la carátula
con fervor de bibliófilo.
—Trato hecho —me dijo.

Me asombró que no regateara. Sólo después comprendería que había entrado en mi casa con la decisión de vender el libro. No contó los billetes, y los guardó. Hablamos de la India, de las Orcadas y de los jarls noruegos que las rigieron. Era de noche cuando el hombre se fue. No he vuelto a verlo ni sé su nombre.
Pensé guardar el Libro de Arena en el hueco que había dejado el Wiclif, pero opté al fin por esconderlo detrás de unos volúmenes descabalados de Las mil y una noches. Me acosté y no dormí. A las tres o cuatro de la mañana prendí la luz. Busqué el libro imposible, y volví las hojas. En una de ellas vi grabada una máscara.

 El ángulo llevaba una cifra, ya no sé cuál, elevada a la novena potencia. No mostré a nadie mi tesoro. A la dicha de poseerlo se agregó el temor de que lo robaran, y después el recelo de que no fuera verdaderamente infinito. Esas dos inquietudes agravaron mi ya vieja misantropía. Me quedaban unos amigos; dejé de verlos. Prisionero del Libro, casi no me asomaba a la calle. Examiné con una lupa el gastado lomo y las tapas, y rechacé la posibilidad de algún artificio. Comprobé que las pequeñas ilustraciones distaban dos mil páginas una de otra. Las fui anotando en una libreta alfabética, que no tardé en llenar. Nunca se repitieron.

De noche, en los escasos intervalos que me concedía el insomnio, soñaba con el libro. Declinaba el verano, y comprendí que el libro era monstruoso. De nada me sirvió considerar que no menos monstruoso era yo, que lo percibía con ojos y lo palpaba con diez dedos con uñas. Sentí que era un objeto de pesadilla, una cosa obscena que infamaba y corrompía la realidad.

Pensé en el fuego, pero temí que la combustión de un libro infinito fuera parejamente infinita y sofocara de humo al planeta. Recordé haber leído que el mejor lugar para ocultar una hoja es un bosque. Antes dejubilarme trabajaba en la Biblioteca Nacional, que guarda novecientos mil libros; sé que a mano derecha del vestíbulo una escalera curva se hunde en el sótano, donde están los periódicos y los mapas. Aproveché un descuido de los empleados para perder el Libro de Arena en uno de los húmedos anaqueles. Traté de no fijarme a qué altura ni a qué distancia de la puerta.

Siento un poco de alivio, pero no quiero ni pasar por la calle México.

A Biblioteca de Babel (Jorge Luis Borges)

* De Fernando Salgueiro. Vaticano.
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O UNIVERSO (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente.
A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal.
Uma das faces livres dá para um estreito vestíbulo, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do vestíbulo, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades físicas. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito.
No vestíbulo ha um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para quê essa duplicação ilusória?), prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…
A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante. Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer; a poucas léguas do hexágono em que nasci.
Morto, não faltarão mãos piedosas que me joguem pela balaustrada; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo cairá demoradamente e se corromperá e dissolverá no vento gerado pela queda, que é infinita. Afirmo que a Biblioteca é interminável.

Os idealistas argúem que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Alegam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (os místicos pretendem que o êxtase lhes revele uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que siga toda a volta das paredes; mas seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus). Basta-me, por ora, repetir o preceito clássico: “A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível”.
A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta.
Também há letras no dorso de cada livro; essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas. Sei que essa inconexão, certa vez, pareceu misteriosa. Antes de resumir a solução (cuja descoberta, apesar de suas trágicas projeções, é talvez o fato capital da história), quero rememorar alguns axiomas.
O primeiro: a Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o Universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser obra de um deus.
Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar esses rudes símbolos trémulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas.
O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco[1]. Essa comprovação permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura decifrara: a natureza disforme e caótica de quase todos os livros.
Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha ate à última. Outro (muito consultado nesta área) é um simples labirinto de letras, mas a página penúltima diz Oh, tempo tuas pirâmides.
Já se sabe: para uma linha razoável com uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências. (Sei de uma região montanhosa cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas sustentam que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam. Esse ditame, já veremos, não é completamente falaz).
Durante muito tempo, acreditou-se que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem assaz diferente da que falamos agora; é verdade que algumas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa andares mais acima é incompreensível.
Tudo isso, repito-o, é verdade, mas quatrocentas e dez páginas de inalteráveis M C V não podem corresponder a nenhum idioma, por dialetal ou rudimentar que seja. Uns insinuaram que cada letra podia influir na subsequente e que o valor de M C V na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série noutra posição de outra página, mas essa vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente essa conjectura foi aceite, ainda que não no sentido em que a formularam seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior[2] deparou com um livro tão confuso quanto os outros, porém que possuía quase duas folhas de linhas homogêneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros lhe afirmaram que em iídiche. Antes de um século pôde ser estabelecido o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico.
Também decifrou-se o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variantes com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de gênio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Esse pensador observou que todos os livros, por diversos que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula as vinte e duas letras do alfabeto.
Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: “Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos”. Dessas premissas incontrovertíveis deduziu que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (numero, ainda que vastíssimo, não infinito), ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas.
Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catalogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros; o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens sentiram-se senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse: em algum hexágono. o Universo estava justificado, o Universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança.

Naquele tempo falou-se muito das Vindicações: livros de apologia e de profecia, que para sempre vindicavam os actos de cada homem do Universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu futuro. Milhares de cobiçosos abandonaram o doce hexágono natal e precipitaram-se escadas acima, premidos pelo vão propósito de encontrar sua Vindicação.
Esses peregrinos disputavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, estrangulavam-se nas escadas divinas, jogavam os livros enganosos no fundo dos túneis, morriam despenhados pelos homens de regiões remotas. Outros enlouqueceram… As Vindicações existem (vi duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas talvez não imaginarias) mas os que procuravam não recordavam que a possibilidade de que um homem encontre a sua, ou alguma pérfida variante da sua, é computável em zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verosímil que esses graves mistérios possam explicar-se em palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca produzirá o idioma inaudito que se requer e os vocabulários e gramáticas desse idioma. Faz já quatro séculos que os homens esgotam os hexágonos…
Existem investigadores oficiais, inquisidores. Eu os vi no desempenho de sua função: chegam sempre estafados; falam de uma escada sem degraus que quase os matou; falam de galerias e de escadas com o bibliotecário; ás vezes, pegam o livro mais próximo e o folheiam, á procura de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
A desmedida esperança, sucedeu, como e natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis afigurou-se quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canônicos.
As autoridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas na minha infância vi homens velhos que demoradamente se ocultavam nas latrinas, com alguns discos de metal num fritilo proibido, e debilmente arremedavam a divina desordem.

Outros, inversamente, acreditaram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: a seu furor higiênico, ascético, deve-se a insensata perda de milhões de livros. Seu nome é execrado, mas aqueles que deploram os “tesouros” destruídos por seu frenesi negligenciam dois fatos notórios.
Um: a Biblioteca é tão imensa que toda redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que apenas diferem por uma letra ou por uma virgula. Contra a opinião geral, atrevo-me a supor que as consequências das depredações cometidas pelos Purificadores foram exageradas graças ao horror que esses fanáticos provocaram. Urgia-lhes o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmesim: livros de formato menor que os naturais; onipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Em alguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus.
Na linguagem desta área persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Muitos peregrinaram á procura d’Ele. Durante um século trilharam em vão os mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B, que indique o lugar de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito…
Em aventuras como essas, prodigalizei e consumi meus anos. Não me parece inverosímil que em alguma prateleira do Universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que seja há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não estão para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, Tua enorme Biblioteca Se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa exceção. Falam (eu o sei) de “a Biblioteca febril, cujos fortuitos volumes correm o incessante risco de transformar-se em outros e que tudo afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira”.
Essas palavras, que não apenas denunciam a desordem mas que também a exemplificam, provam, evidentemente, seu gosto péssimo e sua desesperada ignorância. De fato, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variantes que permitem os vinte e cinco símbolos ortográficos, porém nem um único disparate absoluto. Inútil observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro intitula-se Trono Penteado, e outro A Cãibra de Gesso e outro Axaxaxas mlö.
Essas proposições, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são passíveis de uma justificativa criptográfica ou alegórica; essa justificativa é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar certos caracteres dhcmrlchtdj que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não contenham um terrível sentido. Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e de temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias.
Esta epístola inútil e palavrosa já existe num dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos – e também sua refutação. (Um numero n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; em alguns, o símbolo biblioteca admite a correta definição ubíquo e perdurável sistema de galerias hexagonais, mas biblioteca é pão ou pirâmide ou qualquer outra coisa, e as sete palavras que a definem tem outro valor. Você, que me lê, tem certeza de entender minha linguagem?);
A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou nos fantasmagórica. Conheço distritos em que os jovens se prostram diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, mas não sabem decifrar uma única letra.
As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente degeneram em bandoleirismo, dizimaram a população. Acredito ter mencionado os suicídios, cada ano mais frequentes. Talvez me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que a espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever infinita. Não interpolei esse adjetivo por costume retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado postulam que em lugares remotos os corredores e escadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar – o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites esquecem que os abrange o número possível de livros.
Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.
[1] expressão popular para resplendor.
[2] Mesmo que gupiara, depósito de diamantes.