quarta-feira, 10 de julho de 2013

Eu sou Metal....

ETHOS

*Alguma tela de Dalí.
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"O sangue O Negativo é conhecido como universal. Pode ser transfundido em qualquer pessoa. Mas apenas 9% dos brasileiros possuem esse tipo sanguíneo. É muito utilizado pelos hospitais pois é o sangue que salva em situações de emergência."
(Portal São Francisco)


"Niña venida de tan lejos, traída de tan lejos, 
a veces fulgurece su mirada debajo del cielo. 
Quejumbre, tempestad, remolino de furia, 
cruza encima de mi corazón, sin detenerte"
(PABLO NERUDA)




"Ethos diz respeito ao caráter da personagem. Por exemplo, o poema épico A Ilíada trata da ação de homens superiores. O herói desse poema é Aquiles e seu ethos é elevado, sublime, divino, pois ele é um homem superior"
(Dicionário  Informal)


"[...] O escorpiano é tremendamente poderoso e seu caráter pode causar enormes benefícios ou grandes riscos para os demais. Sua tenacidade e força de vontade são únicas, mas também muito sensíveis e facilmente afetadas pelas circunstâncias. São emotivos e facilmente feridos ou aludidos. De fato, podem perder totalmente a cabeça ao perceber, inclusive erroneamente, que alguém lhes xingou. Não sabem morder a língua e podem ser muito críticos. 
Quando um escorpiano consegue utilizar sua enorme energia de forma construtiva, se transforma em um grande agente para a sociedade e pode converter-se num grande líder. Não obstante, os escorpianos devem aprender a controlar-se, porque podem ser muito críticos e ressentidos com os outros. São excelentes amigos dos que considerem merecedores de seu respeito.
Os escorpianos são muito imaginativos, intuitivos e têm uma grande capacidade para analisar situações e pessoas. De todos os signos do zodíaco, são os que mais probabilidade têm para converter-se em gênios - desde que controlem seu lado negativo, porque se tomam o caminho equivocado podem ser muito destrutivos para eles mesmos e para outras pessoas. Devem tentar evitar sensações como a arrogância, a agressividade e o ciúme, porque eles sentem as coisas tão intensamente que, se se renderem a esses sentimentos negativos, podem perder o controle."
(Euroresidentes.com)


"[...]Jesus Cristo nasceu em Belém, Judeia (Palestina), por volta do ano 6 a.C. Seus ensinamentos morais, como o amor a Deus e ao próximo, fizeram com que sua vida passasse a ser um exemplo a ser seguido. Aos 33 anos, Jesus morreu crucificado injustamente e ressuscitou após o terceiro dia."
(Brasil Escola)

"[...]Como resultado de suas tendências marxistas, a Teologia da Libertação, como praticada pelos bispos e sacerdotes da América do Sul, foi criticada em 1980 pela hierarquia católica, do Papa João Paulo pra baixo. A hierarquia mais alta da Igreja Católica acusou os teólogos da libertação de apoiar revoluções violentas e luta de classes definitivamente marxista. Esta perversão é geralmente o resultado de uma visão humanista do homem sendo codificada na Doutrina da Igreja por sacerdotes e bispos zelosos e explica por que a hierarquia católica agora quer se separar da doutrina e revolução marxista." (Gotquestions)

"[...]Over their first 20 years, brothers Isaac, Taylor and Zac Hanson have made their mark. Five years building a fanbase as an independent band led to a meteoric rise with the 1997 international smash single MMMBop from their debut album Middle Of Nowhere. A long line of hits, four more studio albums, multiple Grammy nominations and over 16 million album sales followed..." (Hanson.net)



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Perguntei-me hoje de que parte veio meu caráter. Em toda minha vida, é a primeira vez em que pergunto qual pequeno gene responsável por ele. Aonde está? esteve? Bahia, São Paulo, Minas, Madrid? Qual O negativo trouxe o meu caráter? Qual O positivo? Qual dos dois / dois? Ou é quatro, o meu caráter, resultado perfeito da soma de todas as partes, 2+2? Duplicados, os quatro, vezes um que sou eu, 4 x 1, daria igualmente ( = ) quatro. 
Meu caráter é o número quatro. 
Somando o número quatro a minha história, memória, circunstância e contexto - de que tamanho ficou o meu caráter? Caberia em que espécie de recipiente? Ou caberia em coisa alguma? Teria cor? cheiro? ira? preguiça? beleza? doçura? tirania? Haveria travado alguma guerra, batalha, jogo de adivinhações, jogo de amarelinha? Quem é hoje o meu caráter e onde está o responsável por ele? Onde enfia-lo-ei, o caráter, quando não houver mais recipiente que o cerque? 

Meu caráter é imenso e já não cabe em lugar algum.
Mas se dividi-lo bem, em pequenas partes de mim, caberá em tantos bolsos que ficarei sem parte do todo. Livrar-me-ei assim do meu caráter ou seria ele o número infinito?

terça-feira, 9 de julho de 2013

CLASSIFICADOS.



*Um Amor de Sapos. Ugho (há trema nesse o).


Precisa-se de gastroenterologista com urgência.


Temo que meu estômago se converta em serrapilheira úmida, como em florestas tropicais, haja vista a quantidade enorme de sapos que venho engolindo há muito. Não só ouço o coaxar enquanto durmo, como coaxo eu também. Mês passado, verrugas pelo corpo; hoje, fome absurda de mosquitinho, depois mosca - dessas gordinhas e crocantes...hum! hum! uebe! uebe! uebe! ("Sou sapo macho?").

Precisa-se de  gastroenterologista com urgência; para antes da primavera, "nossa" época de reprodução....(como explico ao namorado que botei ovo de pai desconhecido?). 

Atenciosamente.

AMAI-VOS!

*O Beijo de Judas - Giotto
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"PROTEO - Dejando a mi Julia, soy desleal; amando a la bella Silvia, soy desleal;  traicionando a mi amigo, soy más desleal aún, y el poder que me impuso mi primer  juramento es el mismo que me induce a esta triple deslealtad. Amor me hizo jurar, y Amor me obliga a que me retracte de mi juramento. ¡Oh Amor! ¡Dulce tentador, si has pecado, enséñame a mí, subdito tuyo, y por tí rendido, a excusar mi falta! Hasta hace un instante era mi ilusión una reblandeciente estrella; pero ahora amo a un sol celestial. Imprudentes promesas pueden ser prudentemente retractadas, y falto de talento es quien no emplea el  suyo en trocar lo malo por lo mejor... ¡Quita allá, quita allá, irrespetuosa lengua! ¡Calificar  de mala a aquélla cuya soberanía tantas veces proclamaste con mil y mil ardientes protestas! No puedo dejar de amar, y no obstante, dejo de amar y, sin embargo, no amo donde debiera amar [...] Soy más querido para mí mismo que lo pueda ser un amigo. Porque el amor es el más precioso de los bienes..."

(SHAKESPEARE. Los dos hidalgos de Verona, Acto 11, Escena 6)

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A SAGA DO ULISSES QUE NÃO TINHA MAR.... ( Biografia para o amigo Fádeo).

FELICIDADES!!!!!
*Arquivo pessoal.
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Falar sobre o Fádeo Diniz Pinto é uma difícil missão. Nem todos são capazes; isto por que falar sobre esse grande guerreiro, descendente de Ulisses - O Odisseu - exige de nós um conhecimento filológico, filosófico e também judódico. Aparentemente calmo e sereno como brisa suave do mar, Fádeo é justamente o oposto desta imagem metafísica (sim...também é preciso metafísica e literatura para compreender suas raízes genocidas, ops, genealógicas): Fádeo é um gigante guerreiro! Um Ulisses em terras sem mar. Eu, pobre mortal, fui incumbida a contar um pouco de suas aventuras mundanas e espero então que todos os ninfomaníacos, ops, ninfos, todos os ninfos gregos, com seus respectivos cantos de aurora boreal, ajudem-me a fazê-lo. Fa-lo-ei! 
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Custei a compreender a dimensão de seu nome, este que eu sempre esquecia, como em uma charada da vida para comigo...."É....Oi Fádel! É....Fadeu?....É Fabeol? Oi Fá! E aí Moço???". Até o dia em que sob a inspiração dos ninfos gregos celestiais decidi pesquisar a raiz etimológica de seu nome, a que - como logo verão - é a resposta para a sina deste guerreiro (...das terras sem mar). 
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Antes da Batalha....
Fádeo significa "aquele que construiu a sinagoga", isto é, fariseu. Vejam a semelhança: Fádeo = Fariseu. Trata-se de um nome hebraico, פרושים, derivado do latim pharisaeus, por sua vez derivado do grego antigo ϕαρισαῖος, por sua vez derivado do japonês arcaico   パリサイ人. Poucos sabem, mas eu - iluminada pelos ninfos celestes - descobri uma relação simbiótica entre o hebraico e o japonês, relação esta que tem tudo a ver com o judô! Isto por que o judô é um esporte-filosófico japonês que significa "caminho da suavidade". Dessa forma, qualquer construtor de sinagogas antes de Cristo precisaria dominar, ao menos intimamente, o caminho da suavidade para fazer sua missão com exatidão. Exatos também são os economistas, seres humanos formados em Ciências Econômicas (mas isso já vem bem depois de Cristo). Todas essas informações estão "coesas", isto é, ligadas por uma única chave mágica que a tudo explica! Fádeo: aquele quem construiu sinagogas através do caminho suave da paciência e da exatidão só alcançados através da arte do judô somado aos estudos em ciências econômicas, se nascido na era Cristã (como é o caso do nosso protagonista).
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Após este magnífico canto de anunciação às honras fadais, passemos a história desse aventureiro e como o conheci.
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Fádeo nasceu em Belo Horizonte, onde poderia ter sido rei se vivêssemos em regime monárquico e se lá houvesse se estabelecido. Mas não: Fádeo viveu em Curvelo, por alguma razão desconhecida, e lá cresceu e se fez moço formoso até o dia em que decidiu prestar vestibular para às terras viçosenses. É preciso lembrar que não falamos de um cara comum, mas sim de um descendente hebraico-japonês de Ulisses, aquele carinha que ficou anos numa ilha ao lado de uma ninfa maravilhosa, até o retorno à Ítaca, para os braços da amada Penélope. Neste sentido, Fádeo, nosso guerreiro, cruzou às terras mineiras até os braços de sua Penélope Jacob, moça engraçada e de sorriso largo. Ambos, muito apaixonados um pelo outro, um dia formarão uma família também de guerreiros plenos em exatidão (porque tanto Fádeo quanto Penélope Jacob praticaram juntos a arte do judô e do cálculo em Ciências Econômicas; aliás, foi assim que se encontraram....).
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Quando conheci o Fádeo,  ele me era apenas um nome. O namorado de uma das minhas melhores amigas. Com passar do tempo, aprendi o seu nome; aprendi um pouco dos seus gostos; aprendi um pouco do seu jeito. Jeito manso disfarçado, que traz em viés uma sagacidade deslumbrante. Fádeo não é só competente em tudo o que faz, mas também brilhante. Do tipo que não precisa estudar para a prova de cálculo Y, simplesmente pelo fato de que tem ou é a própria sabedoria no tal cálculo y.  Esta qualidade, dada ao nosso guerreiro das terras sem mar, pode levá-lo à soberba se mal utilizada. Mas aí basta lembrarmos de sua raíz brasileira, mineira e materna para nos darmos conta do quão grande é o coração deste rapaz.
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Conheci a mãe de Fádeo pessoalmente há pouco tempo, o que torna meu conto fantástico verossímil, por ser ela - a mãe de Fádeo - uma mulher extremamente linda, a que mais parece sua irmã à mãe. Isto por que Fádeo, como todo guerreiro grego ou mineiro, tem sim os seus traços de beleza e de sensualidade; MAS, amiga que sou de sua namorada Penélope Jacob (da dinastia dos Jacob), melhor mudarmos de assunto....
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Fádeo já veio a minha casa duas vezes: em minha formatura e num dia de sol, desses casuais. Estava de folga do Judô, da Economia, das raízes etimológicas-genealógicas-filosóficas de seu nome, das grandes batalhas, mas não de sua namorada - já que também a trouxe. Uma das qualidades desse moço-guerreiro é o dom da oratória: tem um vozeirão maravilhoso, grave, desses de se querer escutar em noite estrelada (eu não!Claro....Faço as palavras de Penélope Jacob "também" minhas). Enfim, só pra dizer que Fádeo tem charme mas também persuasão discursiva. Em poucos minutos conquistou a toda minha família, esta que é ranzinza e ama só com muito encontro e café. Fádeo não precisou: bastou soltar o verbo. 
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Confissões, risos, cervejas - já partilhamos um pouco de vida. Mas nos falta um longo caminho há cruzar, uma longa travessia, especialmente para você, Fádeo. Espero  aprofundar as raízes não só etimológicas-genealógicas-filosóficas, mas raízes de coração, haja vista minha grande admiração por você, amigo Fádeo. Que seu brilhantismo seja usado como dom nesta e em todas as guerras - e que além disto você possa desenvolver a habilidade do esforço e da espera, para uma ou outra derrota. Que sejam poucas, porque todos a sua volta te querem muito feliz! Em Viçosa, Curvelo, Belo Horizonte, Japão, Grécia, Roma ou ....(como é???) ou....sei lá, Cisjordânia......

DESEJO A VOCÊ TODA FELICIDADE E SUCESSO DO MUNDO!!


UM BEIJO DA AMIGA,
SOFIA/AMANDA

TATATATATATATTATATATATATATARAVÔ DE FÁDEO, O GUERREIRO ULISSES: Nome latino de Odisseum, rei de Ítaca. Participou da guerra de Tróia. Levou dez anos para voltar à sua ilha onde a esposa Penélope o esperava, pois a feiticeira Circe por ele se apaixonou e tudo fez para que ele não retornasse. Teve que passar no local habitado pelas sereias e mandou-se prender ao mastro do navio, para evitar o canto mavioso e mortífero delas."






sexta-feira, 5 de julho de 2013

O AMOR É BOM JOAQUINA.

*Adão e Eva. Foto de "ana".
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"But don't change your hair for me, not if you care for me
Stay little Valentine stay, Each day is  Valentine day...."*



Amor é egoísta como criança faminta e mimada; se não sabe falar - a criança - chora. Se já maiorzinha, grita; se adulta - silencia. Porque  amor é como criança faminta e cheia de pirraça, não se comunica, adivinha-se o amor em sua forma desnuda e imaterial. Nada mais imaterial que a fome. Vontade inexplicável de preencher-se, mas com o que está fora de si, e, se possível, por meio de mãos alheias. Amor nasce como criança; mas para alimentá-lo é necessário que lhe deem - ao amor - comida três vezes ao dia ou murchar-se-á como flor. Amor é também flor. Necessita cuidado ou morrerá como pessoa humana. Amor é também humano, amam animais, plantas e alguns microrganismos reprodutivos. Amor é mistério, como Deus - por isso há quem diga ser "Deus o amor perfeito".
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Amor é criança faminta e mimada; flor exigente de água; pessoa humana preenchida em palavra; animais, plantas e microrganismos - sexuados ou não. Amor é Deus: sexuado ou não.
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Desnudo e imaterial, pouco importa o verbo amar. Tu me amas, eu lhe amo. Importam os gestos e doações diárias, quando mais se já está a convivência, pequena pedra no sapato da humanidade. Mais que gestos e doações, neste caso - quando há o conviver - é preciso trocar o verbo.
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Escutar vezes e mais vezes a história sobre como ambos se conheceram. 
Escutar vezes e mais vezes que era ele - sim - um "cachorro", até o dia do segundo olhar.
Escutar vezes e mais vezes a história dele sobre os melhores amigos que lá estão.
Escutar vezes e mais vezes a história dela, absurda história, de que é médium e encarna espíritos.
Que importam as histórias? Importa é o trocar dos verbos: Amar se reduziria a pó se não houvesse o escutar. 
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Quem nunca desligou o telefone na "cara" do seu amor? Talvez por dificuldade no escutar, prática exigente em paciência, "desabenegação" e desprendimento. Já desliguei telefonemas em tantas caras - seja homem ou mulher. Hoje desliguei para silenciar, porque fizeram de mim adulta e adultos são pouco espertos, pouco pacientes, pouco "escutadores".
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Adão e Eva não trocavam palavras, somente gemidos-guturais. Até o dia em que lhes veio o fruto proibido, que de maçã nada tinha, senão romã - o fruto do amor. Conheceram-se, Preencheram-se de linguagem e, consequentemente, séries de verbos inúteis. Povoaram o mundo e, tempos depois, divorciaram-se (Não se menciona isto na Bíblia ou não existiriam casamentos). Ninguém suportaria um casal como Adão e Eva. Não obstante, expulsaram-lhes do paraíso antes da primeira "DR".
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Casar é apenas um deles, como juntar-se, namorar ou foder. Amor não se mede em verbos. No máximo, adjetivos muito bem usados para os dias "adjetivais": "Como você é inteligente, meu amor!"; "Imagina, como te trairia? Você é o homem da minha vida!"; "Você é mais divertida que Joaquina, minha amiga pedante..."; "Sua barriguinha é fofa, embora maior a cada dia..."; "Você é linda quando acorda, meu amor"; "Seu time é o melhor, minha vida!".
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Prefira os verbos de ligação, na falta de jeito: ou escutar, perdoar, conhecer.
Para ligarmos nossos amores à eternidade.
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O amor é bom, Joaquina.
Às vezes, também eterno.
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*(My funny valentine 
 - Damien  Saez)

sábado, 29 de junho de 2013

Mamífero

*somos mamíferos. Foto de José Vahl.
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É preciso se ligar a alguém ou a algo para não morrer de solidão. Na casa de veraneio, úmida, vazia, oca, havia centenas de flores e plantas que nada lhe diziam. Também eram vida como a dela, mas  tal mulher não possuía - ou desenvolvera - poder necessário, aquisição de linguagem para as botânicas, vivia só. Após a morte dos pais e irmã, viajou por muitos caminhos que nada lhe trouxeram; conheceu muitas pessoas - as que lhe acrescentaram tamanha sabedoria e curiosidade pelo simples e pequeno, mas não permaneceram as pessoas. Passou a vida só. Sem um amor. Sem uma religião. Sem um partido político. Sem uma causa. Sem um filho, seja este de qualquer espécie, humano ou literário. Viveu como se prendesse a respiração e, debaixo d'água, lhe tirasse a vida a capacidade do pensar, do sentir. Permitiu-na apenas o sobreviver.
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É preciso se ligar a alguém ou a algo para não morrer de solidão. Porque ao contrário do que se pensa, se existe Deus, abrirá Deus sua manta de compaixão apenas ao lado de lá, chegada a hora. Daqui se vê melhor as coisas: daqui, astígmatas, míopes, estrábicos e cegos noturnos veem melhor as coisas. É preciso unir-se aqui, enquanto há tempo, a alguém ou a algo para não morrer de solidão.
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Homem ou  Mulher que lhe servirá de ombro em momentos dolorosos; que lhe servirá de alegria para a celebração das pequenas vitórias; que comparta contigo o prazer pelo prazer. Ou, quem sabe, Amigo ou Amiga, que lhe servirá de brilho nos olhos, brilho na pele, entusiasmo - palavra mais bonita criada por algum mamífero qualquer. Há também os Cães, os Gatos, os Cavalos - outros colegas de caminhada hábeis em nos lembrar quem somos, em nos fazer rir e chorar. Não obstante, existe a arte, a ciência, a luta, o trabalho, a fé,  desde que acrescidos a boas doses de amor, de paixão, de graça e de entusiasmo - a palavra mais bonita criada por um mamífero qualquer.
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Havia uma mulher em uma casa de veraneio úmida, vazia e oca, cercada por flores e plantas que nada lhe diziam, porque não dominava - aquela mulher - a linguagem botânica.  Sem  linguagem, só nos resta essência. 
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Esqueceu-se a mulher de que era um mamífero. Em essência, um dos mais importantes; mas só.

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OBS: TEXTO SEMI REVISADO

sexta-feira, 28 de junho de 2013

ABUELAS

Doce de figo. Bolo de chocolate. Quebra-cabeça atrás da porta, quando Natal.  Conjuntinho xadrez, a ele e a mim, para evitar ciúmes. Palmadas no bumbum. Leite de vaca. Cozinheira do grupo escolar. Faxineira do grupo escolar. Meus primeiros cadernos. Meus primeiros lápis de cor - anuais. Primeira pessoa a que me apresentou uma escola tão bonita. Todo Natal. Todo Réveillon. Dia de "simpatia". Gavetas. Naftalina. Postais. Cartas de um amor clandestino, amor impossível. Livros de tarô. Presépio. Capela. Velas. Coroação à virgem. Tombo da Cachoeira. Mãe da minha mãe. Roça. Fogão à lenha. Calcinhas de Natal. Romãs no dia de Reis. Céu estrelado. Crucifixo artesanal, com fitas  multicor. Quadro de Nossa Senhora das Graças, com nuvens azuis que me faziam sonhar. Pequeno santuário com luzes brilhantes. Asas. Vacas, Bois, Bezerros, Café. Acordar  na madrugada. Brava. Doce. Briga com dois filhos homens; briga com a filha do meio; amor incondicional pelos filhos mais velhos; amor eterno à filha especial. Mentirinhas bem contadas. Nora do impiedoso Senhor Antônio Clemente, meu bisavô. Coração grande, porém disfarçado; conhecia o mundo como ninguém e as próprias crias. "HUM!, sá-moça!"; "Deus dá, Deus tira". Perdera um neto e, desde então, nunca mais pronunciou seu nome. Cleiton. Não fazia trico. Não mimava. Anotações em cadernos  velhos. Viuvez aos trinta. Oito filhos, menos dois bebês. Mãe dos netos sem mãe. Macarronada e maionese. Cristaleira. Luta. Solidão. Felicidade disfarçada. Jardim. Rosas que tocavam o céu. Rosinhas. Cartões de aniversário. Bolsinha branca, para guardar remédios. Madrinha. Briga em meus dezesseis. Falta de perdão. São Miguel do Anta. A vizinha engraçada. Forrós. Ex dona de boteco. Silêncio. Amargura ou Amor? Dentaduras. Minha felicidade. Minha tristeza. Melhor amiga "de" mãe. Telefonemas diários. Visitas semanais. Trabalho árduo. Caixinha de fotografias - a minha única herança. Infarto aos 77. Meu remorso. Minha infância. Meu velocípede. Meu amor. Minha  saudade. 

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Mesa farta: café, almoço e jantar. Rezávamos o terço, apesar da nossa preguiça. Desligava o ventilador, após  o meu adormecer; Ligava o ventilador, se muito calor; cobria-me com manta grossa, se muito frio - se muito calor. Mãe do meu pai. Cachoeirão, Pocrane, Ipanema, Minas. Nove filhos, todos vingaram (Amém). Puxa-saco dos homens caçulas. Café para tio Rui. Á espera de Pedro,  até  o fim. Mãe da neta com mãe. Broa, biscoito, café. Preocupação com a neta do meio. Almoços aos domingos, uma vez ao mês. Arroz, feijão, quiabo, frango e angu. Sarcasmo. Ironia. Liberdade. Alguns Natais. Um Réveillon  ou dois. Quando vinha a melhor amiga, para o chá, convidava-me para cantar a elas uma canção muito antiga que só eu sei. Pouco contato, até um dia em que puxei assunto e, desde então, nunca mais parou de falar. Falava dos filhos; falava dos netos; falava das dores nas costas; das dores nas pernas; falava - sobretudo - do destino dos netos (preocupada). Não fazia trico. Não mimava. Belas pernas de moça. Belas irmãs, filhas e netas. Eternamente apaixonada pelo marido, vô Sodé. Viuvez aos sessenta. Andava de um lado ao outro, em plena madrugada ou nascer de sol. Hipocondríaca, como meu pai e eu. "Pedrinho chegou?"; "Pedrinho, vem almoçar!"; "Rui, o café!"; "Nenê, já tomou o remédio?"; "Como desentupiu a pia? Com seu nariz?" "Namorado da Amanda? Pra ela até que serve...."; "Tem uns capetinhas aqui, tem uns capetinhas"; "Cade o Rui e o Dário - já me esqueceram?" (quando no hospital). Filha de Chico Bijos - ex padre, ex mascate, ex médico, o único ser humano a ver o diabo pessoalmente, dizem. São Paulo, Espírito Santo, Ipatinga (a irmã de olhos azuis ainda vive lá, com o bombeiro de pias entupidas). "Você? Bailarina de perna grossa?"; "Nutricionista serve pra quê, Elia?". Fanha - como meu pai. Negra, como todos nós. Coração grande. Fala de matraca. Aos poucos, o devaneio. Internações. Alzheimer. Antes, o álbum de fotos e confissões em certo hospital, quando com ela estive por três noites. Um terço pela metade - minha única herança. Falência múltipla de órgãos aos 83. Saudade da broa, do biscoito, do ventilador, da matraca, da voz fanha a que herdaram os netos.
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Obrigada vovó Maria e vó Apolônia. 
Por me convidarem ao banquete da vida, no qual permaneci por sorte e picardia.  
Obrigada por tantas memórias, as que guardei numa caixinha de palha e pedaço de alma.
Obrigada pela família que me emprestaram. A que amo involuntariamente, sempre que respiro.
Todo amor-bom é involuntário. Como amor de mãe.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Can you hear me?


Borboleta 2. Gonçalves Oliveira
I am flying, 
I am flying,
Like a bird 

across the sky
I am flying, 

passing high clouds
To be near you, 

to be free
Can you hear me? 
Can you hear me?
Through the dark night, far away
I am dying, 

forever cryin
To be with you, 
who can say?
 (Rod Stewart - Sailing)

sábado, 22 de junho de 2013

MÉTODO CATÁRTICO

*Domínio Público.
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Fluxo de consciência, cura pela fala. Após noites mal dormidas em um hospital, acordei em sobressalto por haver sonhado assistir a uma aula sobre Progressão Geométrica e Aritmética. Pus-me a pensar no que tais símbolos condensam e deslocam - porque sou freudiana até a medula e esta discussão de que ele foi machista e misógino....por favor, deixemos para outro post! Então, desde muito criança, trabalho com a cura pela escrita; a escrita é o meu-amor-maior nesta encarnação, dentro dos objetos palpáveis que tenho  em vida, objetos construídos por minhas inábeis mãos. Mas há sim os amores inconscientes, estes revelados apenas em lampejos oníricos, atos falhos ou desejos inexplicáveis. Este post é sobre isso. Impossível libertar-me da censura que, como num gozo duplicado, tem lá sua função: sinto prazer quando sou lida, porque assim vos leio através de mim, passando horas a imaginar as reações do que fora escrito entre mim e ti. Mas tentarei, a fim de matar tempo e indecisão, criar uma lista livre, sem  pensamentos pré-programados, utilizando o método catártico de Freud, porém através da escrita. Escreverei lo que me sale de los cojones. Quem sabe uma coisa aqui e ali não se realiza? A vida é um pequeno mistério envolto em caixinhas de presentes. O que vi acontecer a meu pai nestes dias (a meus pais...) é um mistério em miniatura que nos passa pela vida sem dizer nada, a menos que, se atentos, enxergamos os detalhes sobre a mesa, como se deixados por uma enfermeira em pequenos e pobres saquinhos plásticos, porém cujo interior, doce ou amargo,  é saboroso como nuvem de algodão. Ás vezes, uma noite de insônia é mola impulsora para um sonho reprimido.
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Presentes da vida 
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1. Quero ser médica. Hematologista. Cuidar de doenças sanguíneas e pesquisas relacionadas ao sangue humano. Quero trabalhar em hospital. Poucos sabem, mas meu primeiro vestibular, em 2003, foi para Medicina na USP. Fiz por fazê-lo, nem havia estudado. Em seguida, mudei-me para Minas. Foi quando meu "namoradinho" e irmão faleceram, fazendo-me desistir em tentar qualquer coisa que me exigisse esforço. Como sou apaixonada por letras, história, literatura, teologia e filosofia - encontrei todas essas disciplinas no curso qual me formei e hoje sou mestranda. Mas quero ser médica. Ofereço-me à família como acompanhante de qualquer enfermo. Estudo na internet casos que me interessam. Sou sócia da ABRALE (Associação Brasileira de leucemia e linfoma). Em São Paulo, ia a palestras sobre cura psicossomática, cura espiritual (cirurgia espírita). Fui ao GRAACC (Grupo de Apoio ao adolescente e criança com câncer) - mas, ao ver uma jovem, da minha idade, fazendo sua quimioterapia percebi que talvez não gostassem - os pacientes do GRAACC - em serem exibidos como cobaias, ainda que por causa nobre.  Tenho recortes em casa de inúmeras doenças sanguíneas, enquanto meninas da minha idade colecionavam fotos de artistas (bem, eu fazia os dois....). Mas a preguiça fez de mim um sorriso falso, uma vida falsa, uma profissão que não a que sonhei. Fiz teste  para doutora da alegria, em Viçosa, e passei. Mas depois me dei conta de que não há nada mais insuportável no mundo que se fingir de palhaço. Eu não.

2. Escrever um livro. Sobre o quê? Não faço ideia.... Mas escrever. Viver de escrita, se médica ou não. Primeiro, um livrinho de crônicas; depois, um conto, alguns contos; e, por fim, um romance, mas já na velhice. Adoraria trabalhar como colunista em algum jornal, ou freelancer....(estou à espera de uma proposta que me veio por amiga, mas não "boto fé" em papo de japonesa, RISOS). Fiz Letras porque queria aprender a escrever. Aprender a Literatura da minha língua. Que me perdoem os professores de língua estrangeira, mas eu, Sofia, só tenho vontade de ensinar a minha língua e  aprender linguística sem a Literatura de Língua Portuguesa é como amputar o braço do corpo. Já traduções eu gosto; e também aulas para estrangeiros. Mas exatamente pelo raciocínio inverso: levar à alguém a minha língua. O Espanhol é sexy, o Inglês é o Inglês, mas a Língua Portuguesa, flor do lácio, é uma flor nascida no deserto. Portanto, quero ser escritora.

3. Odeio dar aulas. Nunca mais quero dar aulas em escola, a menos que seja para ganhar uma "graninha" extra, como preciso neste momento para a poupança a que pretendo. Aula só em Universidade ou curso para estrangeiro. Mas então precisaria fazer um doutorado ou sair do país. Faço ambos com maior alegria. Tenho vontade de estudar na USP ou na UERJ e morar um tempo em Buenos Aires. Quanto ao namorado, havendo amor é possível conciliar. O que não se pode conciliar é o primeiro e mais forte desejo - a Medicina.

4. Quero ter um filho com meu namorado. Em breve.

5. Quero fazer uma poupança, seja médica, professora universitária, escritora, tradutora, professora em escola mesmo - a fim de poder viajar sempre. Em 2012 tive a possibilidade de viajar só - e com meu dinheiro - a Buenos Aires, onde além de turismo estudei espanhol intensivo. Nunca me senti tão viva. Lembro-me de uma noite num café, sozinha, comendo empanadas e vinho....Um mozo tentando flertar...mas eu, pobre, era coração e mente apenas em meu namorado hispanobrasileiro, embora nem houvéssemos oficializado ainda (apesar dos quase quatro anos de relação...). Sentou-se um hippie a meu lado. Um senhor. Eu respirava, respirava, respirava com tanta profundidade sentindo o valer a pena estar ali. Este dia fora o mais feliz da minha vida, mas não entendo por quê. Ainda, contudo, quero conhecer mais da América Latina, Península Ibérica, Grécia e Itália. Também partes do Brasil. 
Mas, sobretudo, voltar a Buenos Aires.

6.Gostaria de casar com meu namorado na igreja. Recentemente, passamos por uma situação um pouco traumática...Ele sabe. Gostaria de selar nosso compromisso vestida de branco. Ele, como ateu, não quererá um padre jamais; todavia, não precisa ser um sacerdote. Podemos convidar a algum amigo de confiança que nos  faça um discurso bonito. Amo discursos e , pretensiosa que sou, posso muito bem escrevê-lo sozinha. O importante é receber nossas famílias, unidas - também a espanhola.
Quem sabe ano que vem?

7.Que meu namoro dê certo! Mas para tal, ajustes sejam feitos: Que ele seja menos grosso; que permita minha intervenção em sua vida, quando para ajudá-lo; Que brigue menos comigo (falo quanto ao tom de voz, às vezes me é insuportável). E que  me siga daqui, porque antes do trinta vou-me embora de Viçosa, como dois e dois são quatro. (A menos que passe em Medicina. Aí vou até o inferno).

8. Que meus pais vivam para sempre. Menos que sempre não permito. Eu não barganho com a força divina. Pode até ser que eles mal se orgulhem de mim que, ao contrário das minhas amigas e das colegas "mulherzinhas" com quem convivo, não tenha nada, apenas sonhos. Mas não permito que eles morram. Eu daria literalmente a minha vida pela deles. Não quero morar eternamente com eles, mas, quando assumir meu "casamento" (o que eu chamo de casamento e não essa bosta da papel), visita-los-ei pelo menos a cada quinze dias.

9. Ter grana suficiente para quando meus quatro priminhos crescerem porque pretendo adotá-los de alguma forma. Financeiramente ou mesmo trazendo-os para minha casa. Também quero cuidar da mãe deles, que é uma das melhores pessoas que conheci, apesar do estrago (mas só em parte financeira). Quanto a meu tio,  isto é, o pai das crianças, levaria-os todos os finais de semana para visitá-lo. Poderíamos revesar, uma semana ficam com ele; noutra, comigo. Mas isso para o futuro...Quando o caçula, meu afilhado, tiver seus vinte e três; eu, quarenta e três.

10. Quero ter o direito de ser triste. Desde que Cleiton faleceu (e também o Rodolfo, um "namoradinho" de adolescência) nunca mais fui a mesma. Cleiton é meu primo, porém como filho único, fomos criados como irmãos. Faleceu em decorrência de um vírus vegetal, o qual enfraqueceu sua válvula cardíaca. A relação que tenho hoje com minha mãe me lembra muito a nossa história, um misto de amor e irritação - ele foi a pessoa no mundo que mais me irritou. Ás vezes o peço conselhos sobre minha vida atual. Não creio em muitas coisas, mas se pudesse revê-lo um dia......(e também ao Rodolfo, à Dona Ruth, a Julya Victor, à vovó Maria, à vovó Apolônia, ao tio Dário, ao tio Carlos japonês, ao tio Wada japonês........) seria bonito. Quero dizer: se existe esta absurdidade de que nos buscam à beira da morte, é você que quero Cleiton. Sinto falta do seu riso, da sua leseira mental, do modo idiota como eras apaixonado por mim e que, ao mesmo tempo, impulsionava-me à felicidade.

11. Quero comprar todas as terras do Tombo da Cachoeira do meu tio (um dos tios mais queridos) Como?  Não sei.

12. Voltar a São Paulo. Já disse? Só por pouco tempo.

13. Quero morrer no Tombo da Cachoeira e, minhas cinzas, serão jogadas na cachoeira de lá, o rio Casca.

14. Quero fazer meu mestrado sobre Gil Vicente, com orientador e coorientador. APENAS sobre Gil Vicente. Se o tema não era bom, que não houvessem me aprovado. Não tenho dinheiro para ressarcir à CAPES, ou seja, FAREI MINHA DISSERTAÇÃO SOBRE GIL VICENTE: AS MORALIDADES VICENTINAS. Farei um resgate histórico do gênero na Europa; um capítulo sobre o pensamento medieval embasado na ideia de morte que se tinha na época. Um pouco da política portuguesa. Análise de duas moralidades e "ecos" póstumos com autores contemporâneos. Ou isso ou isso. E, se conseguir quem me financie, vou a Coimbra trazer material. Caso continuem a me encher o saco com isso, saio deste Mestrado.

15. Voltar a dançar Ballet clássico.

16. Fazer mais amigos. Meus amigos de São Paulo têm suas vidas lá; os daqui, uma grávida, outra militante, outra casada, outra cujo senso de humor está nos níveis mais baixos (a ela dediquei o post "Liberdade ainda que tardia). Sinto-me sozinha. Sinto-me pequena e triste, encolhendo. Não saio muito, mas gosto de um "buteco", jogar conversa fora. Meu melhor amigo tem lá sua vida com os seus e nem ao menos me telefona. Preciso conhecer gente nova.

17.Estudar Francês.

18. Aprender a montar bem a cavalo, eu amo cavalos.

19. Quero voltar a ser amiga de uma pessoa cujo nome não citarei.

20. Mesmo casada, ter meu apartamento com a minha decoração e viver com meu marido em casas separadas. 

21. Tirar carteira de habilitação para "calar a boca" desse povo que me julga incapaz.

22. Comprar um globo terrestre enoooooooooorme e que brilhe no escuro. (sonho de infância).

23. Sublimar em algo ainda desconhecido esta minha vontade em ser freira/ irmã/ missionária.

24. Poder ouvir, até o fim dos meus dias, todas as músicas que ame: clássica, erudita, MPB, samba, chorinho, pagode, pop rock e até le lek lek lek (adoro essa música e os meninos dançando, que coisa linda!). Axé e música eletrônica jamais!

25. Ter alguns bons momentos de alegria: 
A única morfina capaz de nos salvar da silenciosa morte cotidiana.
Um dos dias mais felizes da minha vida....

A vocês, queridos leitores, o meu presente para este dia recém nascido. Trata-se de Emmanel Pahud - Andantino

sábado, 15 de junho de 2013

O MILAGRE DE CADA DIA NOS DAI HOJE.

*Arquivo pessoal
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Parei de fumar há alguns meses. Não sinto falta, a menos quando muito ansiosa. Como tatu bola ou ladrão bem intencionado, escapei discretamente à meia noite deste domingo recém nascido e me pus a fumar ao lado de fora do apartamento, desafiando a porta que nos cerca. Em casa de família o cigarro é proibido. Mas driblei a hierarquia dos "Bijos de Freitas" e abri a tal porta - de incapaz que fui em destrancar a janela da sala de estar. O apartamento não é meu.
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No corredor, próximo à saída do edifício, avistei a uma formiga que, cheia de doçura, caminhava lentamente à parte alguma, provavelmente à procura dos seus. Desapareceu em alguns segundos, deixando-me só  com meus cigarros, isqueiro e devaneio.  Observei-a por alguns instantes e inventei um milagre.
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Imagine só, leitor, se todos os deuses, inclusive o meu, fossem apenas formigas. E que o além vida - seja céu, plano espiritual, inferno ou umbral - fosse repleto delas, grandes, pequenas, rainhas, vassalas, negras ou vermelhas formigas. Caso sejamos a imagem e semelhança de Deus, como acredito, e se Deus - em meus devaneios - fosse formiga, também nós as seríamos, quando despidos de corpo e restritos  à alma inumana.
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Se Deus fosse uma formiga não haveria mais guerras ou discussões pedantes sobre religião. Poderia tê-la matado naquele momento quando atravessou o meu caminho em busca de sei-lá-quê. Mas resisti, porque senti pena. Não quis desencorajá-la. Há gentes que, como eu, mal sabem o chão em que tocam. Já a formiga que vi tinha o sério objetivo de sobreviver. Invejei-a.
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Se Deus fosse uma formiga, e acredito que seja, descobriria então o mistério da vida: Somos pequenos, porém o trabalho que nos dá o existir é pesado e dignificante, como as folhinhas que carregamos sobre as nossas costas diariamente. Cada um de nós tem lá suas folhinhas para quando a chegada do inverno.
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Se Deus fosse uma formiga, teria vergonha em tê-las matado ao longo dos meus vinte e sete anos apenas por inveja, como aqueles que estouram plástico bolha para matar o tédio de suas vidas medíocres.
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Porém Deus nunca seria um plástico bolha. No máximo, uma barata, mas então já não teria salvação - a minha alma - porque baratas  extrapolam minha sensibilidade.
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Deus é uma formiga. Tenho certeza. 

Dedicado a C.L.L.M - o garoto que salvava formigas,
regava  flores e plantava árvores.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O colecionador de lanternas

*Domínio público.

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Havia um homem muito doce que colecionava lanternas. Não importavam marcas, tamanhos, preços,cores, funções, aparatos, se velhas ou novas, se rústicas ou modernas. Colecionava-as sem saber por que razão, mas, como por fetiche, mantinha-nas todas numa gaveta secreta, fechada a sete chaves. Vez ou outra, aparecia com alguma novidade a vista dos que dividiam consigo o mesmo ar e matéria, nunca entendemos muito bem qual graça havia em uma lanterna cuja luz, artificial, mais cega que ilumina.
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Este homem caduco gostava de contar histórias infinitas e casos de carochinha. Diz que tem sete vidas e quase já perdeu algumas: quando criança, uma rara infecção; quando adolescente, quase se afogara no rio da cidadezinha onde nascera; já adulto, três ou cinco assaltos, uma queda do telhado, um sequestro relâmpago, uma arritmia congênita, um quase derrame, um acidente de carro e uma laparotomia mal sucedida. 
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Trata-se de um homem engraçado, apesar da cara feia - cara de fome. Diz que encomendava almas junto da avó, mulher de letras que desde cedo o ensinara o segredo do grande drible, o drible triunfal: como escapar da morte. Saiu de casa muito cedo e foi morar numa pensão aos doze anos, onde aprofundou-se nos estudos. Aos dezoito, arriscou a vida na cidade maravilhosa. "Dois anos e três meses" - repete com orgulho, como se neste espaço temporal sua vida houvesse ganhado cor local nunca antes encontrada nas cachoeiras de seu verdadeiro lar. Lar é segredo de alma.
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Uma viagem a São Paulo que lhe mudaria a vida. Pacto com Deus ou Diabo? Ainda se pergunta. Trinta anos trabalhado como metalúrgico, na mesma firma, o que lhe rendeu uma aposentadoria precoce aos quarenta e seis. Entre coisa e outra, o casamento com a moça mais bonita - também mineira; o nascimento da filha única, misto de ovelha negra com menina dos olhos. Cinco cães que lhe foram como anjos neste caminho perplexo do viver. Viagens ao redor de si, viagens a Colômbia, Rondônia, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo, Brasília, interior de espírito. Final de semana era sinônimo de churrasco com os amigos-mais violão-mais músicas da jovem guarda. A criança, que nada entendia, não queria mais colo e sim brincar eternamente com os filhos dos amigos do pai. As viagens à praia grande, as viagens ao Tombo da Cachoeira ao encontro da sogra, cunhados, sobrinhos e do menino que nasceu raiz. 
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Interessava-se pelo mundo exterior, sem que nunca houvesse caminhado tão longe: estudou informática, manutenção de computadores, trabalhou com marketing de rede, estuda matemática e inglês diariamente, embora só assista a filmes dublados. Se teve "casos" não sei, mas foi de chamar olhares pra si, olhares alheios. A esposa ciumenta guardava-se numa caixinha de música; a filha, no entanto, era a porta voz das dores femininas. 
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Tinha tantos amigos e era querido por saber amar e amar bem. Mudou-se para o interior de Minas ao se aposentar e nunca mais foi o mesmo. Custou acostumar-se com a desconfiança mineira, ainda que sendo um deles "Mineiro é bicho traíra, bom mesmo é carioca". Acostumou-se à cidade indo e vindo de um pequeno sítio que vendeu logo após a morte de Sheik, o cão mais amado. Buscou consolo nos poucos amigos: os cunhados que lhe amam como irmãos e um ou dois senhores sexagenários, mas de humor bem vivo; um jovem cientista, um cabeleireiro, as amigas da filha e os irmãos. Perdeu um deles recentemente mas engoliu o choro. Se abríssemos seu coração, haveria ali milhares de gotas mal derramadas luzindo como lanternas em miniatura.
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Queria uma menina, mas aí veio o milagre: nasceu uma boneca com alma de moleque mal criado. Não vai à manicure, é briguenta como ela só. Não sabe fazer tantas coisas quanto o resto de seus sobrinhos - casados, pais, mães, escritores, jornalistas, cientistas, criadores de aquecedor solar, banqueiros. Uma menina que passa os dias à procura de palavrinhas para comê-las todas resignando-se a um mundo interior. De certa forma, ele a conhece muito bem e percebe a dor que ali habita, na menina, quando perdeu o único irmão. Ficou gaga para sempre e hoje só escreve com penas invisíveis. 
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Sexagenário teimoso que prefere morrer a serenar. Quem de nós errará desta vez, Raimundo? Quem de nós acertará?
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Quando tu ficares bom, meu pai, dou-te o Rio de Janeiro inteirinho; o Pará e  o Rondônia também. Um neto, um microondas, uma boina xadrez e a lanterna mais linda.
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15/06/2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Liberdade ainda que tardia

*Arquivo "tarjetas ofensivas pero divertidas".
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(ou fragmento de facebook III - dedicado a uma amiga).



Uma pessoa só é livre quando vence o medo do ridículo. Não há intelecto-causa-literatura-bandeira-verdade-mentira que resista a um bom peido em hora imprópria ou crise de caganeiras. Só o vexame público te liberta da escravidão; só quem supera o ridículo, humoriza o ridículo, reconhece-se como tal, humanamente pequeno, é livre suficiente para as ditas "coisas admiráveis" da vida (se é que existem). 

Já acreditei que fosse Joana Darc, Dom Luciano Mendes, Emília - a boneca; já fui cantora de ópera em seminário religioso, à beira de uma piscina imaginária; já vaticinei a homossexualidade de dois policiais civis e de um enfermeiro marianense em noite de sonambulismo. Já fui amiga íntima dos Cavaleiros do Zodíaco, sendo eu a quarta reencarnação da deusa Atena, aos dez. Conversava, desde pequena, com as manchas coloridas do meu astigmatismo; acreditava que uma bruxa vivia encapuzada numa lona preta que cobria a porta dos fundos da minha casa; já desci ao fundo do poço. Chamaram-me de louca. Visitavam-me em casa a fim de que me convertessem em meu contrário "religioso" (não direi qual). Entrei em coma por um dia. Já me declarei inúmeras vezes. Já tive a saia levantada pelo vento enquanto passava em frente a uma oficina mecânica. Bati papo com o Hanson, duas vezes, em inglês. Disse ao Marcelo Camelo que seu álbum "SOU" estava muito caro e por isso não o compraria. Tive uma crise de caganeira numa reunião de trabalho e também festa junina, onde sujei todo um quarto e colchão com minha própria merda. O quarto era de um ex ficante. Limpei tudo sozinha, mas lençóis e cobertores levei como trouxa de roupa para que mamãe os lavasse, já que o depósito fecal era demasiado para minha escassa habilidade com tanquinhos. Pensei que nunca sobreviveria a tal evento...Mas cá estou! Escrevi uma monografia de 120 páginas tornando-me a chacota do meu departamento... (o limite era de sessenta páginas, porém soube tarde demais.....). Já entreguei trabalhos com erros virais de digitação, justo para aquele professor a quem tentava impressionar...Aliás, dos quatorze aos vinte e sete já me apaixonei por vários professores e não obstante, casei-me com um. Já caí em tour piquet no meio de um palco (mas em seguida fui ovacionada em quinze fouetées perfeitos). Já fui a outra cidade com a camisa ao contrário. Já tive o soutien estourado em meio a uma festa infantil. Falo com minha sogra por telefone mensalmente, ainda que ela não saiba português e tampouco eu espanhol. Já me vesti de banana,  Imperatriz Russa e Bule. Já cantei "Meu bem você me dá: água na boca" no meio de um bar e desfilei, em sapatilhas de ponta, pela cidade de Ponte Nova  em marcha pela juventude. Descobri que o amor da minha vida tinha outros dois amores da "sua" vida concomitantemente a minha existência. Para me vingar, convidei a "uma das moças" para uma noite de "buteco", a fim de descobrir toda a verdade. Saí de lá "acabada", mas cheia de boas histórias inimagináveis. Levei um pé na bunda de outro amor da minha vida, um que não vingou. Além deste, tive outros seis amores. J, R1 e G se casaram; R2 está noivo e R3 faleceu. T é de Taylor Hanson. Quando adolescente, uma amiga e eu saímos pelas casas do nosso bairro, em São Paulo, pedindo doações de calcinha para uma mendiga quando nos acusaram de "macumbeiras" por prática de vudu (segundo a senhorinha, queríamos a calcinha dela para que roubássemos seu precioso marido). Quando criança, meus pais pediam que cantasse "Como uma deusaaa....." às visitas que recebíamos. Queimei a perna em festa de bebida liberada e ao ajudar o entregador de compras. Sou fotossensível e bipolar. Escrevi uma carta de amor que nunca será respondida. Amei meu irmão caçula de tal forma que não suportava a ideia de que fosse superiormente correspondida.  Usei botinha ortopédica. Fiz parte do clube "três primos virgens do cursinho GOMO*". Jogo Criminal Case. Quero ser escritora, bailarina, médica e mãe.
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Acreditei em Papai Noel até os nove anos e nunca entendi o funcionamento de um semáforo. Existiria um mini-homem responsável pela mudança das cores em cada uma daquelas caixinhas? Como um pequeno polegar?
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Liberdade ainda que tardia, queridos.