terça-feira, 25 de abril de 2017

LABIRINTO

*Fonte: https://floresdeumdeserto.blogspot.com.br/2012/09/ariadne-o-mito-da-princesa-apaixonada.html


                            Dioniso canta:


"Sê prudente, Ariadne!...
Tens pequenas orelhas, tens minhas orelhas:
Põe aí uma palavra sensata!
Não é preciso primeiro odiarmo-nos se devemos nos amar...?
Sou teu labirinto..."

DELEUZE, Gilles. Mistério de Ariadne segundo Nietzsche. IN: Crítica e Clínica. São Paulo: Editora 34, 1997.

Tentativa de crônica: Meu lugar no mundo

*Carros em Cuba. Bol Fotos



Além de tema desta temporada de Malhação, creio, o título acima poderia muito bem ser o do meu futuro livro, acrescido pelo meu número de azar, 630 (piada interníssima, a que somente um novo amigo entenderá). Mas não tratarei do tal seriado adolescente, embora reconheça que muitas vezes viva situações semelhantes e trago em mim certa imaturidade. 
Meu tema será Viçosa.


Nunca gostei de Viçosa e hoje temo que o meu vaticínio infantil estivesse certo; de que não fosse apenas amor pela minha cidade natal, senão intuição feminina - infantil. Sempre falo disso com muito respeito, por medo de ser taxada como prepotente (sim, sou humana e o julgamento alheio me amedronta).

Nasci em São Paulo, capital, onde vivi os quase dezenove melhores anos da minha vida. Mas minha família é mineira e, portanto, desde que nasci venho a Minas Gerais anualmente: antes em maio, dezembro e janeiro; depois, dezembro e janeiro; ainda, julho, dezembro e janeiro, e...Finalmente, ora julho, ora dezembro, ora janeiro. Contudo, nunca estive em Viçosa, ao longo daqueles anos todos, apenas de passagem. Íamos, minha mãe e eu sozinhas (meu pai às vezes, devido ao trabalho), ao Tombo da Cachoeira, roça da minha avó que fica no município de Canaã; a Ervália, onde tenho tios que lá ainda vivem e a São Miguel do Anta, onde tenho tia, parente, além de ser esta a cidade a que minha avó viveu por muitos anos, após se mudar de Canaã (em minha opinião, um grande erro). Primos em todas essas cidades tive e tenho. Há outras também, as que não "fediam ou cheiravam", e por lá muito estive para os eventuais casamentos, velórios e obrigações familiares. As cidades supracitadas, porém, sempre as amei. Em sua pequenez, em sua gente sábia, em suas cachoeiras, em suas igrejinhas, em minha família - em todos os nossos erros e acertos. Mas Viçosa - não.

Desde muito criança, meus pais me diziam..."quando papai aposentar, vamos morar lá em Viçosa, perto da casa de vó. Você vai estudar lá". Já muito pequena, aquilo me trazia certa ansiedade. Adolescente então, imaginava-me casada com algum fazendeiro rico e vivendo eternamente ali, indo logicamente à Semana do Fazendeiro (não sabia da existência do Leão e do Moreiras, os que certamente me salvaram da infelicidade).

Meus pais se mudaram para Viçosa no início de julho de 2004. Eu me mantive em São Paulo ao longo daquele semestre todo, fazendo somente Ballet (não era uma "patricinha", mas pouco sabia do que queria da vida...). Saia com meus amigos do Colégio União Brasileira, com as amigas da "minha" rua e do Ballet e com os amigos da Sociedade São Vicente de Paulo. E por fim, cerca de seis ou sete meses antes da mudança fatídica, também realizei algumas experiências "religiosas" (por muito pouco não me tornei missionária ou freira... Por pouco mesmo. Nisso foi BH o que me "salvou", com todo respeito aos meus amigos religiosos, no ano de 2005. Bem, isso seria tema para outro causo).

Lembro-me de que coloquei os pés em Viçosa no dia 02 de agosto de 2004. Ao descer na rodoviária, meu pai me esperava e sabia que nada poderia fazer além de escutar (sim, escutar) o meu choro adolescente. Em nossa nova casa, um quarto de cor azul - minha então cor preferida - decorado com ursos de pelúcia, os que sobraram das doações que sempre fazia. Nunca gostei de bichinhos de pelúcia. Mudei tudo de lugar. Tranquei-me no quarto, sentei-me na cama e chorei durante um mês: já estava feito.

Exatamente duas semanas depois, meu melhor amigo mineiro (não de Viçosa) foi urgentemente levado a São Paulo a fim de tentar um transplante cardíaco. Por sorte, estive com ele em seus últimos dias. Meu amigo e também primo.

Retornando a Canaã para seu velório e depois a Viçosa, para o "resto" da vida, restara-me nada. Nenhuma palavra, nenhuma ideia ("ah! vou tentar Letras em São Paulo" - pois é preciso lembrar de que Letras nunca foi minha primeira opção, mas hoje gosto muito dela, mesmo que não me dê emprego algum, no momento....deu-me uma vida mais viva). Nenhum riso, nenhuma alegria, nenhum amigo. Aos poucos, conheci gente no cursinho pré-vestibular. Em meu primeiro aniversário ali, triste e só, por intuição fui à Igreja de Fátima quando conheci a um padre que, mesmo hoje não nos falando, apresentou-me à Pastoral da Juventude. E assim.... A vida certo rumo tomou. Depois, os três primos virgens do cursinho G***.... E então a coisa melhorava: já tinha amigos e uma república para me agregar. Enfim a graduação em Letras na UFV e os amores terminados. O mestrado também na UFV e os amores recomeçados. Até que em abril de 2015, mudei-me para Belo Horizonte. Mas, o causo ainda é sobre Viçosa.

A pena que hoje sinto não foi descoberta, mas sim reconhecida, ouvida, o que é bastante pior... Disse-me uma amiga, enquanto lhe fazia uma recente confissão: "....Até aqui não vejo muito problema. A não ser o fato de você ter passado esses anos todos rodeada de gente ruim!".

Como dói o reconhecimento! Mais triste quando dito por outrem!

E olha que fiz muitos amigos e amores nessa cidade. Vivi momentos fantásticos.... Conheci seres humanos extraordinários e aqui aprendi a beber (em alguns anos, saberemos se essa será a minha causa mortis). Aprendi a ler o mundo, a ter consciência política (modéstia à parte, já era bem crítica antes, em São Paulo). Nunca fui uma pessoa "cult" e conhecedora do mundo, sabe aquele tipo interessante? Só saí do Brasil duas vezes - sendo uma delas a dois países, o que me leva a dizer que conheci três países ou sete cidades. Mas também devo isso a Viçosa. Ao empenho de uma grana juntada certa vez (e com a ajuda do meu pai, dinheiro que depois lhe paguei) e também ao empenho doutra grana juntada, acrescida pela ajuda do meu atual "não sei o que somos" - dinheiro que também lhe paguei, em parte.

Uma única vez, aos vinte, extremamente apaixonada por um rapaz, disse-lhe que viveria em Viçosa eternamente por ele. Graças a Deus era só paixão!

Já com o atual "não sei o que somos", sempre lhe o dizia... "posso ficar mais um ano, mais um ano e meio aqui, mas tentemos concursos juntos em outros lugares, esse não é o meu lar, o meu lugar, sabes disso, e como para ti tanto faz, por favor, tente comigo".


(Silêncio)

Então, há alguns dias venho descobrindo que estava rodeada de pessoas ruins e que de mim pouco gostavam. Já o tinha notado....um ou outro na vizinhança (a de meus pais); um ou outro na vida acadêmica; alguns e outros do entorno religioso, que me abandonaram quando mais precisei. Mas nada se compara aos últimos acontecimentos. E mirem: não falo de assuntos do coração, não falo de uma pessoa em especial, falo de uma cadeia de acontecimentos maldosos que me trouxeram até aqui.

(Embora, se não por Viçosa, meus textos não existiriam)

.1. Amo São Paulo, com toda a minha alma, mas penso que já se tornaste uma Pasárgada: "[...] E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar/ - Lá sou amigo do rei — / Terei a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada." Meus melhores amigos ainda vivem lá, mas como seria eu - amiga desses, após tantos anos? Quem me tornei?
2. Adoro Belo Horizonte e suas luzes. Botecos, cinemas, arte - É a minha mini São Paulo. Tive um bom trabalho e hoje um Doutorado. Alguns colegas e uma amiga ou duas talvez. Mas era um lugar estratégico para estar em Viçosa sem não estar. Já não significam tanto as luzes e os botecos.
3. Não fui a Timor Leste. Não por medo da "violência de gênero", um risco mas que, poderia acontecer em qualquer lugar e hora no mundo. Os medos eram de três dias de avião (exatamente na época dos desaparecimentos daqueles chineses), um tsunami ou terremoto (Timor fica ao lado da Indonésia) e uma malária incurável. Se fosse hoje, iria. E tenho uma amiga que vive em Cingapura... Logo, já não teria medo da Malaysia Airlines, companhia aérea a que lá me levaria.


                                                       (mentira)



Mas sim, queria outra chance.


4. E Viçosa? Bem.. Há muita gente querida por lá, as quais não poderei abandonar. 
5. Queria era me mudar para Buenos Aires. Mas sempre me emocionei ouvindo Albeniz, Sarasate e Danse Bohéme (Bizet), minha música preferida. Mas isso não quer dizer nada, pois além do Gardel, gosto do Paganini e também da Anitta e do Noel.
...

Bem, em termos de religião a tudo já presenciei, compareci e frequentei. De certo, não a tudo, faltam-me o judaísmo e o islamismo. Mas espero ter tempo (não pretendo morrer muito velha, ainda quero ver coisas antes não vistas). O que pretendo realmente dizer (e me perco em minhas linhas), é que hoje sou "apenas" Cristã. Mas se fosse da umbanda, do kardecismo ou do candomblé (não estou segura dessa informação), teria que acreditar em karma e assim diria:

- Viçosa é o meu karma!! (com k mesmo, para enfatizar).


Tenho uma amiga espírita que concorda, mas tento não me influenciar, pois aí já seria sina.


Por fim:
1.Sempre deem ouvidos às intuições das crianças;
2. Temporariamente sem lar, sigo, ouvindo Cuba no repeat, Cuba de Albeniz.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Resposta a leitor antigo


Pensamento do dia: Então, olhando assim, eu pensei no "O Guardador de rebanhos" do Fernando Pessoa. Na realidade foi só isto que consegui pensar por que tentei olhar a paisagem, mas seu pensar está denso na foto. Esta é para você:

V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
.....
Obrigada pelo comentário-poema só visto agora.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Tempestade

*google.
......


Sempre admirei pessoas capazes de grandes mudanças, conversões religiosas, conquistas impossíveis. Desconheço o mecanismo que as movam, mas desconfio de que seja uma mistura de paixão, raiva e necessidade,não exatamente nessa ordem,

Não tive uma vida de muitas conquistas, a não ser aos quatorze e quinze anos, ao decidir que conheceria a banda Hanson pessoalmente; não só isso, os reencontraria para tirar uma foto que não deu tempo no primeiro encontro. Acho que naquele momento, paixão, raiva e necessidade (ainda que inventada) fizeram-se valer e consegui o que muitos, na época, invejaram. Hoje talvez seja fácil, ainda tenho vontade de revê-los, por volta do fim da vida, com a chegada da velhice, para contar-lhes sobre minha admiração. Ultimamente há mudanças mais urgentes a serem feitas.

De maneira ou outa, o fato é que ninguém muda sem necessidade. Ninguém acorda n'um domingo de manhã propondo-se a ser uma pessoa melhor, trabalhar em uma ONG, adotar um filho, fazer academia, entrar com um processo contra a empresa que o demitiu sem justa causa....mudar alguns defeitos. As pessoas, pelo menos as que conheci, mudam por necessidade: para fugirem da solidão, do medo, do abandono, da dor; para serem felizes e com isso tornar as pessoas ao redor - companheiro(a), filhos, vizinhos, amigos, humanidade.... - igualmente felizes. As pessoas são acomodadas e permaneceríamos ainda nas trevas se a necessidade de esquentarmo-nos não houvesse feito com que, instintivamente, o homem criasse o fogo. O mesmo se dá com essas modelos que após posarem para revistas masculinas tornam-se evangélicas ou qualquer outra ramificação. Não consigo analisar o porquê....(não acho vergonhoso posar nua) mas há alguma razão, a pretensa ideia de haver chegado ao fundo do poço. Cada ser humano tem sua ideia única sobre o que vem a ser o fundo do poço.

Não só admiro como também creio nessas conversões religiosas, nesse estalar de dedos que faz com que o sujeito decida tomar a estrada contrária, evitando assim uma morte precoce, morte de um amor, morte de uma amizade, morte de um sonho, ou de si mesmo. Não creio, todavia, que essas coisas se deem de repente, acho que é um processo longo e gradativo, mas possível, pensando no tripé acima (paixão, raiva e necessidade).

Sou escorpiana e como tal sempre tive de berço paixão e raiva. Em minha última apresentação de Ballet, em um festival, apresentando "o desafio de Kitri", sentia uma raiva imensa dentro de mim. Raiva por saber que possivelmente seria a última vez que pisaria num palco. Prestes a me mudar para o interior de Minas, via naquele momento o naufrágio da minha carreira de bailarina. Bem, naquela altura da vida já não queria dançar profissionalmente, mas queria ainda curtir a leveza que a juventude me proporcionava. Da coxia, três batidinhas no chão e um sinal da cruz, como sempre. Ao entrar naquele palco, já não era eu, tampouco Kitri, era um ser intermediário movido por uma paixão, uma saudade, uma vontade de permanecer eternamente ali. Fiz um "balance" perfeito; a diagonal com pirouettes simples foi perfeita, finalizando-a com uma tripla. Aplaudiram-me de pé.

A menina da coxia me abraçou (uma desconhecida), dando-me os parabéns.

Por fim, ganhei o terceiro lugar junto de outra colega. Eu estava gorda (risos). Mal tive o prazer de subir ao palco e pegar o meu troféu, visto que minha colega, e amiga, muito mais "aparecida", mal ouviu o próprio nome e saiu a correr, pegando o dela e o meu - troféu. A verdade é que o joguei fora, nunca mais o vi, mas naqueles segundos de variação de repertório, sofri novamente o transe das grandes conversões.

Poucas vezes vivi o mesmo. Sou do tipo que me deixo abater pelo ódio, pela tristeza, pela injustiça, pelo medo de perder. Já vi tantas e tantas pessoas morrendo, tantos jovens....que de alguma forma isso me bloqueia, todas as vezes que tento mudar algum comportamento viciado.

Estou passando por um momento de muita dor. Dentro de mim, sinto a ressaca do mar, ressaca de pensamentos, vontade de me segurar em algum apoio que não vem, que não enxergo, que não existe. Sou o tipo de pessoa que venceria uma leucemia linfoide aguda, mas que não consegue vencer os seus sentimentos.

Queria outra vida.

Mas, na impossibilidade de tê-la, decidi que vou mudar algumas coisas na que já possuo, coisas práticas e coisas mais complexas, dessas que só mudamos por amor ou pela ausência dele.

Um brinde ao que virá!