terça-feira, 7 de maio de 2013

Charlie, Hank and eu

*Charlie to Hank Transformation. Me , Myself and Irene (2000)



A capacidade em engolir sapos do sujeito é ampliada de acordo com a idade - esta é a conclusão a que chego após o término desta semana, aliás, também do dia de hoje. Ainda não fui diagnosticada com nenhuma doença psíquica responsável por variação abrupta de personalidade, mas tenho a certeza de que dentro do meu "eu interior" há uma série de Amanda´s espectros, não importando idade, nacionalidade ou gênero: do amável ao vingativo, do coach empresarial bem sucedido ao fracassado profissional, da femme fatale à bicho do mato antissocial, de professora de etiqueta a homem de meia idade coçador de saco em festa-familiar, de garotinho tímido criado pela avó a Isabelita dos Patins. De Charlie a Hank.

Já perdi namorado, "amigos" e orientadores devido a uma inabilidade social crônica, cujos sintomas são excesso de sinceridade, falta de desconfiômetro, instinto de cordeiro imolado, mescla de pedantismo e ingenuidade infantil. Hoje, contudo, engulo-os todos, sapos e sapinhos, de modo que percebo um sinal de maturidade tardia que me vem pelas "beiradas". Penso que minhas perdas anteriores não teriam ocorrido se "agisse ontem com a cabeça de hoje". Algumas dessas perdas ainda me tocam profundamente.

Pensando nisso, meu psiquismo se adiantou: "Ahamm!! Acha que pode nos deter??? Vamos mostrar a você, dona Amanda, de quem é a bola da vez.....". Sexta-feira passada tive um surto de ódio inumano indescritível, o qual ainda me assombrou nesta terça-feira tão amada. Ao receber um email "profissional", todos os sapos engolidos até então teimaram em transbordar do intestino grosso à cavidade oral, como capim regurgitado de vaca-de-primeira-linhagem. O email não nos interessa, mas me soava absurdo.Os sintomas foram um nascente tremor por todo o copo, acompanhado por sudorese diurna; taquicardia; enxaqueca; falta de ar; choro compulsivo; perda de toda sensação de esperança ante à vida (que é bonita, é bonita e é bonita.....); e, por fim, um tique nervoso na região dos lábios acompanhado por solo de bateria, como nos ilustra  Jim Carrey em Me, Myself and Irene (2000) - por ocasião da transformação do recatado Charlie em seu avesso Hank. 

Não só isso, uma imensa vontade de jogar merda no ventilador e vacas à deriva, comportamento também adotado pelo dulcíssimo Charlie, quando Hank. Impulso libertador em fazer o que realmente se quer da vida... o que no meu caso seria assumir que errei em minha escolha profissional. Encarar as consequências disso como uma pessoa normal faria, sem todo esse desequilíbrio. Deixar o mestrado, trabalhar em minha atual profissão enquanto me preparo para começar uma nova carreira. E, a longo prazo, mudar-me daqui, aceitando que para isso uma série de outras perdas exigir-se-ão. 

Mas isto é sonho. Trocar o certo pelo incerto é coisa de quem tem coragem, eu-ainda-não.

Naquela sexta, havia o café combinado com as recém amigas. A recém amizade, frágil e decorosa como todas do gênero, impediu-me de agir com a sinceridade dos amigos de longa data .... "Re, te ligo em cima da hora pra desmarcar. Eu sei que está sozinha a minha espera, "puta" com a minha cara de pau, mas é que um imprevisto aconteceu...eu .....eu estou com problemas, sabe? Desses de ir ao banheiro a cada quinze e quinze minutos, não posso sair. E meu cachorro está com febre, de novo".

Cheguei ao café ainda com tique nervoso na boca, tique-denunciador-de-que-alguma-coisa-séria-aconteceu. Concentrei-me em qualquer coisa exterior, sei lá, praias de nudismo ou fim de semana em Bora Bora, com direito a golfinhos e mergulho matrimonial.  Disfarçou-se. 

Ao chegar em casa, a enxaqueca persistiu até o dia seguinte. Dei-me conta de que não estou bem, não sou mais capaz de vestir um "sorriso no rosto" e pular a amarelinha da vida. Preciso de mudanças. Ontem, insônia. Hoje de manhã, discussão estúpida que elevou o meu nível de estresse uma vez mais. Ouço o solo de bateria anunciando à chegada de Hank.  Respirei muito fundo para não explodir. Após a simulação do drama, voltei a casa (tenho duas casas, no momento). Desliguei-me do mundo e a paz reinou entre homens, mulheres e cães. 

Eis que chega Charlie, instaurando uma tarde pacífica. Durmo para compensar a noite de insônia, mas sou interrompida pelos vizinhos septuagenários que se reúnem na sala de jantar e não sabem....falar....mais baixo...Acordo, levanto-me, vou à cozinha e finjo beber um suco de caju. Olho dentro dos olhos daquele velhinho que, ao me ver, cumprimenta-me como se nada acontecesse, como se pessoas de bem não pudessem dormir às quatro da tarde. Toca o celular: é  meu namorido-marinado

.....ouço  um solo de bateria....

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