terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Carta para Sofia

*arquivo pessoal.
....
Viçosa, 28 de janeiro de 2015? 

 Sofia,
 meu amor,
um pouco de carinho sempre é bem vindo, não?

Sim. Há tempos venho lhe prometendo um novo layout, uma nova identidade visual, mas devo-lhe todo o meu perdão. Entre todos com quem estive, conversei, sondei ou flertei, nada me pareceu realmente interessante. Sabes que não sou dada a vaidades, exceto minhas sobrancelhas que,por motivo qualquer, acho-as tão minhas, que não as confiaria a qualquer designer desses da moda, do local onde vivo (sabes que há tantos por aí).Por fim, prefiro eu mesma fazer o mal feito de repará-las, para não sentir o arrependimento de vê-las mal feitas por outrem. Há quem cuide do cabelo, do corpo, da alma, dos pés; eu cuido das minhas sobrancelhas, desde criança, quando já me diziam assim "parecem de mulher". Sinto o mesmo por você, pelo nosso espaço secreto.O layout virá, a identidade visual ou seja lá o que isso signifique; por hora, deixe-me escolher as letras mais toscas para firmar o seu nome no universo, ainda que agora seja apenas meu: Sofia de Buteco - ano VI.

Mas o que queria lhe contar, a ti e a quem entrar por estas terras virtuais, é que realizei alguns sonhos recentemente. Mal me dei conta da passagem do ano, e sabes, Sofia, o quanto sou supersticiosa para essas coisas. Pois na: estávamos dentro de um avião, confortabilíssimo, enquanto fingia eu assistir qualquer enlatado hollywoodiano para não morrer de fobia. Dez horas de mentira. Até chegar às terras dos conquistadores, tão graciosas que desnecessitam fotografias e merecem até o nosso "perdão"! (aspas! creio queme entende...) Passamos por Madrid, Granada, Sevilla e Avila; Lisboa e Coimbra. Dei-me conta, nestas viagenzinhas, dos abismos culturais que nos separam.....deles para conosco, que estamos abaixo da linha do equador. Não falo de pecado ou virtude; falo de gente, de comportamento, e sobretudo de semblantes e sobrancelhas.  

O primeiro empecilho foi o idioma. Curioso empecilho, mais desafio que qualquer outra coisa. Acordava, falava em espanhol, entendo perfeitamente, mas a certa hora do dia, ou da noite para ser precisa, ocorria-me algo interessante: o não pensar. As palavras passavam por mim desapercebidas, e já não podia mais entender o seu valor semântico e contextual. Cansava-me um pouco, sentia falta do meu idioma, das minhas brincadeiras infantis, dos meus ditados populares sempre desorganizados, iniciados pelo fim. Nestes momentos é que me dedicava a observar: as pessoas, os semblantes, as sobrancelhas, o mundo, as luzes, a noite, a fumaça do cigarro. Intuí uma porção de coisas que, destorcidas ou não, valeram-me de fuga espacial, como se no fundo estivesse eu sempre em diálogo constante contigo, Sofia, com a minha própria alma.

Do lado de lá, as pessoas são mais jovens: os pais e as mães sabem como educar os filhos de modo que estes aprendam desde pequenicos a ter independência, a fazer escolhas, a ser mais que um sobrenome conjugal. Encantou-me sobretudo as mães, tão jovens e tão mulheres, tão bonitas e femininas, como se a maternidade lhes fizessem um bem maior. Pode ser má impressão, mas aqui, nas nossas ruas, vejo mães possessivas e transtornadas, que confundem o amor maternal com obrigação ou hierarquia. Lá não: as mães são mulheres,como eu e como você.  

Não houve tempo para análises mais profundas, mas pareceu-me que aquela gente sabe viver bem, sabe desfrutar a vida, têm intuitivamente a noção de que esta (a vida) é curta e deve ser alegre: jantares, brindes, longas conversas nas "terraças", vinho, riso, cumplicidade. Algo que está além da condição financeira individual. Aqui, por exemplo, conheço pessoas que passam a vida toda trabalhando para a chegada da aposentadoria, suportando empregos insuportáveis, vidas-mortas, sem aperitivos, sem olivais. Eu pude ver lá, com meus próprios olhos, que a alegria é um estado de espírito. Em Portugal, ao menos, há o fado que em muito se parece ao nosso choro. Ali me senti mais confortável, porque de fato a saudade não é uma solução linguística "te echo de menos, mi amor" e sim um estado vital. Nunca conheci, por mais bruto que fosse,um brasileiro que vivesse sem saudade, sem fotografias dos seus mortos, sem histórias de infância. Pois bem: em Espanha, ao menos, optam pelo presente imediato, opção invejável - e que me faz compreender coisas muito pessoais, refiro-me, você sabe, a pessoas com quem convivo. Se apenas há o presente e a ideia da morte, escolhamos então o presente, cujo valor semântico é o mesmo que dádiva: Os Reyes deixam os presentes aos pequenos, e assim aprendem, as crianças, a desfrutar a vida, como nenhuma outra criança, porque aqui, ainda, vivemos sob o julgo cristão do Natal e do Papai Noel.

As amizades são mais intensas. Em muitos momentos vivi uma solidão desumana, a de desejar estar junto dos meus amigos de infância; a de pedir perdão a algumas pessoas ou, simplesmente, esquecê-las de vez. Desde que cheguei, todos os dias escrevo a dois ou três amigos chamando-os de "hermanos". Uma vontade desmedida de abraçá-los com carinho sem ser julgada, de dizer-lhes o quanto os amo, os quiero, e que gostaria muito de me fazer presente em suas vidas até o último sopro. Claro que nada é tão simples. Houve o estranhamento, o mal estar, o não saber lidar com uma ou outra relação, um ou outro semblante, uma ou outra sobrancelha. Somos tão ridículos, Sofia, tão pequenos.....bonito seria se todos pudéssemos fazer pequenos sacrifícios por aqueles que amamos, ou julgamos amor, mas isso não é fácil. Ás vezes é melhor desistir, é mais saudável, porque sabes.....entender o outro exige de igual tamanho virtude e pecado, e não conheço ninguém que tenha atingido essa perfeição. Foi difícil, muitas vezes.....mas então lembrava-me de qualquer coisa.....boba....como, por exemplo, saber que não morrerei em nenhum desastre de avião e, sendo assim, tenho tempo para amadurecer ou escolher estar ou ir. Somos jovens, Sofia, cheios de vida e de oportunidades.

Das coisas triviais, encantou-me La Alhambra. Profundamente. Como pode haver existido uma civilização tão rica, tão colorida, tão alegre. Mal sabem os espanhóis, mas creio que a carcaça e coração de "vividores" vem daí, e não de nenhuma ramificação da Opus Dei, ou de Franco, ou de Felipe I-II-III-IV. Há uma alegria árabe naquela gente, alegria suicida até, dessas de "bebamos hoje, amemos hoje, porque o amanhã é um deserto". Em Lisboa, o Fado....porque não poderia ser diferente. O charme de Lisboa, a paixão, o lugar mais romântico em que estive nesses 29 anos. Acrescido de uma deliciosa culinária, que, perdoem-me: incomparável aos huevos rotos, cocidos y tortillas com pão....(sim, com pão).

Conheci algumas pessoas encantadoras....(olha eu, novamente,falando das pessoas). Umas delas, cujo nome não nombrarei, mas que é uma mistura das minhas três avós e da minha mãe, em partes. Impossível não amá-la....impossível não devanear...."Será que um dia nos veremos de novo?". Porque tocou o meu coração, tratando-me como se fosse eu uma criança, o que foi ótimo, afinal, detesto bancar a femme fatale em idioma estrangeiro. Conheci outra mulher encantadora, por quem me apaixonei. Interessante que já a conhecia por nome, por histórias, por ditos e des-ditos; mas nunca imaginei que fosse tão graciosa (em português), tão amável, e dotada de uma generosidade tamanha....ainda que fosse falsa, a generosidade, não me importava. Uma voz aveludada que se dava ganas de ouvi-la sem parar, a contar sobre histórias cujos personagens nunca conhecerei. Outra saudade. E claro, outra mulher, muito divertida, igualmente doce, porém mais familiar.....para não dizer totalmente familiar. Pois bem: as três não serão esquecidas.

Conversei com duas ciganas. Ah Sofia! como resistir a esse povo tão sofrido, tão marginalizado e, ainda assim, tão interessante. A primeira, em Portugal, disse-me ....

"você é nervosa, mas tem  bom coração;
você é muito ciumenta, mas sabe disfarçar;
você será mãe de gêmeos.....
Você receberá uma boa quantia em dinheiro este ano...
- SÉRIO????
- SIM, Não Vê? acha que estou mentindo? - disse a cigana enfadada , era portuguesa.
Quanto a esse rapaz, ele sente vontade de dizer coisas mas não consegue dize-las, não o culpe....
Se me der mais cinco euros lhes tiro uma maldição feita por uma ex dele...."

Bem, de maldição em maldição aqui estamos todos sãos e vivos. Ou seja, não paguei para ver.

A segunda, madrillena e portanto sintética:

"Você terá dois filhos, com certeza. Pode ser que tenha um terceiro, mas não é claro.
Há um homem moreno apaixonado por você, não este aqui".

Deu-me uma folhinha de sei-lá-quê, a que só pude queimá-la antes de ontem. As coisas estavam tão ruins que pensei "talvez eu devesse...queimar aquela folhinha".

Agora o grande milagre, Sofia:

A neve? não. Emocionei-me ao vê-la, a paisagem nevada, a consistência da neve, o branco tão puro. Porém, perguntaram-me tanto sobre tal encontro que, já cansada, não tinha o que responder. Neve é neve, como terra é terra e já está!

O milagre se deu na Biblioteca Nacional de Madrid.

Levei comigo meu diploma de mestrado ("para alguma coisa ele tem de servir já...."). E tentei fazer um carnê de investigadora a fim de ver, com meus próprios olhos, uma das primeiras impressões de Auto da Barca do Inferno, datada de 1520. No primeiro dia não consegui, pois me faltava um comprovante de residência. 

Como consegui-lo?

O golpe de sorte foi que meu companheiro trouxe duas contas de luz - as que estão em meu nome - para serem pagas no Rio de Janeiro antes do voo para Madri. Assim, abdicando de qualquer outro monumento, museu, huevo rotos e terrazitas, voltei sozinha à Biblioteca Nacional, com todos os documentos e fiz o "maldito" carnê (cuja foto ficou extremamente feia, a ponto da guarda da sala Cervantes perguntar-me se de fato era eu).

Após tensos minutos de conversação....(estava naqueles dias de esgotamento linguístico)......eis que me trouxeram, na mesa 20, onde eu estava, o documento. Tão bem conservado que voltei à bibliotecária para lhe perguntar se se tratava de um facsímil.  

"Não, é original, de 1520".

Sendo o auto de moralidade original de 1517, o que são três anos? Sentei-me novamente à mesa e observei o documento como se me despedisse de um amante. Olhei, acarinhei, talvez dissesse um "eu te amo" se estivesse em terras lusófonas. Soube ali que nunca mais irei vê-lo. E foi então que me dei conta de que todo o meu sacrifício - da leitura escolar (uma versão, obvio), passando pela monografia, chegando ao mestrado e todos os percalços...... - valeu a pena. Eu finalmente encontrei o meu amado, que ali estava a dizer "obrigada por não haver me trocado por um contemporâneo tosco".

Despedi-me assim do meu grande amor. 
E fui comer uma tortilla, enquanto via a neve pela primeira vez.

Senti, e com seriedade, a vontade de fazer um doutorado; a necessidade de outro amante, de outra paixão. Porque esse senhor foi o primeiro [amor], mas haverá outros por aí, à espera de quem os encontre, casualmente, como deve ser. E claro, preciso de um orientador(a).

Cheguei ao Brasil há uma semana e ainda me sinto cansada. Já fui agraciada com uma série de problemas familiares, afetivos, de todos os tipos. Desempregada, ansiosa, fumando como uma chaminé......novamente, ansiosa, para que tudo se resolva........porque espero, pelo amor de Deus, que até os 35 anos eu tenha condições de......sei lá..........não ter mais fobia de avião.

E assim termina a minha aventura, Sofia.
Minha escrita é totalmente retórica, porque estiveste comigo nestes dezoito dias.
Espero, igualmente ansiosa, que façamos as pazes e voltemos a nos escrever.
Para tal, escolhi o primeiro livro do ano: Desassossego - de Pessoa.

Que nos ajude tal homem.

Semana que vem: currículos, leituras, yoga, aulas insuportáveis  e o que vier.....
Por hoje; só.

Um beijo,
Amanda.







9 comentários:

  1. Peguei uma carona nessa viagem, sem fronteiras linguísticas.
    Tenha um feliz retorno, ao blog e aos afazeres.
    Abraços,
    Joana.

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  2. Obrigada Joana pelo comentário!
    Uma honra ter a sua visita por aqui...
    beijos!

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  3. Eis que a contradição me encanta. Não gosto de ler, entretanto, sou viciada em seus textos desde o inicio do blog.
    Um pouco de multidão e solidão.
    Porque é hora de dar adeus a um velho amor =]
    Espero que a Sofia responda com mais e mais textos.
    Beijos

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  4. Ahhh que linda........o que seria deste Blog se não houvessem amigas como você para não deixá-lo sucumbir????
    (contradição). Obrigada amiga!

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  5. Ahhhh que texto maravilhoso!!! Encantada pela escrita e, mais ainda, pelo sonho realizado (já te disse isso)! Respire fundo que aos poucos tudo se acerta. Mais yoga e menos cigarro (não gostei da parte parte do cigarro não, mocinha hahahha). Espero que você consiga superar todas as dificuldades e que seu 2015 seja maravilhoso. Beijos!

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    1. Prima.....que lindo comentário vindo de uma mulher tão linda, forte e talentosa como vc!
      Obrigada pelo carinho....este ano, se Deus quiser iremos nos ver mais vezes!!!!!!!!!!! beijo enorrrrrrrrrme

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    2. EBA!!! Portas sempre abertas pra vcs :D Ai menina... não sei onde vc acha que sou forte hahahah mas, se vc esta dizendo, vou tentar acredita hahahah Ahhhh, março é níver da Estela, esta convidada, viu? Bj

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  6. Adoro cartas e, numa postagem do meu blog, "Cartas", me referia a uma que vc me escreveu, no papel mesmo, a amigável :) Belo texto, como sempre. Conselho: put out the cigarette forever! love u :)

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