quinta-feira, 30 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O sopro

*Alma do sopro. Foto de Neblina.
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Todas as pessoas são extraordinárias. Um amigo sempre dizia, a cada namorada, a seguinte frase: "Mulher extraordinária como você, nunca mais encontrarei". Certamente que não; a graça talvez resida aí, ou o sentido da vida: felicidade nem sempre consiste no "extra". Sempre gostei de coisas ordinárias, como beber água, por exemplo. Bebo pouca água, mas ao fazê-lo em momento de extrema sede, sinto-me em comunhão com Deus em sua face "ordinária", corriqueira - e nem por isso menos bela. Então nos vem essa segunda-feira comum, cheia de luz e calor, céu azul e poucas nuvens. Um dia ordinário para um céu de Minas, e nem por isso menos especial.
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No meio da aula, um aluno e um bilhete. O aluno, vermelho; o bilhete, de amor. O sofrimento do amor não correspondido, ou feito pela metade. Daí a metáfora do copo - cheio ou vazio - e então as pessoas se distinguem a partir disso, da maneira como enxergam o copo. Como o enxergo? Cheio a ponto de transbordar e inundar o mundo, pois vivo - à despeito da lógica - o "extra" em quase tudo que vejo, mesmo tendendo ao vazio.
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Das coisas que me irritam: saudade, sono, fome, segunda-feira, aluno debochado. O ordinário que se faz "extra", quando em combinação. Salvo-me da mediocridade quando insisto. Insisto sempre, com ou sem sopro.
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Amanhã recomeçamos, com ou sem sopro.
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Um dia desisto.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

DEUS-árvore

FONTE: http://www.boston.com/bigpicture/2012/08/winners_national_geographic_tr.html.

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Será Deus um Baobá?
Vontade de ver um de perto....
Amazing.

Don McLean - American Pie better quality

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

*Janela encantada. Caetana Paula
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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - disse nosso patrício Camões, para jamais ser esquecido. Ainda no campo da Litertatura, é das mãos do habilidoso Saramago que nasce Blimunda, mulher que reconhece as vontade das pessoas. Saca-lhes a vontade para que sirvam de combustível de uma passarola voadora. Penso que vontade é instrumento que nos leva ao voo: o que nos mantem os pés no chão é a vontade de voo, vontade de sonho. Só assim.
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Sou um pouco Blimunda também, percebo as vontades do outro. Já a minha vontade é névoa difícil de se enxergar, nasci em dia chuvoso, na cidade das nuvens. Hoje pensei nas minhas vontades e elas se multiplicaram, encheram a casa da alma de filhotinhos.
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Já houve o tempo em que vontade era sinônimo de cachoeira; o dia era longo e tão colorido a ponto de nos cegar a vista, passávamo-lo brincando, dia que não tinha fim. Minha vontade era a de vivier naquela casa, estar eternamente alí, eternamente condenada a uma tarde infinita de sol com meus primos e amigos. Um pouco mais velha, a vontade de shopping e cinema falou mais alto: optei, durante longo período, por dias mais curtos e cinzas, para logo em seguida - aos dezesseis - mudar outra vez de ideia. Queria ter estado aqui, se soubesse que duraria tão pouco - dos estrellas en el cielo. Hoje, opto por cinema, shopping e Lojas Americanas. Ninguém vive só de saudade.
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Já tive vontade de ser padre, missionária, beata; viver em alguma favela de São Paulo prestando serviço comunitário, ou em Moçambique, ao lado de amigos que lá estão. Vontade grande foi a de ser médica, ou psicologa hospitalar, somente para cruzar os corredores brancos (porque odeio psicólogos; gosto mesmo é de psiquiatra). Ainda tenho vontade de África, vontade de medicina, vontade de passar a vida em uma favela prestando serviço comunitário; há o que fica, em todo o caso, ainda que mude o formato.
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Jogadora de basquete, jornalista, bailarina, isto é, tudo me passou pela cabeça; durante cinco anos a certeza do jornalismo, para jogá-la por terra na primeira reprovação do vestibular. Passou. A vontade de dança sempre está: voltei a dançar essas semanas, matriculei-me nas aulas de Ballet. Acho que o fiz só para ter o prazer de faltá-las todas, visto que ao cair das 17:00 do dia, a única vontade que vem é a de dormir até as 21:15, Oi oi oi....
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Já pensei em casar na igreja - véu, grinalda e buquê - como manda o decoro. Houve o tempo em que deixaria "tudo" (embora nada tivesse...rs) por amor; em que estar ao lado da pessoa amada era metonimicamente o sentido da vida. Já desci aos infernos por amor, tantas e tantas vezes. Hoje, quero mesmo é ter um filho; nasci pra ser mãe, entre outras coisas. Adotar uma criança, ganhar meus R$7.000 por mês, como professora de Literatura de Língua Portuguesa em alguma univerisade do mundo (ou Português para estrangeiro) viver num lugar legal e fazer trabalho voluntário com meninos que caíram no crime. Adotar uma dessas crianças e ensiná-la a escrever e ler (sem dúvida as melhores coisas que minha mãe me ensinou). Ninguém vive só de flores-bombom-poema-chifre-DR-ex-distância-o c*r*lho.
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Vontade mesmo é essa que vem, arrebatadora, sem quando nem onde. Ontem senti vontade de aprender Francês; melhorar o Inglês e o Espanhol, conseguir proficiência nessas línguas, projeto para os próximos três anos.
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Antes dos 30, quero vontades novas. Outras bolhas de sabão.
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Vontade de que meus pais sejam felizes, dentro do que ainda lhes cabe, do que a vida não sugou. Vontade de que minha tia tenha a estabilidade que merece, estabilidade pela qual minha mãe luta sozinha. Vontade de que certas pessoas da minha família se f*.Vontade de que os caçulas sejam livres, que contem comigo pra tudo, que eu tenha, futuramente, grana e estabilidade pra que contem comigo pra tudo. Vontade de estar viva muito tempo para dizer a eles ...  "Olha, a mãe de vocês era maluquinha, mas a pessoa mais legal do mundo, juro por Deus". Vontade de milagre, às vezes ainda tenho.
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Sei que perde o tom, de quando em quando, mas o texto é confessional.
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Muda-se o ser, muda-se a confiança.
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Vontade de nada também dá, vontade de ficar quietinha, sem excessos. Mas a vida insiste em convocar, seja por meio do olhar ou da impaciência. Eu vivo de olhar e impaciência, não tem jeito.
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Por fim, vontade de chegar até o fim, só por curiosidade.
......
[...]
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
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Queria aprender a nadar, mas o medo comeu a vontade.
Medo é cachorro grande que come a vontade, passarinho pequeno de canto-chatinho.
Bau-bau.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

ANAGNORISIS

(ou "Você tem sede de quê?)




I

- Vamos brincar de escola? Você é a professora e daí me ensina!
- Mas eu não quero ensinar, hoje não...
- Mas você não gosta de dar aula?
- É chato, às vezes...
- Então por que não vira médica ou cientista?
-...

...


II

- Faz uma pergunta, fessora!
- [...]
- [CORO] Claro que não!!!!!!!!!!! A gente pode perguntar? Você já.....?
- speechless
- [ RISOS]
- Aposto que não perguntam essas coisas pro professor de Religião....
- Claro! só você conversa essas coisas com a gente - disse a menina do olho azul.

.....

III

- Libera meia hora antes, pra gente fazer a tarefa de Biologia... - disse bico-chororô.
-[ COLERA]


IV

- Professor de Português é o mais desrespeitado de todos, Deus me livre......


V

- Pensei: ou sou professor universitário ou faço outra coisa, não tenho paciência....
- Eu também não tenho paciência.....
- Os alunos são divertidos....
- Os alunos são divertidos....
- Mas eu não tenho paciência....
- Eu também não.


VI

PROFESSORES DA REDE MUNICIPAL INICIAM GREVE EM BH



VII

- Você vai  escrever um livro, cinco minutos, sobre um hospício em Barbacena  (disse a saudade).


VIII

- Estes são meus filhos: ela faz cinema em São Paulo e ele mora em Ouro Preto.


IX

- Olha o que eu achei, fessora, sobre o Sandro do ônibus 174;
- Ele não devia ter morrido, ele era bom
- Tinha que matar tudo mesmo, pá-pá-pá
- Ele não teve culpa.


 X

- A culpa é sua, você escolheu.


XI

- Você teria sido melhor médica que eu, mas você nunca tentou - disse a rainha.


XII

- Menina, você tem talento - disse gabriela.


XIII

- Tia, eu quero ser escritora e cienstista e casar com japonês - disse o ano de 1990


V

- Mas é o máximo! Eu e meus temas fora de moda, quer que te mande ? Bom, no século XV havia os cadáveres em decomposição, substituídos por esqueletos posteriormente, daí....
- Ah, os esqueletos de mãozinha dadas?
- Sim, não é fantástico? Acho lindas aquelas iconografias de esqueletos...
- Com aqueles artefatos? 
- Por que não estuda isso? ("Queria estudar isso algum dia....")
- Eu e meus temas originais.

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I
- ...Não sei.

sábado, 18 de agosto de 2012

Crônica de um ciumento

*até das meias tenho ciúmes. Foto de António Rodrigues.
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Eu devia escrever sobre algo mais útil, greve dos professores federais, cotas para escola pública, mensalão. Antes disso, porém, eu devia escrever, então decidi partir do princípio: algo Nível I, apenas para o bem das articulações há muito enferrujadas. Para quem acompanha esse Blog desde 2009, sabe que divido minha vida em fases. Pois bem, essa nomeio a fase da "pregucite crônica mor", ou desânimo profundo do existir. 
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Nem depressão nem mania, apenas um momento ruim e demasiado brando, a certeza de que minha vida caminha para um rumo o qual não escolhi conscientemente, e que perdi o controle de tantas coisas. Nem feliz nem triste, apenas respirar-acordar-trabalhar e continuar....á espera do fim dessa greve, à espera da defesa da minha dissertação imaginária, meu prazo real. Oca até a medula, consumindo novela das oito como se fosse água (bem, cabe o parentese aqui: a trama é boa sim....), cá estamos, vento e ventania.
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Amo, todavia, o que é sinal de vida. Nem por isso há de ser fácil o amor; hoje vejo o amor, pleno, como realização dos espíritos elevados, viscerais, ou qualquer outro adjetivo que expresse a minha admiração - eu amo mal. Não darei exemplos pessoais, mas falo do geral e específico, o ciúme. Sou muito ciumenta e às vezes estou; quando sou e estou, monto-me um "terminator", último apelido carinhoso que recebi.
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Sou um bom material para estudos. Do que tenho ciúme? Por partes:
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A velha frase "o que os olhos não veem, o coração não sente" é uma falácia em se tratando de ciumentos. O que os olhos não veem, a mente imagina cinco vezes pior. E eu imagino, porque - modestia à parte - a preguiça crônica desses dias mornos é incapaz de anular a minha imaginação. Vejo gigantes onde só restam moinhos. Tenho horror a qualquer tipo de mentirazinha, dessas bobas, e utilizo-as como mote para o fiar do ciúme diário, esse pequenino gérmen que enfim se transforma em monstro após muitas e muitas peripécias. Tenho dificuldade em perdoar; perdôo, mas não esqueço - o que dá no mesmo. Acredito que o amor, ainda que sublime, não é suficiente para acalentar uma alma curiosa. O que você faria se, estando o amor da sua vida há milhas daqui, recebesse um telefonema do Johnny Deep? Bom, eu não faria nada, porque apesar do meu excesso de curiosidade para as coisas proibidas, tenho uma preguiça de mentira que me mantem sempre os pés no chão. Antes me permitisse o devaneio infantil das noites de sexta e sábado, talvez mudasse o meu senso de justiça. "Ok: a carne é fraca e até Cristo se fez carne...".
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Tenho medo de perder. Já perdi 567 vezes e não aprendi que nada se perde: não somos donos de nada. Não só tenho medo de perder, mas sobretudo medo de perder aos poucos e não realizar. Daí os subitens, após essa explicação plausível: ciúme de ex namorada, ciúme de ex ficante, ciúme de saber que meu parceiro convive - fisicamente ou na memória - com um laço invisível (de alguma forma invisível: ou porque há distância física, ou porque não é da minha conta). Não tenho cíúmes, por exemplo, do que posso enxergar sozinha, com os olhos que Deus me deu: não sinto ciúmes de cantadas recebidas ou olhares indiscretos, desde que eu esteja lá. Nesse caso, é só falta do que fazer.
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Então, o que fazer? 
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Ao analisar a alma do ciumento, as relações tornar-se-iam mais fáceis se os parceiros dos mesmos soubessem algumas artimanhas. O que nos ocorre é que geralmente, embora não em todos os casos, os parceiros dos ciumentos são pessoas igualmente independentes (o ciumento é, na verdade, um independente: ele só confia em si mesmo e no seu amor próprio. Nem acho que seja o velho clichê "...ame a si primeiro e depois...., ; o ciumento é apaixonado por si) que tampouco entendem as razões alheias. O ciumento tampouco entende as necessidades alheias. É como dar terra a quem precisa de fogo, há uma incompatilidade aí que só o sentimento cristão do celibato seria capaz de acalentar.
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Nada.
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Ou mudamos a toada, ou perdemos a dignidade. O ciumento é capaz de diversas agressões no calor de uma dicussão...hipocrisia seria a defesa aqui do sujeito que teima, que arde, que provoca  guerra. O que acontece é que o ciumento tem uma capacidade de guerra muito ampla, de modo que consegue ser imensamente amoroso após o tempo de batalha, quando a maioria das pessoas já está "desgastada". O ciumento sempre se renova, porque a guerra é um sinal de luta. Mais importante que amar, é a luta que esse amor propõe. Quando não há luta, dá-se o desencanto.
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Só a monotonia é capaz de vencer o ciumento. Isto é: somos sempre o lado perdedor. Se não perdemos o "amor do outro", perdemos a nós mesmos e a nossa capacidade de civilidade, de ser grupo, isolando-nos na montanha das alucinações. Ser ciumento é estar sempre só. É uma defesa.
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Nunca conheci alguém que tenha se regenerado desse mal. Conheço pessoas que, com idade e perda, aprenderam a se controlar mediante a confiança que o outro oferece. Aprenderam a se calar e deixar o fluir da vida ditar as regras. Aos poucos, o ciumento canaliza sua "energia de guerra" em coisas realmente úteis. Em minhas análises, dei-me conta de que as grandes transformações da humanidade foram conduzidas por mentes ciumentas, ou seja, há a parte boa em todo caso, desde que bem dirigida.
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Conheci uma menina tão igualmente ciumenta, que hoje leva seus dias falando de Deus e das dádivas que o senhor a proporciona no facebook. Leio tudo o que escreve, porque gostaria de fazer o mesmo: "Senhor, obrigada pelo dia de hoje, em que tive a oportunidade de ir à padaria e comer uma "carolina" (doce paulistano cujo nome em "mineires" ainda desconheço); Senhor; obrigada pelo dia de hoje em que tive a sorte de encontrar aquele filme que há meses procurava...(e por aí vai).
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Ciumentos deviam ser proibidos de utilizar redes sociais. A mudança do status de "solteiro" para "namorando" é sempre motivo de choque, ainda mais quando o parceiro se recusa a fazê-lo por preservação de privacidade ou capricho. Paciência.
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Ciumento não tem paciência; tem resignação. É tudo sempre profundo para o ciumento, geralmente taurinos ou escorpianos. O lado bom é que a maioria dos psicopatas e esquartejadores passionais derivam de outros signos: o ciumento é incapaz de matar o outro, ele mata a si mesmo, como o suicida escorpião. Ele age por impulso, não premedita nada; não come quieto, como o mineiro: está mais para o baiano com espírito de micareta....(viva salvador..).
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Ciumentos que namoram ciumentos são menos infelizes. 
Ciumentos que namoram pessoas extremamente chamativas são mártires em vida.
Ciumentos cuja operadora é TIM ...estão a um passo do abismo.
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De qualquer forma, a mudança pode ocorrer com um pouco de "pó-de-força-de-vontade".
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Caso contrário, é hora de fechar o "facebook" e seguir a vida.....
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- Direita ou esquerda? (isto é, qual a minha esquerda? - ciumentos perdem, às vezes, o senso de direção).
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Bom dia!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A VAIDADE DO REI

*O dia em que a princesa virou o espelho do avesso. Foto de seilacomch.
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A VAIDADE DO REI

Não confie na vaidade, enganando-se a si mesmo; pois a vaidade será a sua recompensa.
Jó 15:31
(...da série "Sete pecados capitais").
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O rei nu desfilava pela cidade encimesmado quando descoberto pela criança. Não falo aqui do tolo Rei de Hans Christian Andersen, senão daquele que habita algumas de nossas janelas, sem exceções. Neste caso, tratava-se de uma mulher-rei, cuja vaidade levava-a a loucura de quando em quando.
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Sua vaidade devia-se ao dom que recebera pelos deuses quando ainda muito nova; o de interpretar o ser humano através da escrita. Linhas escritas por um estranho eram capazes de desvendar-lhes a alma ao serem lidos pela mulher que, não se dando conta de tal dom, usava-o sem muitas pretensões, apenas por casualidade ou vontade de conhecer o outro. Comparar-se com outras pessoas; ao saber o que a memória do outro resguardava, era como se ampliasse para si um pouco de sua história, vivendo também aquilo que não era seu, aquilo que sua fortuna a impedia de viver.
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Então a mulher, sempre que podia, roubava pedaços de linha a fim de decifrar a memória e o presente daqueles que escolhia: homens, mulheres, crianças, gestantes. Decifrava a todo pedaço de registro, toda significação textual, e às vezes verbal; de um bilhete de boas vindas a um coração desenhado, de forma mal feita, sobre o segredo de um ex casal.
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Foi quando então deparou-se com algo inusitado.
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Havia uma caixinha de coro que era de sua avó, a que falecera há dois anos. Ficara com a caixinha porque nela estavam guardadas as  infâncias da avó, mãe e neta. Sempre que chegava à antiga de casa de campo, revolvia a caixinha em busca de novidades, uma foto ou uma conta ainda não paga; um cartão enviado para o dia das mães, uma carta não colocada no correio, uma vela de batismo ou cordão umbilical por ser enterrado.
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Ao roubar a caixinha pra si, após a morte da avó, deu-se conta de que estava vazia. Uma pessoa da família já havia possuído todas as lembranças, restando apenas a caixa vazia, que ainda assim muito lhe valia. A caixa foi um presente dado a sua mãe; esta que, ao romper com tal galanteador, entregou-a aos cuidados da avó que a fez sua. A vaidade roubou a caixa vazia.
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Certa vez, encontrou uma inscrição feita no fundo da caixa. Mal podia ser lida: aparentemente, o ano de 1948. Por mais que se esforçasse, por mais que destinasse aquele símbolo toda a sua energia de percepção, não conseguia desvendar a significação registrada, porque não havia ali mais viventes daquela história secreta: a mãe, que nascera no ano de 1953, primeira filha dentre oito irmãos, era o único registro vivo da avó. Mas nascida cinco anos depois da data monumentalizada na pele de couro, tornava-se tão inútil quanto a verdade encoberta.
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Qual a verdade encoberta? O que acontecera de tão importante na vida da avó, para que fosse registrado num pedaço de pele? Estaria esse fato interligado a tantas outras vidas, seria a força motriz da cadeia de nascimentos e mortes daquela família?
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Nunca saberia. A sensação do silêncio mortificava-lhe a alma. A certeza de que tamanho dom, por vezes mal aproveitado, não serviria de nada. Nunca mais. A certeza do nunca a aterrorizava por meio de sonhos grotescos e a chegada da solidão: estava só.
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Vencida, recolheu a todas as lembranças que antes a caixa cercava. Visitou a todos os tios, primos, afilhados e aparentados, roubando-lhes a memória de cada registro, foto, linha escrita em papel de pão; aprisionou-as naquele invólucro, colocando fim na única memória que não poderia lhe pertencer ou controlar.
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- É grande assim a tua vaidade? - perguntou-nos a criança.
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Durante dois anos, estórias foram aprisionadas na caixa de couro, junto de fotos, versos, simpatias, modinhas, orações, relicários, velas, contas, listas, cordões umbilicais, remédios, convites de casamento, convites de batismo, convites de aniversário, "santinhos" de óbito, aliança de casamento, foto de um homem cujos olhos muito claros não o faziam da família. Tudo foi jogado fora, em água corrente, próximo à casa de campo hoje registrada em meu nome.
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Ainda sonho com o ano de 1948.
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domingo, 5 de agosto de 2012