domingo, 4 de março de 2012

A minha espada é a pena.


*Arquivo pessoal. Dez de novembro de 2000. 17:15
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A Estela, pela cumplicidade
E a Cláudia, por me ensinar a adolescência...
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Certo dia, uma de minhas professoras de Ballet, a que mais amava até então (porque tenho atração por pessoas detestáveis), disse-me no meio de uma aula, repleta de outras garotas (aliás, interrompeu o velho gravador , visto que não tínhamos um piano, para fazê-lo):
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- Amanda. Você tem que entender que é apenas uma menina da periferia do Jardim Apurá e que enquanto está aí, apaixonada por esses meninos, eles estão nos Estados Unidos fazendo dinheiro e você, pobre mortal, nunca os verá na sua vida. Conforme-se."
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Tinha doze anos, talvez treze. Naquela época, era alucinada por uma banda de pop/rock chamada Hanson, sim leitor das antigas, aqueles loirinhos de Oklahoma. Minha paixão não era lá das mais sadias. Lembro-me que comprava tudo o que se vendia sobre eles, de revistas a dvd´s e, houve inclusive um episódio fantástico onde manipulei uma classe de 40 alunos, 40 bons amigos para que escrevessem para mim a seguinte frase "Eu quero conhecer o Hanson", ou algo assim, a fim de que montássemos uma carta quilométrica para uma promoção de uma rádio paulistana. A carta com a maior quilometragem - que não foi a minha - levaria suas vitoriosas escritoras a um encontro com os caras num hotel em Ipanema. Não foi daquela vez, e, como sempre, desfiz-me em lágrimas de dar dó à vizinhança e aos donos do Colégio onde estudei por onze anos.
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Havia também naquela época um programa pieguíssimo do Silvio Santos "Em nome do Amor", em que vez ou outra, a produção do SBT financiava encontros entre fãs e ídolos. Durante quatro ou cinco anos, cultivei o hábito de escrever para o tal programa vinte cartas por mês, explicando a minha necessidade vital de estar perto daqueles meninos, ainda que um abismo linguístico nos separasse.
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Interessei-me por inglês.
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Deixei o cabelo crescer, como o da suposta namorada de um deles.
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Fiz duas melhores amigas naquele período, amigas de uma vida.
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Pois bem. O tempo passava e nada de vencer as promoções. Participava de todas, porém a sorte não tocara, ainda, a minha porta. Até que um dia, simbolicamente, encontro na classe de Ballet um trevo de quatro folhas. Coincidência ou não, as coisas mudaram a partir daquele dia.
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Quando a tal professora me dissera aquilo - a que inclusive cursava psicologia na época (mas devia estar no primeiro período do curso, para dizer a uma menina de doze anos tamanha insensatez), calei-me. Eu, que sempre contara todas as coisas da minha vida a meus pais, amigos, transeuntes, calei-me por vergonha. De quê? Não sei. Éramos de classe média. De certo não tinha dinheiro com o qual pudesse me mudar para Oklahoma e acampar frente à casa do meu futuro marido e cunhados, mas não era só isso: quiçá ódio. Poucas vezes em vida senti tamanho ódio; e, por consequência, minha necessidade de palavra se exilou, limitando-se ao olhar seco, sem lágrima, insônia ou réplica.
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Para resumir, no ano de 2000, minhas duas amigas inseparáveis e outra amiga descobrimos a vinda da tríade gringa para o Brasil e logo não medimos esforços: gravamos um vídeo implorando para conhecê-los pessoalmente e fomos a TODAS as mídias televisivas, e também radiofônicas, a fim de distribuir o tal vídeo. Acampávamos na MTV. Fizemos amigos famosos, Sabrina Paraltore, Bruce Dickson do Iron Maden (meus amigos homens mal acreditaram nisso....). E dessa forma, com nosso charme, choro e ranger de dentes, fomos à luta. Era o meu sonho, o sonho de uma menina bailarina de 14 anos.
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Um belo dia, minha amiga Cláudia, hoje mamãe, telefonou-me dizendo que nosso vídeo fora selecionado pelo programa Zapping, da TV Record, apresentado na época pela bonitona da Virgínia Novick. Creio que tenha sido um dos dias mais felizes da minha vida, antes mesmo do encontro, apenas pela espera, pela certeza do que estaria por vir...pelo desejo que nascia ali.
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Fomos nós: Estela (minha amiga japa-linda), Cláudia (a mamãe coruja), Raquel (por onde andas?) e eu, Amanda (a mestranda sempre em crise). Levaram-nos ao Programa Livre, no SBT, e depois nos bastidores, fizemos com os rapazes uma curtíssima entrevista, na qual pude exibir o meu limitado inglês (mas que naquela época até tinha certo brio). Fui elogiada, inclusive, mas isso é papo para outro post.
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Questão de minutos, o produtor dos caras, escrotíssimo, entra no "camarim" e ordena que saíssemos, pois estavam atrasados, etc, uma grande confusão. Não houve tempo sequer para fotos, o que me causou meses de frustração. Porém, como escorpiana que sou.....pedi aos meninos, aos meus meninos, que autográfassem uma sapatilha de Ballet recém usada. Queria um autógrafo na sapatilha.
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Semanas depois, quando a notícia se espalhou e - se houvesse naquela época um Big Brother, certamente eu estaria dentro, ainda que com 14 anos - levei minha sapatilha autografada para a aula de Ballet, deixando-a recostada sobre a barra de exercícios. Eis que chega, então, a professora da fala de abertura dessa crônica. Não lhe disse uma palavra. Ela apenas olhou e sorriu, compreendendo o que se passou, alimentada pelo comentário eufórico de minhas amigas.
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Apenas a observei, já aos quatorze anos....no fundo daqueles olhos tão azuis, como se dissesse...."nunca mais me subestime".
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Tempos depois, no meu aniversário de quinze anos, imaginem? Filha única, mamãe sonhando uma super festa de debutantes, papai mão de vaca (ele que não me leia) alegando "não tenho dinheiro, não tenho dinheiro". Que importava? Queria meu pai me presentear com uma viagem....Mas, a única coisa que desejava era estar com eles - com o Hanson. Participei de todas as promoções, dormi na rua, quase fiquei nua num programa de TV....toda a odisséia se repetiu, como num movimento circular, embora ainda não soubesse que voltariam ao Brasil no mês de novembro.
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A minha espada é a pena.
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Havia uma promoção de uma revista - Atrevida Hot - cuja proposta era a de que escrevêssemos uma estória em quadrinhos com o tema "Meu encontro com o Hanson". Nunca fui boa para desenhos, nunca gostei, na realidade....Então, tive o insight da minha vida: uma fotonovela. Convenci a três amigos negros que se vestissem como Hanson, usando perucas feitas por mim e uma amiga com papel crepom amarelo. Criei a história. Era meu aniverário de quinze anos e não me recordo muito bem, mas a ideia era a de que eles voltavam do Rio de Janeiro (...e por isso a corzinha bronzeada) para a minha festa de aniversário. No meio da fotonovela, havia certidão de nascimento e tudo!
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Mobilizei todo o Colégio para fazê-lo: de amigos até o "tio da perua", que se parecia muito com um artista brasileiro deixando meu texto ainda mais verossímil.
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Enquanto dormia na rua, na fila do Credicard Hall (revesava com minha amiga "mãe" e a "japa" para obtermos os melhores lugares no show), ligo para casa, de um orelhão, e minha mãe, sem se dar conta do que me esperava, disse: - Amanda...ligou uma mulher aqui de nao sei quê Hot....parece que você ganhou alguma coisa.
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Estremeci.
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Não pude comemorar porque havia a minha espera uma centena de outras meninas a fim de usar o orelhão, as que me linxariam (como depois tentaram), caso soubessem que mais uma vez, fui a ganhadora da promoção. Naquele dia, dormi na rua, até que um dos seguranças com pena levou-nos para um espaço do Credicard Hall onde não chovia, porém estava repleto de borrachudos (sim! sou muito alérgica a qualquer um desses bichos chatísssimos). Uma garota disse ao longe, enquanto eu sonhava acordada:
- Quero ver quem será a sortuda que ganhou a promoção da Atrevida Hot.
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Contei somente a uma amiga, Cláudia; mas, para a minha surpresa, no dia seguinte TODA FILA À ESPERA DO SHOW já sabia sobre minha premiação. Decidimos no "palitinho" quem me acompanharia.....(o que foi extremamente difícil, porque amava as duas amigas com a mesma intensidade), venceu a Clau, mas anos depois nossa querida japa se vingou ao tornar-se correspondente internacional e encontrando os caras cinco milhões de vezes sem nós! (bitch!kkkk).
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O encontro estava marcado para o dia 9 de novembro. Mas, não era o suficiente, visto que meu aniversário é no dia 10. Acaso ou não, lei da atração ou não, ligaram-me da produção da revista avisando-me de um imprevisto..."Ai Amanda! Não fica triste!!! Mas nosso encontro será adiado para amanhã, às 17, ok?"
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Bom, queridos leitores imaturos.....Eu nasci no dia 10 de novembro, exatamente às 17:15. Não preciso dizer o quanto foi maravilhoso! Era aniversário de un dos integrantes além do meu....Deram-me os parabéns, conversaram conosco, e sim! fotos, muitas fotos. Depois, o show pago pela promoção...e no dia seguinte, outro show, agora presente de 15 anos.
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Tudo isso apenas para dizer que....Sou uma pessoa com uma baixa auto estima, confesso. Mas as poucas vezes em que me concentrei em algo...."o fiz". Nunca perdoei aquela educadora por tamanha "humilhação". Na verdade, não me senti humilhada - geralmente não tenho esse tipo de sentimento - mas hoje, sei que se houvesse contado a meus pais a coisa teria sido diferente. E se houvesse tal fato ocorrido com uma filha, minha filha imaginária, processaria aquela mulher, sem mais. Sei que provavelmente nunca lerá esse texto, a professora de Ballet - de lindos olhos azuis - mas adoraria se o fizesse.
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Não perdoei a educadora, mas perdoei a mãe, a amiga, a bailarina. Porque todos erramos quando queremos acertar. Ás vezes.
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Sou uma pessoa naturalmente vingativa, mas minha vingança é a pena, é a escrita. Nos últimos anos passei por situações parecidas, de desconforto e subestimação, e a única coisa que fiz foi escrever.....pequei pelo excesso, reconheço....mas é a única coisa - respondendo a meu amigo Paulo - que me relaxa, sem pretensões literárias ou carnavalescas.
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Escrevo desnudada, como uma criança de seis anos.
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Foi uma aventura feliz. Dos 11 aos 16. Após isso, o mundo real me tocou, as pessoas reais, os relacionamentos reais, as perdas reais. Mas sempre tive - e manterei - um pé no lado de lá....no lado da fantasia.
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E sim.....sou sonsa, tonta, e um tanto inconsequente....
até que me subestimem.

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Buenas Noches!

3 comentários:

  1. É ótimo fazer parte de uma pedacinho de sua linda história!! Pode ter certeza que você foi uma das melhores coisas que me aconteceu nesse período. Amo vc minha irmãzinha.

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  2. Amei!!!!!!!! Você escreve muuuuuuuuuuuito bem!!!! Não concordo com a falta de auto-estima.....sabe que são poucas as vezes que expresso o quanto você é importante p mim. Então aproveite este momento (rs). Você é realmente uma pessoa linda em todos os sentidos e perfeita, nunca deixe que ninguém tire esta luz e força, e principalmente não acredite no que os outros dizem ou pensam de você. O importante é você saber quem você é e se não souber, não se cobre... a vida é uma escola, estamos aqui para aprender, para ensinar... para viver! Cada cutucada é uma forma singela de dizer que penso em ti com muito amor, mesmo na correria ou no dia cheio de rotina. Sabe que te amo e que quero você sempre ao meu lado!! Vou parar por aqui, não é mais um comentário é uma carta. Estela

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  3. Ah Estela Takada....queria eu ter a sua doçura, viu? amo vc profundamente, sua japa-chatinha! Minha vida sem vc nao teria tido a mesma cor....(aproveite a declaração...uh!)

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