domingo, 29 de abril de 2012

Louis Armstrong - (What Did I Do To Be So) Black And Blue

Uma mulher café com leite

*Café com leite. Foto de Gian Gallani.
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Era uma vez uma mulher café com leite. Ela tinha uma família, alguns amigos, um namorado, um bom mestrado, um cachorro amável, um gato emprestrado, três trabalhos, alguns sonhos e morava na cidade de Sabugosa. Apesar disso, ela era apenas café com leite; todos a subestimavam, do cachorro ao namorado, da mãe ao melhor amigo.
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Um dia, a mulher café com leite se cansou. Decidiu ser só café, daqueles bem amargos. FIM.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Mania de nós todos


*Loucura renovada. Foto de Paulo César.
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Era uma vez um senhor de meia idade. Todos os dias, este senhor, um tanto calvo porém elegante, ia ao correio e levava em mãos um pacote misterioso. Neste envelope, havia treze cartas, treze cartas para os treze filhos que dele já não se lembravam mais. Solitário em uma casinha do interior, era tido pelos vizinhos e amigos como um homem reto e de boa conduta. Ninguém sabia, contudo, o mistério das cartas e da ida diária, quase religiosa, ao correio da cidadezinha mais próxima. Alguns, especulavam a existência de treze filhos espalhados pelo mundo, filhos com os quais o senhor - que se sentia à beira da morte - já perdera o contato em função desses "causos" familiares, muito incidentes nas minas gerais. Magro, olhos azuis, sem chapéu; mas com mania de carta, e quando o sofrimento lhe apertava o coração, escrevia-as com mais afinco, como se todas as linhas, escritas tortuosamente, fossem capazes de um milagre qualquer. Ninguém nunca soube o que se passara com aquelas cartas, já que o senhor - a cada dia mais debilitado - não recebia resposta alguma.Era um senhor com mania de cartas.
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Era uma vez uma mulher elgantíssima. Diariamente, a tal mulher ia às compras, levando o cartão de crédito do marido. Ao voltar para casa, com milhares e milhares de roupas de marca, trancafiava-se em sua suíte, longe do amante e dos filhos, e se dopava com uma expressiva dose de remédios tranquilizantes. Já fora bonita a mulher - ruiva e de olhos tão verdes desses em que se mira o universo; contudo, amargurada pelo mistério da infelicidade, encontrava em suas capsulas, bolsas e sapatos uma estranha força para continuar a vida. Jovem que era, precisava continuar. Era uma mulher com mania de capsulas, bolas e sapatos.
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Era uma vez uma criança. Uma criança que limpava seu ranho na parede do quarto do avô - sempre do avô- e isso não é tão importante, pois todas as paredes de uma casa são iguais. Feliz, jogava bola de gude com seu irmãozinho menor, até ganhar de presente de Natal o playstation que sempre sonhara. Ainda assim, continuava a limpar o ranho na parede do avô, já que ambos tinham o mesmo nome. Era uma criança linda, mas com mania de limpeza nasal nas paredes de um avô.
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Era uma vez uma jovem mulher. Inteligentíssima, madura e dona de si; pecava pelo fato de ser ninfomaníaca. "Pecava?" - não havia pecado naquilo, visto que a mulher era tão inocente quanto uma rosa; porém, apesar disso, não tinha controle sobre seu corpo e vontade, limitando-se ao fugaz, passageiro devaneio de todos os homens que a cobiçavam. Infeliz, não era o dinheiro, não era o conforto que lhe traria paz em sua vida, senão um afago sincero - que talvez nunca o tivera em vida, nem mesmo do próprio pai. Era uma vez uma mulher, forte, mas que se violentava de quando em quando, para se sentir viva. Uma mulher com mania de si mesma.
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Era uma vez uma mãe. Uma mãe que nunca ousara queimar um soutien: vivia para o lar. Gostava mesmo era de imaginar que um dia, num futuro longuinquo, viajaria de avião para o lugar mais distante a fim de conhecer o céu. Quando rezava - católica que era - mirava o céu com olhar pueril de quem pede graça sem verbalizar, de quem acredita sem lutar. Depois de rezar o terço, preparava o jantar, esperava o marido, acarinhava o filho mais velho e sonhava no dia em que, quando melhorassem as finaças, viajaria de avião até a terra dos seus tios. Era uma vez uma bordadeira de sonhos, com mania de avião e céu.
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Era uma vez uma mulher perfeita. Desde muito jovem, tinha o trabalho dos sonhos e muito dinheiro - conquistado por esforço e sorte (não há esforço sem sorte, não há sorte sem esforço). Sentia-se, ao mesmo tempo, muito sozinha no mundo, até o dia em que conheceu o amor de sua vida, tão similar e ao mesmo tempo tão distante. A moça perfeita, de longas madeixas loiras queria, do fundo da alma, conhecer um continente distante. Não o fizera por falta de dinheiro, mas por falta de encantamento: não poderia ir só, queria compartilhar o amor que brotava dentro dela quase que como mato com alguém que lhe compartilhasse dos mesmos devaneios, língua e destino. Era uma vez, uma mulher perfeccionista, com mania de excesso de doçura.
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Era uma vez um rapaz. Um dia, esse rapaz encontrou uma mulher que carregava em seu ventre uma semente que não dele, mas quase como se fosse. Acolheu a árvore, o fruto, a doçura do encontro, e dentre todos os citados acima, foi o único que encontrou a felicidade (ele e a criança, que eram a mesma pessoa). Era uma vez, um rapaz que tinha por mania a própria felicidade.
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Era uma vez um pai. Mineiro, de uma cidade do tamanho de um feijãozinho, que saiu em busca do mar.  Saiu em busca do Rio de Janeiro. Por forças das circunstâncias, levado à paulicéia desvairada, casou e teve uma filha. Trabalhou trinta e três anos na mesma firma - metalúrgica. Tornou-se amigo de um ex presidente latino americano: compartilharam uma dose de pinga, e assim celaram um mito de amizade.  Ao aposentar-se, sentiu o vazio daqueles que se aproximam da morte, e foi quando se deu conta de que seu coração não mais lhe pertencia, havendo-o deixado há milhares e milhares de estradas dalí. Era uma vez, um homem que tinha mania de sonhar caladinho: Sonhava, todas as noites, estar nu diante do Cristo Redentor.
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Era uma vez uma bailarininha. Não sabia nem dó e nem ré, mas dançava como ninguém. Quando a bailarina cresceu, e aventurou-se em conhecer o micro mundo de onde pertencia por sangue e alma, trincou o tornozelo e nunca mais pode dançar. Ao mesmo tempo, dançava em todas as circunstâncias possíveis - quando amava e, principalmente, quando odiava. Dançava em seu modo prolixo de falar, em sua falta de habilidade para as coisas cotidianas como aceitar as pessoas como ela são. O que mais queria, no fundo, embora sabendo da impossibilidade das coisas, era ter um cavalo e, desse modo, esquecer por completo o passado que não mais voltaria. Passava horas e horas observando uma imagem - a de São Jorge - imaginando que coragem é coisa que vem de dentro. Era uma vez, uma bailarina com mania de cavalo, São Jorge e covardia.
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Por fim, conheci um rapaz que tinha mania de colecionar árvores. Todas as árvores do universo eram dele, e por assim ser, todo olhar que dirigia para o mundo pertencia àquele verde inofensivo que também o amava. Amaram-se tanto, árvore e menino, que quando este faleceu, todos os eucalíptos, tílias e girassóis, pés de manga, pés de goiaba, pés de moleques - todos sem exceção - choraram por vinte e seis anos. Era uma vez, um menino que poderia chamar-se Francisco, cuja mania era a de se pretender Deus.
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Era uma vez um cachorro. Um cachorro que morava numa casa cheia de normalidade e que um dia, adoeceu. Se não me engano, um câncer de próstata. Debilitado, nunca mais levantara de sua casinha de jornal, nem sequer para cumprimentar seu melhor amigo - o homem que sonhava calado. Certo dia, pressentindo a chegada da morte, levantou-se, com muito sacrifício de sua redoma e, acompanhou até o último degrau da escada aquele senhor, dando-lhe a pata como quem diz " Você é dos meus, Amém". Nunca mais se encontraram, homem e cão, mas o mistério da vida venceu a morte. Era uma vez, então, um cãozinho vira-latas que tinha mania de premonição. 
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Era uma vez uma moça insone. Não dormia porque pensava na eternidade, e assim, prorrogava seu sono pesado para quando não houvesse mais acordar. Era uma moça bonita, mas cujo espelho de si mesma, de retorcido que era, fazia de si às vezes um monstro. Era uma vez, uma moça bonita cuja mania era a de escrever bobagens: prostada em si mesma, escrevia como se fosse água, e para tal, observava as pessoas do fio de cabelo à unha do pé. Era uma vez uma moça bonita (ou não tão bonita) que sonhava enxergar a alma de todas as pessoas do mundo; tinha a mania de labirinto - pobre moça desatinada.
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Era uma vez um gato que não tinha passado. E por isso, não tinha mania de nada.
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Era uma vez uma italiana que tinha medo do escuro. Tornou-se freira, aos dezessete. Era uma vez uma freira com mania de acender todas as luzes do corredor, antes do último despertar. 
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Era uma vez uma criança que ouvia uma canção, obsecadamente. Um dia, quase mulher, descobriu o nome da música da sua vida. Era uma vez, então, uma pseudo mulher com mania de  Asturias de Albeniz.

Especial Clarice - Se eu fosse eu





Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais
Clarice Lispector

Epifania

*Luta Olímpica II. Autor PSS.
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Esse ditado que nos fala de certos limões que nos deram a vida pra que fizéssemos a tal limonada é uma grande falácia. Eu odeio limão, e estou à espera de uma chuva de laranjas azedas - porque as prefiro dentre aquelas doces ,que se não me engano são as de qualidade Bahia. Por que tanta conformidade?
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Ontem tomei um alucinógeno nível "baby" para dormir (porque de tempos em tempos, sofro de insônia) e foi assim que me veio uma pequena epifania. Uma vontade de mudar a minha vida, digo, as coisas pequenas da minha vida. 
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Pedi um tempo ao Senhor do Cosmos para tal. Preciso decidir qual é o meu lar, e , a partir disso, colocar também as minhas necessidades; preciso que as pessoas vejam que não sou limão, tampouco laranja Bahia, que sou uma dessas laranjas azedas, ora doces, ora azedas - e que não sou pior que ninguém por conta disso, sou aquilo que sou. Muito de mim vai mudar daqui pra frente, mas há coisas que não.
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Coisas como a minha vontade de liberdade. Ao sentir-me sufocada, ainda que seja a protagonista dessa sensação, eu preciso de um tempo. Preciso de um tempo para reconhecer meus erros, preciso de um tempo para amar além da medida, preciso de um tempo para compreender a necessidade do outro, para ter a coragem de dizer "detesto que batam a minha porta antes das 9:00 e gosto de estar só depois das 22:30 para ler, quando em casa"; preciso de um trabalho voluntário, preciso amar a outras pessoas, preciso de um ambiente que me ajude a estudar. Preciso de uma tabela do excel, toda colorida, que talvez nunca será cumprida (mas o problema é meu, e eu ainda não tenho filhos que precisem do meu sustento). Preciso encontrar felicidade nas pequenas coisas, já que nas grandes meu orçamento não me permite agora. Preciso de paz. Preciso de menos gente metendo o bedelho onde não foi chamada.
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Sábio não foi o idiota dos limões; sábio foi aquele quem disse que nós somos os nossos piores inimigos e que nossa luta contra nós mesmos, contra nossos vícios e vaidades, será eterna. 
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Hoje acordei com a promessa da tabela no excel e, ao inves de recomeçar, farei  uma gambiarra aqui e ali para aproveitar o que já tenho em mãos....
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Esse negócio de recomeçar é outra grande falácia, grande bobagem. Para recomeçar bem, só literalmente, só retornando ao útero e deste - sempre tive distância. Fui impossibilitada pela vida de certos recomeços. Só recomeça quem quase morre, aí sim acredito. Já me aconteceu uma vez, mas foi a única para nunca mais. Então, ou eu dou o meu jeito, dou o jeito na minha vida, ou continuarei assim: usando os limões, na vontade de laranjas que são limões azedos-adocicados, maiores e mais bonitos.
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Bom Dia!

domingo, 22 de abril de 2012

Meu primeiro amor


 Havia, em algum lugar, um parque cheio de pinheiros e tílias, e uma velha casa que eu amava. Pouco importava que ela estivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar; reduzida apenas a um sonho, bastava que ela existisse para que a minha noite fosse cheia de sua presença....
... Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal. Eu me orientava. Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da fragrância dos seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado.
(Antoine de Saint-Exupery)




sábado, 21 de abril de 2012

Thalia-Amar Sin Ser Amada Live Premios Billboard

Atrofiando

*Cavalo a solta. Foto de Nuno Chaves.
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Há poucos dias senti vontade de bicicleta. Há oito anos que não o faço, devido ao medo de estar só naquela BR de encontro  casa - cidade. Atrofiou a habilidade de bicicleta, a que nunca foi das melhores, restando apenas o desejo que às vezes me encontra. Quando estive muito doente, com a alma bem fora do corpo, dei três voltas pelo nosso quarteirão para nunca mais. 
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Foi quando para  minha surpresa, ontem senti vontade de cavalo. Não ando a cavalo, sou uma péssima "amazona", de modo que enquanto meus primos menores cavalgavam pelas estradas daquele Tomo da Cachoeira, eu, amedrontada, seguia léguas e léguas atrás de todos eles, apenas soluçando um andar. Ainda assim, não há animal no mundo que me encante mais. Desde que me vi pela primeira vez, seja lá o que isso signifique, imaginei-me, um dia, cavalgando como se houvesse nascido com tamanho dom. Enquanto nadar é uma coisa que já posterguei para a próxima encarnação, andar a cavalo o será antes d'eu deixar esse mundo.
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Atrofiando.
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Meus pais, as pessoas que mais amo na vida (estou fingindo morar fora; e por isso, vejo as coisas com mais claridade), têm saúde e uma felicidade secreta que só a gente que é de casa vê. Quando venho a minha casa, sinto-me em casa, finalmente. Passei oito anos em busca dessa sensação que só encontro hoje, agora que não estou. É claro que posso voltar a qualquer momento, mas o risco de perder essa ideia de "lar" é muito grande, ainda mais nesse momento em que as coisas se confundem. Tenho amigos, perto, longe. Amigos a quem posso confiar segredos, como o meu mau humor e a minha birra do mundo; o ódio que sinto por dentro, diante de injustiças ou perdas. Gosto de controlar o mundo e as pessoas. Tenho amigos que suporto mais ou menos, mas são tão amados que não se afligem pelo meu jeito de ser amor. Tenho um namorado que amo, e que faz com que me sinta amada, apesar de tantos conflitos ocasionados pela memória de nós mesmos. Tenho o mestrado. Seja lá o que eu almejava com isso - porque agora esqueci - tenho um mestrado. Não tenho trabalho fixo, atuando como professora aqui e acolá - o que significa que não tenho dinheiro. Mas tenho vontade de trabalhar, o que me falta é organização; situar-me no que tenho em mãos para depois buscar lá fora, querer mais. Tenho Deus em algum canto dessa alma, ele que vem me falar usando outros avatares, sendo o último deles..Milagres.  Tenho muita alegria. Gosto de fazer festa, ser festa, gosto de amar, amar a todas as pessoas. Gosto de crianças; principalmente os meus afilhados - por quem simplesmente daria a vida e tudo o que posso vir a ter no futuro. Gosto de música, dança, e algumas literaturas. Gosto de comer e aprenderei, nessa vida, a cozinhar bem. Gosto de aprender línguas, conhecer viajantes e viajar (se tivesse dinheiro). Gosto de escrever, embora o desaprenda a cada dia mais, atrofiando-me.
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Há outras coisas que atrofiam.
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Certa tristeza. Saudade de alguém ou algum lugar que não é aqui. Vontade impulsiva de mudar as coisas, mas sem saber como.
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Vivo uma adolescência tardia, e agora que transito para a idade adulta, o que mais me detem e preocupa são problemas financeiros, e uma falta de perspectiva imensa de quando tudo isso irá se resolver. Dentro da profissão que escolhi, a que me trouxe até aqui, conseguir a estabilidade desejada só vem com um excesso de brilhantismo o qual não tenho. De modo algum quero dizer que meus colegar atuantes em outras áreas não são brilhantes; pelo contrário. O que insisto é que para se estar na academia é preciso um brilhantismo, uma comunhão com as coisas que eu não sinto muita vontade. É então que me pergunto se estou no lugar certo ou perdendo tempo. Eu poderia prestar um concurso e trabalhar em outro estado - como professora do estado, por exemplo. Mas para isso eu preciso querer, situar-me, organizar-me.
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Não é bem assim. Há dias que sinto vontade de fugir daqui - onde o ar é tão rarefeito. Viçosa é uma cidade linda. Não suporto que lhe caçoem as ruas - às vezes sujas, os bares não sofisticados, os ares provincianos. Eu viviria aqui muito feliz se estivesse apaixonada. Mas não estou.
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Acordei com vontade de cavalo, outra vez. Fazer contatos, ver o que se passa lá fora. Ao mesmo tempo, há uma casa imunda a ser limpa e coisas fora do lugar; todos sairam e só cabe a mim fazer tal faxina. 
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São dois anos; ou um ano e meio; ou um ano. Mas é um tempo que, na dança clássica, seria a do cuidar da base para o impulso do salto. Mas para onde? Para quem?
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Felicidade.
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Para mim, felicidade seria a imortalidade dos meus pais. O que está além desse útero é caso de luta, e eu não sei.
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Se eu fosse eu, Clarice...acho que seria você.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Bancando Deus

*Encontro olhares 02. Rui Carvalho.
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Presenteei  meu namorado dia desses com um Daruma, aquele típico amuleto japonês que signifca sorte e persistência. Tempos depois, percebi que não havia sido pintado o olho do pequeno monge, ou seja, ainda não houve desejo de pedido. Pensei seriamente em, antes de nos reencontrarmos, fazer por meu namorado um pedido que tenho a certeza de que só lhe traria benefícios; pedir ao monge uma benção que lhe cairia bem nesse momento, pintando-lhe um dos olhos como surpresa. Procurei uma caneta para fazê-lo, até perceber que tamanha infração isto seria: intervir no destino alheio.
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Não; não pediria ao monge algo relacionado a "nós", tampouco que nosso relacionamento fosse "infindo", qualquer coisa do gênero. Meu desejo era o melhor intencionado do mundo, limitando-se ao universo do meu namorado, seu bem estar, algo que lhe proporcionaria felicidade independente dessas voltas que nos são dadas. Era gratuito, amor gratuito, mas desisti a tempo.
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Não tenho coragem de desejar algo que não pra mim. A felicidade de hoje pode vir a ser motivo de frustração amanhã, a perda de hoje, motivo de encontro. Essa "lei" das coisas imprevisíveis e misteriosas é uma das poucas expressões de milagre que ainda me comovem e trazem fé. Caso meu desejo fosse atendido, correríamos o risco de que no futuro, outro desejo lhe escapasse das mãos, uma nova rota se desse que não casual, mas forjada. Presunção ou não, acreditei que meu desejo seria atendido porque nele acredito. Eu sei: não movo montanhas.
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Porque tenho medo do que desejo. Ultimamente, quase tudo o que almejei converteu-se em feitiço contra feiticeiro, salvo as coisas que sempre são, como o amor, a saudade e a fome. Devia já ter aprendido que é preciso cuidado com o que se deseja, tudo pode se realizar havendo fé, e minha fé move um universo metafórico e poderoso.
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Resignada, desisti do papel de Deus. Coloquei o monge em seu lugar - perto dos livros - e continuei o que fazia.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Mundo, vasto mundo

Quando criança, queria um desses globos de plástico. Porque me lembravam bolas gigantes onde se representa o mundo, bolas coloridas. Nunca o ganhei. 

Já maior, um de meus ex´s namorados, a quem confidenciei o caso, deu-me de presente um desses pequeninos. Era a coisa mais linda o globo, embora confesse que não saiba onde foi parar - a pelota de plástico - com passar de tempo e volta de mundo.

O encantamento era por conta do azul e acrescimo de cor; a fragilidade dos traços e  sentimento de imensidão. A vontade não era a de conhecer o exterior ; apenas, o globo em minhas mãos, cujo significado não sei bem explicar, significado interior e fetal.

 Hoje sinto inveja de tantos estrangeiros que conheço. Pessoas que carregam consigo céu, coro, pátria - fazendo de cada chão raíz de afeto, lar, identidade.

Como João de Barro.

Quando mudei-me para essa cidade, disse-me uma aniga italiana:

- Você precisa pegar a sua terra nas mãos!

O fato é que não me sentia daqui. Buscava sempre o exterior das coisas - pessoas e casas -  de modo que nunca me reconhecia, não era espelho de ninguém. A medida em que envelheço, entretanto, e abro mão - forçosamente - de tantos devaneios, reconheço-me neste interior, na semente de cada fruta que nasce por aqui. Olho para o interior, para dentro do meu útero, e vejo marcas que agora estão e me organizam.
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Sinto-me num cárcere.
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Um confortável e organizado cárcere. Queria mesmo era ver as pessoas e casas daqui - só que em outras peles e cascas. Experimentar o velho e o novo, viajar. Encontrar o pequeno globo de plástico que, dentro das nossas mãos, abrigava  pares e pares de alma silenciosamente, numa leve desorganização chamada mundo.

Meu mundo é este lugar. Também



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Do lado de lá

*Dente de Leão. Foto de Roberto T. de Oliveira.
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Já me disseram que sou um tanto mórbida para algumas coisas, senão obsecada  pela ideia de morte. Talvez.

A cada um de nós que passa para o lada do lá, sinto como se a distância entre esses dois universos fosse cada vez menor, quase uma miragem, um feixe de luz que nos separa em dimensões distintas...porém insuficiente para anular o que foi vivido, o carinho dado, o olhar que permanece na pele já áspera, já cansada.

Hoje faz nove anos que muita coisa mudou. Nove anos em que o sentido da vida se fez mais intenso, viver o que se tem em mãos. Amanhã? Nunca existe.

Saudades R.S.L...Sempre está.

terça-feira, 10 de abril de 2012

The WalIfIowers - Heroes (high quality dvd)

Fora de órbita

*Fora de órbita. Foto de José Luis Almeida Albuquerque.
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"O amor...será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer..."
(Nelson Cavaquinho - Juízo Final).
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Tenho tido a sensação do não-vivido, isto é, tempo perdido. Após um período de extremo stress, involuntariamente sucumbi a um tempo "inertico", onde não é preciso fazer escolhas, apenas encaixar-me no que já está. Tudo me foge, tudo está além - das regras de ortografia mais usuais até o senso de humor que já não é o mesmo; além do terrível sentimento de não ter um lar, um lugar onde se esconder da chuva. Todos os lugares onde estou não são meus, há um limite de liberdade entre eu e o sofá da sala - o que existe na imaginação - uma falta de gratuidade para as coisas mais obivas, fatidicamente "Não tenho onde morar, sou toda dividida".
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Também a estranheza do amor. Amo por teimosia, por desacato, por gosto. Ás vezes não amo, minto e sigo assim. Em outros momentos, a raiva do não dito transborda fazendo de mim pedra, algum ser inóspito e não polido. É quando por falta de certeza ele chega, numa carruagem dessas de abóbora: O amor. Amo sem saber porquê, e o medo de perder é tão grande...Mas ainda assim tenho o incomodo daqueles que, ao não saberem amar bem, preferem amar a si mesmo, por soliedariedade e orgulho. Finjo que não amo para variar.
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Insatisfação crônica. Todas as coisas do mundo fora de lugar, como se - diante do juízo final - minha única saída fosse a de esperar pelo número da salvação. Qual seria, contudo? Um número sonhado, uma data intuída, um animal. Confio na sorte por desconfiar daquilo que tenho ou poderia ter. Aborto uma série de sonhos pela preguiça em mudar a mesa de lugar e tomar as rédias de qualquer coisa que seja. Dentro de mim, sinto-me como um gelo que derrete AOS-POUQUINHOS. Passaria a vida inteira dormindo se houvesse sonho; insone, caminho.
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Prazer. Sinto prazer na felicidade alheia. Como se o universo fosse repleto de filhos e filhas que não tenho e a cada conquista desses, faço-me protagonista pelo desejo compartilhado. É irônico. Quanto mais possibilidades, mais a certeza de que estou cada vez mais longe do que realmente quero, Q-U-E-R-E-R alguma coisa ou a alguém.
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A palavra engasgada. Falta-me memória pras coisas, falta-me jeito pra escrever. Escolhi a profissão errada - penso muitas vezes. Encarnei no corpo que não é meu. Não tenho jeito.
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Aí me vem uma vontade de cozinhar um camelo; aprender a dirigir e a respirar. Poder comprar um sofá em doze prestações e cortar o dedo dez vezes. Amar ou Envanecer. Conspirar a favor do mundo. Dançar até que a morte nos separe.

Cascatinha & Inhana "Meu Primeiro Amor"

Juízo Final - Nelson Cavaquinho (1973)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Equivoco?

*Saudade. João Henriques.
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Cansada.
Saudades de tantas Ítacas...Para onde vamos?
Saudades da minha Ítaca.
Onde?

É sempre a velha sensação de que estou
...na hora errada e no lugar errado...
para o resto do dia.
....

Quando abalares, de ida para Ítaca,

Faz votos por que seja longa a viagem,

Cheia de aventuras, cheia de experiências.

E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,

O irado Poséidon, não os temas,

Disso não verás nunca no caminho,

Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre

Emoção tocar tua mente e corpo.

E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,

Nem o fero Poséidon hás­‑de ver,

Se dentro d'alma não os transportares,

Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.

As manhãs de verão que sejam muitas

Em que o prazer te invada e a alegria

Ao entrares em portos nunca vistos;

Hás­‑de parar nas lojas dos fenícios

Para mercar os mais belos artigos:

Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,

E sensuais perfumes de todas as sortes,

E quanto houver de aromas deleitosos;

Vai a muitas cidades do Egipto

Aprender e aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.

Hás­‑de lá chegar, é o teu destino.

Mas a viagem, não a apresses nunca.

Melhor será que muitos anos dure

E que já velho aportes à tua ilha

Rico do que ganhaste no caminho

Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.

Sem ela não te punhas a caminho.

Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.

Tão sábio te tornaste, tão experiente,

Que percebes enfim que significam Ítacas.
(Ítaca - Kaváfis).