sábado, 29 de junho de 2013

Mamífero

*somos mamíferos. Foto de José Vahl.
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É preciso se ligar a alguém ou a algo para não morrer de solidão. Na casa de veraneio, úmida, vazia, oca, havia centenas de flores e plantas que nada lhe diziam. Também eram vida como a dela, mas  tal mulher não possuía - ou desenvolvera - poder necessário, aquisição de linguagem para as botânicas, vivia só. Após a morte dos pais e irmã, viajou por muitos caminhos que nada lhe trouxeram; conheceu muitas pessoas - as que lhe acrescentaram tamanha sabedoria e curiosidade pelo simples e pequeno, mas não permaneceram as pessoas. Passou a vida só. Sem um amor. Sem uma religião. Sem um partido político. Sem uma causa. Sem um filho, seja este de qualquer espécie, humano ou literário. Viveu como se prendesse a respiração e, debaixo d'água, lhe tirasse a vida a capacidade do pensar, do sentir. Permitiu-na apenas o sobreviver.
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É preciso se ligar a alguém ou a algo para não morrer de solidão. Porque ao contrário do que se pensa, se existe Deus, abrirá Deus sua manta de compaixão apenas ao lado de lá, chegada a hora. Daqui se vê melhor as coisas: daqui, astígmatas, míopes, estrábicos e cegos noturnos veem melhor as coisas. É preciso unir-se aqui, enquanto há tempo, a alguém ou a algo para não morrer de solidão.
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Homem ou  Mulher que lhe servirá de ombro em momentos dolorosos; que lhe servirá de alegria para a celebração das pequenas vitórias; que comparta contigo o prazer pelo prazer. Ou, quem sabe, Amigo ou Amiga, que lhe servirá de brilho nos olhos, brilho na pele, entusiasmo - palavra mais bonita criada por algum mamífero qualquer. Há também os Cães, os Gatos, os Cavalos - outros colegas de caminhada hábeis em nos lembrar quem somos, em nos fazer rir e chorar. Não obstante, existe a arte, a ciência, a luta, o trabalho, a fé,  desde que acrescidos a boas doses de amor, de paixão, de graça e de entusiasmo - a palavra mais bonita criada por um mamífero qualquer.
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Havia uma mulher em uma casa de veraneio úmida, vazia e oca, cercada por flores e plantas que nada lhe diziam, porque não dominava - aquela mulher - a linguagem botânica.  Sem  linguagem, só nos resta essência. 
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Esqueceu-se a mulher de que era um mamífero. Em essência, um dos mais importantes; mas só.

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OBS: TEXTO SEMI REVISADO

sexta-feira, 28 de junho de 2013

ABUELAS

Doce de figo. Bolo de chocolate. Quebra-cabeça atrás da porta, quando Natal.  Conjuntinho xadrez, a ele e a mim, para evitar ciúmes. Palmadas no bumbum. Leite de vaca. Cozinheira do grupo escolar. Faxineira do grupo escolar. Meus primeiros cadernos. Meus primeiros lápis de cor - anuais. Primeira pessoa a que me apresentou uma escola tão bonita. Todo Natal. Todo Réveillon. Dia de "simpatia". Gavetas. Naftalina. Postais. Cartas de um amor clandestino, amor impossível. Livros de tarô. Presépio. Capela. Velas. Coroação à virgem. Tombo da Cachoeira. Mãe da minha mãe. Roça. Fogão à lenha. Calcinhas de Natal. Romãs no dia de Reis. Céu estrelado. Crucifixo artesanal, com fitas  multicor. Quadro de Nossa Senhora das Graças, com nuvens azuis que me faziam sonhar. Pequeno santuário com luzes brilhantes. Asas. Vacas, Bois, Bezerros, Café. Acordar  na madrugada. Brava. Doce. Briga com dois filhos homens; briga com a filha do meio; amor incondicional pelos filhos mais velhos; amor eterno à filha especial. Mentirinhas bem contadas. Nora do impiedoso Senhor Antônio Clemente, meu bisavô. Coração grande, porém disfarçado; conhecia o mundo como ninguém e as próprias crias. "HUM!, sá-moça!"; "Deus dá, Deus tira". Perdera um neto e, desde então, nunca mais pronunciou seu nome. Cleiton. Não fazia trico. Não mimava. Anotações em cadernos  velhos. Viuvez aos trinta. Oito filhos, menos dois bebês. Mãe dos netos sem mãe. Macarronada e maionese. Cristaleira. Luta. Solidão. Felicidade disfarçada. Jardim. Rosas que tocavam o céu. Rosinhas. Cartões de aniversário. Bolsinha branca, para guardar remédios. Madrinha. Briga em meus dezesseis. Falta de perdão. São Miguel do Anta. A vizinha engraçada. Forrós. Ex dona de boteco. Silêncio. Amargura ou Amor? Dentaduras. Minha felicidade. Minha tristeza. Melhor amiga "de" mãe. Telefonemas diários. Visitas semanais. Trabalho árduo. Caixinha de fotografias - a minha única herança. Infarto aos 77. Meu remorso. Minha infância. Meu velocípede. Meu amor. Minha  saudade. 

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Mesa farta: café, almoço e jantar. Rezávamos o terço, apesar da nossa preguiça. Desligava o ventilador, após  o meu adormecer; Ligava o ventilador, se muito calor; cobria-me com manta grossa, se muito frio - se muito calor. Mãe do meu pai. Cachoeirão, Pocrane, Ipanema, Minas. Nove filhos, todos vingaram (Amém). Puxa-saco dos homens caçulas. Café para tio Rui. Á espera de Pedro,  até  o fim. Mãe da neta com mãe. Broa, biscoito, café. Preocupação com a neta do meio. Almoços aos domingos, uma vez ao mês. Arroz, feijão, quiabo, frango e angu. Sarcasmo. Ironia. Liberdade. Alguns Natais. Um Réveillon  ou dois. Quando vinha a melhor amiga, para o chá, convidava-me para cantar a elas uma canção muito antiga que só eu sei. Pouco contato, até um dia em que puxei assunto e, desde então, nunca mais parou de falar. Falava dos filhos; falava dos netos; falava das dores nas costas; das dores nas pernas; falava - sobretudo - do destino dos netos (preocupada). Não fazia trico. Não mimava. Belas pernas de moça. Belas irmãs, filhas e netas. Eternamente apaixonada pelo marido, vô Sodé. Viuvez aos sessenta. Andava de um lado ao outro, em plena madrugada ou nascer de sol. Hipocondríaca, como meu pai e eu. "Pedrinho chegou?"; "Pedrinho, vem almoçar!"; "Rui, o café!"; "Nenê, já tomou o remédio?"; "Como desentupiu a pia? Com seu nariz?" "Namorado da Amanda? Pra ela até que serve...."; "Tem uns capetinhas aqui, tem uns capetinhas"; "Cade o Rui e o Dário - já me esqueceram?" (quando no hospital). Filha de Chico Bijos - ex padre, ex mascate, ex médico, o único ser humano a ver o diabo pessoalmente, dizem. São Paulo, Espírito Santo, Ipatinga (a irmã de olhos azuis ainda vive lá, com o bombeiro de pias entupidas). "Você? Bailarina de perna grossa?"; "Nutricionista serve pra quê, Elia?". Fanha - como meu pai. Negra, como todos nós. Coração grande. Fala de matraca. Aos poucos, o devaneio. Internações. Alzheimer. Antes, o álbum de fotos e confissões em certo hospital, quando com ela estive por três noites. Um terço pela metade - minha única herança. Falência múltipla de órgãos aos 83. Saudade da broa, do biscoito, do ventilador, da matraca, da voz fanha a que herdaram os netos.
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Obrigada vovó Maria e vó Apolônia. 
Por me convidarem ao banquete da vida, no qual permaneci por sorte e picardia.  
Obrigada por tantas memórias, as que guardei numa caixinha de palha e pedaço de alma.
Obrigada pela família que me emprestaram. A que amo involuntariamente, sempre que respiro.
Todo amor-bom é involuntário. Como amor de mãe.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Can you hear me?


Borboleta 2. Gonçalves Oliveira
I am flying, 
I am flying,
Like a bird 

across the sky
I am flying, 

passing high clouds
To be near you, 

to be free
Can you hear me? 
Can you hear me?
Through the dark night, far away
I am dying, 

forever cryin
To be with you, 
who can say?
 (Rod Stewart - Sailing)

sábado, 22 de junho de 2013

MÉTODO CATÁRTICO

*Domínio Público.
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Fluxo de consciência, cura pela fala. Após noites mal dormidas em um hospital, acordei em sobressalto por haver sonhado assistir a uma aula sobre Progressão Geométrica e Aritmética. Pus-me a pensar no que tais símbolos condensam e deslocam - porque sou freudiana até a medula e esta discussão de que ele foi machista e misógino....por favor, deixemos para outro post! Então, desde muito criança, trabalho com a cura pela escrita; a escrita é o meu-amor-maior nesta encarnação, dentro dos objetos palpáveis que tenho  em vida, objetos construídos por minhas inábeis mãos. Mas há sim os amores inconscientes, estes revelados apenas em lampejos oníricos, atos falhos ou desejos inexplicáveis. Este post é sobre isso. Impossível libertar-me da censura que, como num gozo duplicado, tem lá sua função: sinto prazer quando sou lida, porque assim vos leio através de mim, passando horas a imaginar as reações do que fora escrito entre mim e ti. Mas tentarei, a fim de matar tempo e indecisão, criar uma lista livre, sem  pensamentos pré-programados, utilizando o método catártico de Freud, porém através da escrita. Escreverei lo que me sale de los cojones. Quem sabe uma coisa aqui e ali não se realiza? A vida é um pequeno mistério envolto em caixinhas de presentes. O que vi acontecer a meu pai nestes dias (a meus pais...) é um mistério em miniatura que nos passa pela vida sem dizer nada, a menos que, se atentos, enxergamos os detalhes sobre a mesa, como se deixados por uma enfermeira em pequenos e pobres saquinhos plásticos, porém cujo interior, doce ou amargo,  é saboroso como nuvem de algodão. Ás vezes, uma noite de insônia é mola impulsora para um sonho reprimido.
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Presentes da vida 
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1. Quero ser médica. Hematologista. Cuidar de doenças sanguíneas e pesquisas relacionadas ao sangue humano. Quero trabalhar em hospital. Poucos sabem, mas meu primeiro vestibular, em 2003, foi para Medicina na USP. Fiz por fazê-lo, nem havia estudado. Em seguida, mudei-me para Minas. Foi quando meu "namoradinho" e irmão faleceram, fazendo-me desistir em tentar qualquer coisa que me exigisse esforço. Como sou apaixonada por letras, história, literatura, teologia e filosofia - encontrei todas essas disciplinas no curso qual me formei e hoje sou mestranda. Mas quero ser médica. Ofereço-me à família como acompanhante de qualquer enfermo. Estudo na internet casos que me interessam. Sou sócia da ABRALE (Associação Brasileira de leucemia e linfoma). Em São Paulo, ia a palestras sobre cura psicossomática, cura espiritual (cirurgia espírita). Fui ao GRAACC (Grupo de Apoio ao adolescente e criança com câncer) - mas, ao ver uma jovem, da minha idade, fazendo sua quimioterapia percebi que talvez não gostassem - os pacientes do GRAACC - em serem exibidos como cobaias, ainda que por causa nobre.  Tenho recortes em casa de inúmeras doenças sanguíneas, enquanto meninas da minha idade colecionavam fotos de artistas (bem, eu fazia os dois....). Mas a preguiça fez de mim um sorriso falso, uma vida falsa, uma profissão que não a que sonhei. Fiz teste  para doutora da alegria, em Viçosa, e passei. Mas depois me dei conta de que não há nada mais insuportável no mundo que se fingir de palhaço. Eu não.

2. Escrever um livro. Sobre o quê? Não faço ideia.... Mas escrever. Viver de escrita, se médica ou não. Primeiro, um livrinho de crônicas; depois, um conto, alguns contos; e, por fim, um romance, mas já na velhice. Adoraria trabalhar como colunista em algum jornal, ou freelancer....(estou à espera de uma proposta que me veio por amiga, mas não "boto fé" em papo de japonesa, RISOS). Fiz Letras porque queria aprender a escrever. Aprender a Literatura da minha língua. Que me perdoem os professores de língua estrangeira, mas eu, Sofia, só tenho vontade de ensinar a minha língua e  aprender linguística sem a Literatura de Língua Portuguesa é como amputar o braço do corpo. Já traduções eu gosto; e também aulas para estrangeiros. Mas exatamente pelo raciocínio inverso: levar à alguém a minha língua. O Espanhol é sexy, o Inglês é o Inglês, mas a Língua Portuguesa, flor do lácio, é uma flor nascida no deserto. Portanto, quero ser escritora.

3. Odeio dar aulas. Nunca mais quero dar aulas em escola, a menos que seja para ganhar uma "graninha" extra, como preciso neste momento para a poupança a que pretendo. Aula só em Universidade ou curso para estrangeiro. Mas então precisaria fazer um doutorado ou sair do país. Faço ambos com maior alegria. Tenho vontade de estudar na USP ou na UERJ e morar um tempo em Buenos Aires. Quanto ao namorado, havendo amor é possível conciliar. O que não se pode conciliar é o primeiro e mais forte desejo - a Medicina.

4. Quero ter um filho com meu namorado. Em breve.

5. Quero fazer uma poupança, seja médica, professora universitária, escritora, tradutora, professora em escola mesmo - a fim de poder viajar sempre. Em 2012 tive a possibilidade de viajar só - e com meu dinheiro - a Buenos Aires, onde além de turismo estudei espanhol intensivo. Nunca me senti tão viva. Lembro-me de uma noite num café, sozinha, comendo empanadas e vinho....Um mozo tentando flertar...mas eu, pobre, era coração e mente apenas em meu namorado hispanobrasileiro, embora nem houvéssemos oficializado ainda (apesar dos quase quatro anos de relação...). Sentou-se um hippie a meu lado. Um senhor. Eu respirava, respirava, respirava com tanta profundidade sentindo o valer a pena estar ali. Este dia fora o mais feliz da minha vida, mas não entendo por quê. Ainda, contudo, quero conhecer mais da América Latina, Península Ibérica, Grécia e Itália. Também partes do Brasil. 
Mas, sobretudo, voltar a Buenos Aires.

6.Gostaria de casar com meu namorado na igreja. Recentemente, passamos por uma situação um pouco traumática...Ele sabe. Gostaria de selar nosso compromisso vestida de branco. Ele, como ateu, não quererá um padre jamais; todavia, não precisa ser um sacerdote. Podemos convidar a algum amigo de confiança que nos  faça um discurso bonito. Amo discursos e , pretensiosa que sou, posso muito bem escrevê-lo sozinha. O importante é receber nossas famílias, unidas - também a espanhola.
Quem sabe ano que vem?

7.Que meu namoro dê certo! Mas para tal, ajustes sejam feitos: Que ele seja menos grosso; que permita minha intervenção em sua vida, quando para ajudá-lo; Que brigue menos comigo (falo quanto ao tom de voz, às vezes me é insuportável). E que  me siga daqui, porque antes do trinta vou-me embora de Viçosa, como dois e dois são quatro. (A menos que passe em Medicina. Aí vou até o inferno).

8. Que meus pais vivam para sempre. Menos que sempre não permito. Eu não barganho com a força divina. Pode até ser que eles mal se orgulhem de mim que, ao contrário das minhas amigas e das colegas "mulherzinhas" com quem convivo, não tenha nada, apenas sonhos. Mas não permito que eles morram. Eu daria literalmente a minha vida pela deles. Não quero morar eternamente com eles, mas, quando assumir meu "casamento" (o que eu chamo de casamento e não essa bosta da papel), visita-los-ei pelo menos a cada quinze dias.

9. Ter grana suficiente para quando meus quatro priminhos crescerem porque pretendo adotá-los de alguma forma. Financeiramente ou mesmo trazendo-os para minha casa. Também quero cuidar da mãe deles, que é uma das melhores pessoas que conheci, apesar do estrago (mas só em parte financeira). Quanto a meu tio,  isto é, o pai das crianças, levaria-os todos os finais de semana para visitá-lo. Poderíamos revesar, uma semana ficam com ele; noutra, comigo. Mas isso para o futuro...Quando o caçula, meu afilhado, tiver seus vinte e três; eu, quarenta e três.

10. Quero ter o direito de ser triste. Desde que Cleiton faleceu (e também o Rodolfo, um "namoradinho" de adolescência) nunca mais fui a mesma. Cleiton é meu primo, porém como filho único, fomos criados como irmãos. Faleceu em decorrência de um vírus vegetal, o qual enfraqueceu sua válvula cardíaca. A relação que tenho hoje com minha mãe me lembra muito a nossa história, um misto de amor e irritação - ele foi a pessoa no mundo que mais me irritou. Ás vezes o peço conselhos sobre minha vida atual. Não creio em muitas coisas, mas se pudesse revê-lo um dia......(e também ao Rodolfo, à Dona Ruth, a Julya Victor, à vovó Maria, à vovó Apolônia, ao tio Dário, ao tio Carlos japonês, ao tio Wada japonês........) seria bonito. Quero dizer: se existe esta absurdidade de que nos buscam à beira da morte, é você que quero Cleiton. Sinto falta do seu riso, da sua leseira mental, do modo idiota como eras apaixonado por mim e que, ao mesmo tempo, impulsionava-me à felicidade.

11. Quero comprar todas as terras do Tombo da Cachoeira do meu tio (um dos tios mais queridos) Como?  Não sei.

12. Voltar a São Paulo. Já disse? Só por pouco tempo.

13. Quero morrer no Tombo da Cachoeira e, minhas cinzas, serão jogadas na cachoeira de lá, o rio Casca.

14. Quero fazer meu mestrado sobre Gil Vicente, com orientador e coorientador. APENAS sobre Gil Vicente. Se o tema não era bom, que não houvessem me aprovado. Não tenho dinheiro para ressarcir à CAPES, ou seja, FAREI MINHA DISSERTAÇÃO SOBRE GIL VICENTE: AS MORALIDADES VICENTINAS. Farei um resgate histórico do gênero na Europa; um capítulo sobre o pensamento medieval embasado na ideia de morte que se tinha na época. Um pouco da política portuguesa. Análise de duas moralidades e "ecos" póstumos com autores contemporâneos. Ou isso ou isso. E, se conseguir quem me financie, vou a Coimbra trazer material. Caso continuem a me encher o saco com isso, saio deste Mestrado.

15. Voltar a dançar Ballet clássico.

16. Fazer mais amigos. Meus amigos de São Paulo têm suas vidas lá; os daqui, uma grávida, outra militante, outra casada, outra cujo senso de humor está nos níveis mais baixos (a ela dediquei o post "Liberdade ainda que tardia). Sinto-me sozinha. Sinto-me pequena e triste, encolhendo. Não saio muito, mas gosto de um "buteco", jogar conversa fora. Meu melhor amigo tem lá sua vida com os seus e nem ao menos me telefona. Preciso conhecer gente nova.

17.Estudar Francês.

18. Aprender a montar bem a cavalo, eu amo cavalos.

19. Quero voltar a ser amiga de uma pessoa cujo nome não citarei.

20. Mesmo casada, ter meu apartamento com a minha decoração e viver com meu marido em casas separadas. 

21. Tirar carteira de habilitação para "calar a boca" desse povo que me julga incapaz.

22. Comprar um globo terrestre enoooooooooorme e que brilhe no escuro. (sonho de infância).

23. Sublimar em algo ainda desconhecido esta minha vontade em ser freira/ irmã/ missionária.

24. Poder ouvir, até o fim dos meus dias, todas as músicas que ame: clássica, erudita, MPB, samba, chorinho, pagode, pop rock e até le lek lek lek (adoro essa música e os meninos dançando, que coisa linda!). Axé e música eletrônica jamais!

25. Ter alguns bons momentos de alegria: 
A única morfina capaz de nos salvar da silenciosa morte cotidiana.
Um dos dias mais felizes da minha vida....

A vocês, queridos leitores, o meu presente para este dia recém nascido. Trata-se de Emmanel Pahud - Andantino

sábado, 15 de junho de 2013

O MILAGRE DE CADA DIA NOS DAI HOJE.

*Arquivo pessoal
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Parei de fumar há alguns meses. Não sinto falta, a menos quando muito ansiosa. Como tatu bola ou ladrão bem intencionado, escapei discretamente à meia noite deste domingo recém nascido e me pus a fumar ao lado de fora do apartamento, desafiando a porta que nos cerca. Em casa de família o cigarro é proibido. Mas driblei a hierarquia dos "Bijos de Freitas" e abri a tal porta - de incapaz que fui em destrancar a janela da sala de estar. O apartamento não é meu.
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No corredor, próximo à saída do edifício, avistei a uma formiga que, cheia de doçura, caminhava lentamente à parte alguma, provavelmente à procura dos seus. Desapareceu em alguns segundos, deixando-me só  com meus cigarros, isqueiro e devaneio.  Observei-a por alguns instantes e inventei um milagre.
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Imagine só, leitor, se todos os deuses, inclusive o meu, fossem apenas formigas. E que o além vida - seja céu, plano espiritual, inferno ou umbral - fosse repleto delas, grandes, pequenas, rainhas, vassalas, negras ou vermelhas formigas. Caso sejamos a imagem e semelhança de Deus, como acredito, e se Deus - em meus devaneios - fosse formiga, também nós as seríamos, quando despidos de corpo e restritos  à alma inumana.
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Se Deus fosse uma formiga não haveria mais guerras ou discussões pedantes sobre religião. Poderia tê-la matado naquele momento quando atravessou o meu caminho em busca de sei-lá-quê. Mas resisti, porque senti pena. Não quis desencorajá-la. Há gentes que, como eu, mal sabem o chão em que tocam. Já a formiga que vi tinha o sério objetivo de sobreviver. Invejei-a.
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Se Deus fosse uma formiga, e acredito que seja, descobriria então o mistério da vida: Somos pequenos, porém o trabalho que nos dá o existir é pesado e dignificante, como as folhinhas que carregamos sobre as nossas costas diariamente. Cada um de nós tem lá suas folhinhas para quando a chegada do inverno.
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Se Deus fosse uma formiga, teria vergonha em tê-las matado ao longo dos meus vinte e sete anos apenas por inveja, como aqueles que estouram plástico bolha para matar o tédio de suas vidas medíocres.
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Porém Deus nunca seria um plástico bolha. No máximo, uma barata, mas então já não teria salvação - a minha alma - porque baratas  extrapolam minha sensibilidade.
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Deus é uma formiga. Tenho certeza. 

Dedicado a C.L.L.M - o garoto que salvava formigas,
regava  flores e plantava árvores.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O colecionador de lanternas

*Domínio público.

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Havia um homem muito doce que colecionava lanternas. Não importavam marcas, tamanhos, preços,cores, funções, aparatos, se velhas ou novas, se rústicas ou modernas. Colecionava-as sem saber por que razão, mas, como por fetiche, mantinha-nas todas numa gaveta secreta, fechada a sete chaves. Vez ou outra, aparecia com alguma novidade a vista dos que dividiam consigo o mesmo ar e matéria, nunca entendemos muito bem qual graça havia em uma lanterna cuja luz, artificial, mais cega que ilumina.
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Este homem caduco gostava de contar histórias infinitas e casos de carochinha. Diz que tem sete vidas e quase já perdeu algumas: quando criança, uma rara infecção; quando adolescente, quase se afogara no rio da cidadezinha onde nascera; já adulto, três ou cinco assaltos, uma queda do telhado, um sequestro relâmpago, uma arritmia congênita, um quase derrame, um acidente de carro e uma laparotomia mal sucedida. 
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Trata-se de um homem engraçado, apesar da cara feia - cara de fome. Diz que encomendava almas junto da avó, mulher de letras que desde cedo o ensinara o segredo do grande drible, o drible triunfal: como escapar da morte. Saiu de casa muito cedo e foi morar numa pensão aos doze anos, onde aprofundou-se nos estudos. Aos dezoito, arriscou a vida na cidade maravilhosa. "Dois anos e três meses" - repete com orgulho, como se neste espaço temporal sua vida houvesse ganhado cor local nunca antes encontrada nas cachoeiras de seu verdadeiro lar. Lar é segredo de alma.
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Uma viagem a São Paulo que lhe mudaria a vida. Pacto com Deus ou Diabo? Ainda se pergunta. Trinta anos trabalhado como metalúrgico, na mesma firma, o que lhe rendeu uma aposentadoria precoce aos quarenta e seis. Entre coisa e outra, o casamento com a moça mais bonita - também mineira; o nascimento da filha única, misto de ovelha negra com menina dos olhos. Cinco cães que lhe foram como anjos neste caminho perplexo do viver. Viagens ao redor de si, viagens a Colômbia, Rondônia, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo, Brasília, interior de espírito. Final de semana era sinônimo de churrasco com os amigos-mais violão-mais músicas da jovem guarda. A criança, que nada entendia, não queria mais colo e sim brincar eternamente com os filhos dos amigos do pai. As viagens à praia grande, as viagens ao Tombo da Cachoeira ao encontro da sogra, cunhados, sobrinhos e do menino que nasceu raiz. 
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Interessava-se pelo mundo exterior, sem que nunca houvesse caminhado tão longe: estudou informática, manutenção de computadores, trabalhou com marketing de rede, estuda matemática e inglês diariamente, embora só assista a filmes dublados. Se teve "casos" não sei, mas foi de chamar olhares pra si, olhares alheios. A esposa ciumenta guardava-se numa caixinha de música; a filha, no entanto, era a porta voz das dores femininas. 
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Tinha tantos amigos e era querido por saber amar e amar bem. Mudou-se para o interior de Minas ao se aposentar e nunca mais foi o mesmo. Custou acostumar-se com a desconfiança mineira, ainda que sendo um deles "Mineiro é bicho traíra, bom mesmo é carioca". Acostumou-se à cidade indo e vindo de um pequeno sítio que vendeu logo após a morte de Sheik, o cão mais amado. Buscou consolo nos poucos amigos: os cunhados que lhe amam como irmãos e um ou dois senhores sexagenários, mas de humor bem vivo; um jovem cientista, um cabeleireiro, as amigas da filha e os irmãos. Perdeu um deles recentemente mas engoliu o choro. Se abríssemos seu coração, haveria ali milhares de gotas mal derramadas luzindo como lanternas em miniatura.
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Queria uma menina, mas aí veio o milagre: nasceu uma boneca com alma de moleque mal criado. Não vai à manicure, é briguenta como ela só. Não sabe fazer tantas coisas quanto o resto de seus sobrinhos - casados, pais, mães, escritores, jornalistas, cientistas, criadores de aquecedor solar, banqueiros. Uma menina que passa os dias à procura de palavrinhas para comê-las todas resignando-se a um mundo interior. De certa forma, ele a conhece muito bem e percebe a dor que ali habita, na menina, quando perdeu o único irmão. Ficou gaga para sempre e hoje só escreve com penas invisíveis. 
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Sexagenário teimoso que prefere morrer a serenar. Quem de nós errará desta vez, Raimundo? Quem de nós acertará?
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Quando tu ficares bom, meu pai, dou-te o Rio de Janeiro inteirinho; o Pará e  o Rondônia também. Um neto, um microondas, uma boina xadrez e a lanterna mais linda.
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15/06/2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Liberdade ainda que tardia

*Arquivo "tarjetas ofensivas pero divertidas".
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(ou fragmento de facebook III - dedicado a uma amiga).



Uma pessoa só é livre quando vence o medo do ridículo. Não há intelecto-causa-literatura-bandeira-verdade-mentira que resista a um bom peido em hora imprópria ou crise de caganeiras. Só o vexame público te liberta da escravidão; só quem supera o ridículo, humoriza o ridículo, reconhece-se como tal, humanamente pequeno, é livre suficiente para as ditas "coisas admiráveis" da vida (se é que existem). 

Já acreditei que fosse Joana Darc, Dom Luciano Mendes, Emília - a boneca; já fui cantora de ópera em seminário religioso, à beira de uma piscina imaginária; já vaticinei a homossexualidade de dois policiais civis e de um enfermeiro marianense em noite de sonambulismo. Já fui amiga íntima dos Cavaleiros do Zodíaco, sendo eu a quarta reencarnação da deusa Atena, aos dez. Conversava, desde pequena, com as manchas coloridas do meu astigmatismo; acreditava que uma bruxa vivia encapuzada numa lona preta que cobria a porta dos fundos da minha casa; já desci ao fundo do poço. Chamaram-me de louca. Visitavam-me em casa a fim de que me convertessem em meu contrário "religioso" (não direi qual). Entrei em coma por um dia. Já me declarei inúmeras vezes. Já tive a saia levantada pelo vento enquanto passava em frente a uma oficina mecânica. Bati papo com o Hanson, duas vezes, em inglês. Disse ao Marcelo Camelo que seu álbum "SOU" estava muito caro e por isso não o compraria. Tive uma crise de caganeira numa reunião de trabalho e também festa junina, onde sujei todo um quarto e colchão com minha própria merda. O quarto era de um ex ficante. Limpei tudo sozinha, mas lençóis e cobertores levei como trouxa de roupa para que mamãe os lavasse, já que o depósito fecal era demasiado para minha escassa habilidade com tanquinhos. Pensei que nunca sobreviveria a tal evento...Mas cá estou! Escrevi uma monografia de 120 páginas tornando-me a chacota do meu departamento... (o limite era de sessenta páginas, porém soube tarde demais.....). Já entreguei trabalhos com erros virais de digitação, justo para aquele professor a quem tentava impressionar...Aliás, dos quatorze aos vinte e sete já me apaixonei por vários professores e não obstante, casei-me com um. Já caí em tour piquet no meio de um palco (mas em seguida fui ovacionada em quinze fouetées perfeitos). Já fui a outra cidade com a camisa ao contrário. Já tive o soutien estourado em meio a uma festa infantil. Falo com minha sogra por telefone mensalmente, ainda que ela não saiba português e tampouco eu espanhol. Já me vesti de banana,  Imperatriz Russa e Bule. Já cantei "Meu bem você me dá: água na boca" no meio de um bar e desfilei, em sapatilhas de ponta, pela cidade de Ponte Nova  em marcha pela juventude. Descobri que o amor da minha vida tinha outros dois amores da "sua" vida concomitantemente a minha existência. Para me vingar, convidei a "uma das moças" para uma noite de "buteco", a fim de descobrir toda a verdade. Saí de lá "acabada", mas cheia de boas histórias inimagináveis. Levei um pé na bunda de outro amor da minha vida, um que não vingou. Além deste, tive outros seis amores. J, R1 e G se casaram; R2 está noivo e R3 faleceu. T é de Taylor Hanson. Quando adolescente, uma amiga e eu saímos pelas casas do nosso bairro, em São Paulo, pedindo doações de calcinha para uma mendiga quando nos acusaram de "macumbeiras" por prática de vudu (segundo a senhorinha, queríamos a calcinha dela para que roubássemos seu precioso marido). Quando criança, meus pais pediam que cantasse "Como uma deusaaa....." às visitas que recebíamos. Queimei a perna em festa de bebida liberada e ao ajudar o entregador de compras. Sou fotossensível e bipolar. Escrevi uma carta de amor que nunca será respondida. Amei meu irmão caçula de tal forma que não suportava a ideia de que fosse superiormente correspondida.  Usei botinha ortopédica. Fiz parte do clube "três primos virgens do cursinho GOMO*". Jogo Criminal Case. Quero ser escritora, bailarina, médica e mãe.
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Acreditei em Papai Noel até os nove anos e nunca entendi o funcionamento de um semáforo. Existiria um mini-homem responsável pela mudança das cores em cada uma daquelas caixinhas? Como um pequeno polegar?
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Liberdade ainda que tardia, queridos.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Dia dos namorados?


...Cuidado com o presente!
eu já recebi o meu, e você?
São os sinceros votos de 
Sofia de Buteco.

Fragmento de Facebook II


*O Relógio. David Richau


Ser um "ser humano" é muito legal. Você nasce, tem uma infância - feliz ou triste - cresce e daí, a pior fase de todas...adolescência; tantos primeiros, tantos segundos...seja pobre ou rico, a historia é a mesma. Crescem, juventude: lutas, universidade, causas, indignação, o amor verdadeiro....(como se isso existisse...); Então o casamento (não sinônimo de maturidade...), a vida adulta, as preocupações. A certeza de que fez a escolha errada profissionalmente e que é preciso recomeçar....Mas como? Existem filhos, contas a pagar, a sua família e a do marido que depositaram todas as fichas deles em você.
Daí você continua. Engole a chefe que é um porre, o salário de merda que você ganha, faz dos seus filhos uns burgueses lesados, continua...continua..... Seus pais morrem, seus irmãos, a pessoa que você mais amava; vem o divórcio, inevitavelmente.....os primeiros problemas de saúde....e em ICTU OCULI, sua vida passou e você se deu conta de que fez tudo errado. Viveu como se por osmose, sem finalidade. Seu livro? Não pariu; Sua segunda faculdade? Não foi desta vez; Sua viagem à Europa e América Latina....Você nunca pode pagá-la com seu salário de merda. Você nunca sequer viajou de avião ou sabe o que é Instagram - onde igualmente pobres como você colocam fotos de comida como se em restaurantes de seis estrelas. 
Seus filhos se vão, como curso natural da vida. Até que prefere estar só...pode pensar nas profundezas da sua frustração...o Livro não escrito, o casamento que podia ter dado certo, se não fosse pela precocidade, a faculdade de medicina e as viagens como voluntária que nunca existiram após o nascimento de João e Maria - os mesmos que te colocarão num asilo, vinte anos depois. A única coisa que estará ao seu lado até o fim dos seus dias é você mesmo. Então, na falta de opção, goste da sua companhia e confie nas suas visões. E, se ainda tiver entre 20 e 100, faça tudo ao contrario, pelo amor de Deus. Bom Dia! 

(Desculpem-me pelos erros de digitação, este teclado é estrangeiro)

Morte e Vida Ritalina

*Água fonte de vida. Foto de Carlos Torres.
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Não há ritalina, ansiolítico, clonozepam ou derivados que me sirvam agora. Não tenho escolha, a não ser o copo de vidro sobre a escrivaninha, copo contendo substância danosa cujo nome, CocaCola, lembra-me gasolina, como grávida que sente os primeiros desejos inconsequentes e insanos. Estou grávida de uma porção de ideias e gentes, como se fosse meu ventre uma boca divinal da qual expelisse todos os deuses greco-latinos responsáveis pela literarização universal. Também como Gaia, dentre os doze filhos gerados pela ventre-boca, escolho Mnemosine como a única capaz de uni-los a todos, porque a memória é a ritalina do olhar inquieto, quando este mesmo olhar se perde pelo caminho, e são tantos caminhos a serem perdidos que melhor seria, oh vida!, que tais caminhos conduzissem-nos ao mesmo lugar, sem maiores complicações....(Eis o mistério da fé, disse).
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Sou fascinada pela ideia de Morte, porém proponho-me a refletir sobre a morte em seu avesso mais profundo, a vida. Vivemos à espera da morte, cultuamos nossos deuses a fim de que, por barganha ou fetichismo, conduzam-nos à nuvem mais aconchegante do além-camada-de-ozônio, creche de almas. Lutamos pela faixa de gaza, articulamos atentados terroristas, reunimos-nos semanalmente no núcleo de estudos nipônicos, instauramos a ditadura da cultura da vida, quando na verdade esta vida é só a cara de uma coroa-morte, estatuto do nascituro, estatuto da homofobia, estatuto contra a mulher, estatuto a favor da redução da maioridade penal, estatuto do estatuto do estatuto do estatuto do estatuto...
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A vida chega a ser mais simples do que tudo isso. Sou contra o aborto? Que não aborte, eu! Sou contra o casamento gay? Que não me case, eu, com uma mulher. Sou contra a felicidade? Que não estude, eu, Letras - Artes e Filosofia. Mas não permita, eu, que as pessoas podem suas asas em função do meu cárcere. 
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A minha memória está cheia de vida e de morte, de acontecimentos grandes e profundos, acontecimentos pequenos e curiosos dos quais selecionarei cinco para esta crônica noturna.
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Há poucos dias fui a sala de um professor em busca de bibliografia, alento e um pouco de preenchimento de ócio. Curiosamente, notei que havia em sua sala: duas bicicletas, um armário caindo aos pedaços, um pôster em tamanho grande do Homer Simpson, um mural repleto de parafernálias, uma gaveta velha que mal  cumpria o seu único papel no mundo, o de fechar e abrir, uma recordação da esposa - também minha amiga - uma lembrança de Portugal, um tablet, um chão muito cinza, um óculos de grau, uma camisa marrom, uma impressora ruim e uma profundidade de reflexão e alma nunca antes notada por mim, que já havia sido sua aluna. Em poucos "clics", em poucas palavras, abriu-me tal homem uma janela de possibilidades e a esperança de encontrar na docência a paixão pelas coisas que venho buscando. Aquele homem, naquela sala engraçada, salvou o meu dia.
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Faleceu neste fim de semana a mãe de uma amiga. Talvez por diabetes, não sei exatamente o enquadre de complicações. Fomos ao velório e enterro, precisava respirar toda aquela circunstância para me fazer crer que a morte existe, e só por isso a vida se faz o que ela é - dura, doce, demência e delírio. Um delírio cheio de cor. Minha amiga chorou no seio da morte enquanto todos assistíamos. Chorou no seio da alma da morte, deu de cara com a morte: - Oi, morte, eu sou fulana de tal. Na mesma capela e simultaneamente era velado  um primo de segundo grau que descobri por acaso, só porque havia ali uma série de conhecidos, como minha cabeleireira, a prima de sei lá quantos, o terceiro ex-namorado de minha mãe e , obviamente, a angústia. Percebi nesta cena quotidiana que estamos interligados, todos juntos em fila indiana a caminho da angústia. É possível que eu desista, um dia, de voltar a minha terra natal se me der conta em tempo de que toda angústia é universal e eu precisaria me dividir em 34567927909 seres humanos para respirar e curar o coração alheio.
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Entre coisa e outra, brigamos - ele e eu. Brigamos porque há alguns meses, antes do selo apocalíptico, levou a sua casa uma amiga com quem já namorara anos antes de me conhecer. A amiga, muito bonita, muito brasileira, não é fruto da minha raiva, senão o fato de que poderia ter ficado em um hotel haja vista que não estava eu lá, estava eu cá, decidindo entre vida e sobrevida; imaginando que transavam  loucamente enquanto eu assistia a minha novela da vez. Quando veio para almoçar, já em nossa cidade, deixei ambos a sós. Quando visitou a casa, a mulher e o estrangeiro, senti-me periférica e ausente. Não há sexo que preencha a sensação da ausência e inefabilidade. Aprendi nesta terceira cena que o único amor pelo qual se vale a pena lutar é o amor por elefantes. Não há animal mais gracioso neste mundo.
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A quarta cena. Há uma mulher que me atormenta em sonhos e vida real. Temos pontos em comum, mas uma longa distância nos separa, além da ritalina: para mim é possível exprimir vida da morte, porque a arte é a expressão da preocupação do homem e alegorização do desconhecido, única arma que pode nos safar de uma vida acinzentada. Já para ela, vida se extrai de vida, ainda que vida morna. Seja qual for a escolha do leitor, vida morna ou morte vida, fato é que assinei a sentença de vida e vida e vida: Direi a ela, com todas as letras, morfemas, fonemas e afins que tal velhinho é a minha estrela maior, é a ele - e apenas a ele - a quem posso dedicar qualquer linha mal escrita que saia de minhas mãos. Porque nos amamos desde longa data, desde quando era eu apenas doze. Aprendi nesta quarta cena que o único amor pelo qual se vale a pena lutar é aquele que te antecede em cinco séculos de nascimento.
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A quinta cena é recém parida. Uma de minhas melhores amigas, senão irmã, grávida. As circunstâncias não serão as mais favoráveis, ainda que seja - tal amiga - uma das mulheres mais inteligentes, brilhantes e esforçadas que conheci nesta cidade (apesar de não cozinhar, lavar louça e ser dona de um animalzinho medonho e esquizofrênico). Como se fosse eu mãe, senti até a ponta dos dedos uma alegria tão pura, tão lívida, tão fetal. E me cobri de amor, como se houvesse circundada à humanidade uma colcha de retalhos coloridos. Compartilho de sua alegria, de sua tristeza, de sua morte e de sua vida. Compartilho do seu tempo, querida irmã, somos e estamos no mesmo tempo: somos a escrita personificada, somos os heróis - com ou sem ritalina, ansiolítico e clonozepam. Somos, ao mesmo tempo, todas as cenas do mundo no curto espaço de uma tragédia aristotélica. (E a noite se fez dia, disse).
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Amanda Lopes de Freitas é mestranda em Estudos Literários e escreve para o Sofia de Buteco desde 2009. Não gosta de lecionar, mas o faria por dinheiro (atualmente se encontra desempregada). Gosta de ler, estudar, escrever e só por isso fez Letras, mas na verdade gosta mesmo é de hospitais e seu sonho é trabalhar em um. Também quer publicar um livro de crônicas. Está perdida na vida, mas tem esperanças em se encontrar até os trinta!  Quer ter dinheiro fácil para viajar o mundo e criar os filhos que ainda não tem. Interessa-se por: a vida alheia, todas as formas de escrita, hospitais, doenças sanguíneas, oncologia, medicina preventiva, morte, desastres, Deus, Diabos, religião, literatura, psicanálise, Idade Media, Ballet Clássico, Argentina,  Relações de poder (injustiças sociais), música, cinema, pessoas, facebook, investigar às amigas do namorido, ficar à toa e sonhar. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Fragmento de Facebook I

*A pequena galáxia - Foto de José Outeiro
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Gosto muito dos seres humanos e acho todos muito interessantes. Quando conheço uma pessoa, levo um bom tempo imaginando quem ela é. Se acredita em felicidade ou se é "realizada". Se sua opinião político-religiosa é fruto de experiência, reflexão ou pedantismo. O que essa pessoa é quando ninguém mais a vê, haveria lido todos os livros de sua biblioteca ou assiste à novela escondidinho? Será que ri sozinha? Como essa pessoa reagiria diante de uma traição, diante do desespero, diante da morte de um ente querido? O que essa pessoa gosta de comer? O que essa pessoa sonha? Quem essa pessoa ama? Será que a odeia...? Será que o suporta? Será absurda? Correria nua por aí, havendo vontade? Sente vontade? Tem sede? Tem angustia? Escolhera o carpete acinzentado? Pensaria em mim? Estaria disposta a enveredar-se pelo caminho mais austero, ir além de minhas vãs projeções mentais, configurar-se em semente para o nascer do broto filial, longe de todo egoísmo? Fazer-se raiz para o alicerce de flores e frutos, sem com isso garantir o ideal de felicidade terreno? Morrer?
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Pensaria que eu, secretamente, sinto-me superior a ela em algo muito particular ou vice versa? (Porque todo mundo é um pouco superior - e a oportunidade falta a todos -  e poucas coisas são realmente democráticas - o meu cãozinho é o melhor - a comida aqui de casa é mais gostosa - minha internet é banda larga - Meu cabelo é afro - Ganho a vida vendendo verdades - Gosto de você - Que olhos grandes você tem...)

- Oi! Tudo bem?
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 Entre o ventre materno e o último gozo,  nascem as relações humanas.